Organização sionista dos EUA canaliza milhões de dólares a comitês de campanha eleitoral
Al Jazeera aponta que lobby sionista usou comitês de ação política para ocultar gastos eleitorais
247 - O AIPAC (American Israel Public Affairs Committee, em português Comitê de Assuntos Públicos Estados Unidos-Israel) canaliza milhões de dólares por intermédio de comitês de ação política antes das eleições nos EUA, em uma estratégia que usa comitês intermediários (PAC) para ocultar gastos eleitorais e influenciar disputas ao Congresso em meio à crescente rejeição pública ao apoio a Israel e suas políticas de guerra e genocídio..
As informações são da Al Jazeera, que analisou registros públicos da Comissão Eleitoral Federal dos Estados Unidos e identificou repasses ligados ao Comitê de Assuntos Públicos EUA - Israel) o AIPAC, maior grupo de lobby sionista no país.
Um dos casos citados pela reportagem ocorreu em Illinois, onde um anúncio eleitoral de 30 segundos, exibido em março, apresentava a candidata Bushra Amiwala como defensora da “verdadeira justiça econômica” e como “a solução definitiva”. À primeira vista, a peça parecia uma propaganda comum de campanha. No entanto, a própria candidata repudiou rapidamente o vídeo.
Segundo os registros analisados, o anúncio foi pago por um comitê de ação política associado à rede de financiamento do AIPAC. A peça teria buscado impulsionar Amiwala para dividir votos de candidaturas progressistas mais competitivas, entre elas a ativista palestino-americana Kat Abughazaleh, que perdeu a disputa por pequena margem.
Rede de comitês e falta de transparência
O grupo que apareceu oficialmente no anúncio, a Chicago Progressive Partnership, não precisou revelar a origem de seus recursos antes da votação, realizada em março. Após a eleição, documentos da Comissão Eleitoral Federal mostraram que seu único financiador foi o Elect Chicago Women, outro PAC, que repassou US$ 1 milhão à parceria.
O Elect Chicago Women, por sua vez, recebeu mais de US$ 4 milhões do United Democracy Project, braço eleitoral do AIPAC, além de US$ 1 milhão do investidor Blair Frank, um dos maiores doadores do UDP. O AIPAC também repassou US$ 1,3 milhão a um terceiro PAC, o Affordable Chicago Now.
Para defensores dos direitos palestinos, a movimentação revela o uso de “PACs de fachada” para reduzir a visibilidade do envolvimento do lobby pró-Israel nas primárias. Críticos descrevem a estratégia como uma espécie de “boneca russa”, na qual recursos passam de um comitê para outro antes de chegar à campanha ou ao anúncio eleitoral.
“Eles são tão impopulares dentro do Partido Democrata que precisam se esconder”, disse Usamah Andrabi, porta-voz do Justice Democrats, à Al Jazeera. “Temos que continuar expondo-os e investigando cada detalhe para descobrir se este ou aquele comitê de ação política de fachada é financiado pelo AIPAC.”
Andrabi também afirmou que a atuação do grupo revela falhas estruturais do sistema político norte-americano. “A cada ciclo eleitoral, o AIPAC demonstra o quão falida é a nossa democracia e o quão corrupto é o nosso sistema de financiamento político”, disse. “A cada ciclo eleitoral, eles estão na vanguarda da exploração dessas lacunas em benefício de seus doadores de direita e em detrimento dos eleitores.”
Rejeição a Israel cresce entre democratas
A reportagem destaca que a reação ao AIPAC ocorre em um contexto de crescente desgaste da imagem de Israel entre eleitores dos Estados Unidos, especialmente entre democratas. A guerra conjunta EUA-Israel contra o Irã e o ataque genocida a Gaza, apoiado pelo AIPAC, ampliaram a oposição ao grupo entre setores progressistas.
Pesquisa do The New York Times e do Siena College citada pela Al Jazeera mostrou que 37% dos eleitores norte-americanos simpatizam com os palestinos, enquanto 35% simpatizam com os israelenses. Entre democratas, 57% demonstraram maior simpatia pelos palestinos.
