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OMC prepara corte de 10% no orçamento após novo atraso dos EUA

Entidade prevê congelamento de contratações, redução de temporários e corte de gastos diante da inadimplência de membros

Sede da Organização Mundial do Comércio (OMC), na Suíça (Foto: Reuters/Denis Balibouse)

247 - A Organização Mundial do Comércio (OMC) prepara uma redução de cerca de 10% em seus gastos em 2026, em meio ao novo atraso dos Estados Unidos no pagamento de contribuições e ao aumento do número de países inadimplentes. O plano inclui congelamento de contratações, redução de pessoal temporário e medidas para conter despesas operacionais.

As informações constam de documentos confidenciais da entidade vistos pela Reuters. A crise financeira ocorre em um momento de pressão política sobre a OMC, afetada pelas tarifas comerciais impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e pela paralisação prolongada de seu sistema de apelação, iniciada em 2019, quando Washington bloqueou nomeações para o principal órgão de solução de controvérsias da instituição.

De acordo com documentos internos do Comitê de Orçamento, Finanças e Administração, datados de 18 de fevereiro e 12 de março, os Estados Unidos estão entre os dez membros classificados na chamada categoria 1 de inadimplência. Essa condição se aplica a países que deixam de pagar suas contribuições por pelo menos um ano, mas por menos de dois.

Washington costuma ser o maior contribuinte da OMC, sediada em Genebra. Um documento baseado em dados do fim de dezembro aponta que os EUA devem 23,09 milhões de francos suíços à organização, valor equivalente a aproximadamente 11% do orçamento anual da entidade.

A OMC havia aprovado para 2026 um orçamento de 204,9 milhões de francos suíços, cerca de US$ 263 milhões. Segundo documento restrito de 18 de fevereiro, a proposta agora é reduzir esse montante para 183,4 milhões de francos, como forma de cobrir o déficit enquanto as contribuições atrasadas não forem recebidas.

Entre as medidas de contenção previstas estão o corte de 39 cargos equivalentes a tempo integral de curto prazo, a suspensão de novas contratações para funções com contrato fixo, o maior uso de estagiários de baixo custo e a redução de gastos com eletricidade.

“Em resposta a essa situação, o secretariado planejou uma redução de 10% nos gastos em 2026”, diz relatório confidencial do comitê orçamentário realizado em 2 de março, segundo a Reuters.

A situação se agravou após a OMC registrar o maior problema de atrasos de pagamento em uma década. Até o fim de 2025, 20 membros estavam sujeitos a medidas administrativas. Já um comunicado da presidência do comitê, de 12 de março, elevou esse número para 29 países, incluindo os Estados Unidos.

Pelas regras da organização, membros que deixam de pagar suas contribuições por mais de um ano passam a sofrer penalidades progressivas. Na categoria 1, os representantes desses países ficam impedidos de presidir órgãos da OMC e deixam de receber determinados documentos oficiais.

Além dos Estados Unidos, a Rússia e diversos países de menor renda também aparecem na primeira das três categorias de inadimplência. A Reuters informou que Washington já havia figurado nessa lista no ano passado, mas foi retirado ao fim de 2025 após efetuar um pagamento. Um documento confidencial de março, porém, mostra que o país voltou à categoria 1.

A incerteza sobre a regularização dos pagamentos aumenta a pressão sobre a instituição. Não está claro quando, ou se, os Estados Unidos quitarão os valores devidos. Em março, o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, afirmou que a OMC terá papel limitado na política comercial global nos próximos anos, com Washington dando prioridade a canais regionais, bilaterais e, quando necessário, unilaterais.

A entidade não comentou o caso, e o representante comercial dos Estados Unidos também não se manifestou. O orçamento deverá ser discutido em reunião do Conselho Geral da OMC em Genebra na quarta-feira (6). Segundo os documentos, pagamentos antecipados feitos por alguns membros garantiram fluxo de caixa no início do ano, mas os atrasos precisam ser quitados “o mais rápido possível”.

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