Outro levantamento, do Pew Research Center, apontou rejeição ainda mais expressiva à política israelense entre a esquerda. Segundo a pesquisa, 80% dos democratas entrevistados afirmaram ter visão desfavorável de Israel.
Para Omar Shakir, diretor executivo da organização de direitos humanos DAWN, sediada nos Estados Unidos, o uso de estruturas indiretas de financiamento pelo AIPAC evidencia perda de legitimidade pública.
Encaminhar recursos “através de estruturas complexas de comitês de ação política concebidas para ocultar a origem do dinheiro reflete fraqueza, não força”, disse Shakir à Al Jazeera. “Eles não conseguem defender o genocídio, o apartheid e a limpeza étnica de Israel, então estão manipulando o sistema longe dos olhos do público.”
Brechas legais permitem gastos ilimitados
A falta de transparência decorre, em parte, de uma decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos de 2010, que autorizou empresas e grupos de defesa a gastar quantias ilimitadas em eleições, desde que não haja coordenação direta com as campanhas beneficiadas.
Na prática, muitos PACs só precisam divulgar seus doadores depois das eleições. Além disso, organizações sem fins lucrativos que atuam politicamente, conhecidas como grupos de financiamento oculto, podem influenciar disputas sem revelar publicamente a origem de seus recursos.
A Al Jazeera relata que essa estrutura tem provocado confusão em diferentes primárias. Na Pensilvânia, a candidata democrata Ala Stanford afirmou não ter recebido dinheiro do AIPAC. No entanto, o principal financiador de sua campanha foi o 314 Action Fund, PAC que apoia cientistas democratas e que havia recebido US$ 1 milhão do AIPAC no ciclo eleitoral de 2024.
A extensão do envolvimento do grupo pró-Israel na disputa da Pensilvânia ainda é incerta. O deputado estadual progressista Chris Rabb, que classificou as atrocidades de Israel em Gaza como genocídio, venceu as primárias realizadas na terça-feira.
No Kentucky, o AIPAC e outros grupos pró-Israel ajudaram a derrotar o congressista Thomas Massie, um dos poucos republicanos críticos ao presidente Donald Trump. A disputa foi descrita como a primária para a Câmara dos Representantes mais cara da história dos Estados Unidos, mas os doadores do PAC que mais gastou na eleição não foram totalmente revelados.
Andrabi afirmou que não basta que candidatos neguem proximidade com o AIPAC. “Sabemos que o AIPAC não despeja dinheiro em candidatos a menos que esses candidatos aprovem automaticamente a agenda deles em Washington”, disse.
“Portanto, não se trata apenas do que eles dizem e se negam ou não ter o apoio do AIPAC. Vamos perguntar a eles quais políticas apoiarão no Congresso. Apoiarão um embargo de armas contra Israel? Chamarão um genocídio de genocídio? Cortarão todo o financiamento ao governo e às forças armadas israelenses? Esse é um bom teste decisivo para nós.”
A influência do AIPAC em Washington
Além dos gastos por meio do United Democracy Project e de PACs associados, o AIPAC incentivou doadores individuais a contribuírem para campanhas de 361 legisladores, incluindo o presidente republicano da Câmara, Mike Johnson, e o líder da minoria democrata, Hakeem Jeffries.
A lista de parlamentares apoiados pelo grupo atravessa diferentes correntes ideológicas, de liberais como Ted Lieu a figuras de extrema-direita e anti-muçulmanas, como Randy Fine.
A influência do AIPAC em Washington já foi reconhecida pelo ex-presidente Barack Obama. Em suas memórias de 2020, ele escreveu que políticos temiam “contrariar” o grupo de lobby. “Aqueles que criticassem a política israelense de forma muito veemente corriam o risco de serem rotulados como ‘anti-Israel’ (e possivelmente antissemitas) e de enfrentarem um adversário bem financiado na próxima eleição”, afirmou Obama.
Segundo a Al Jazeera, o AIPAC não respondeu ao pedido de comentário até a publicação da reportagem original.
DAWN pede divulgação de nomes e estrutura interna
A organização DAWN divulgou um relatório baseado em informações do LinkedIn para rastrear funcionários atuais e antigos do AIPAC e suas conexões profissionais. O estudo afirma que há vínculos entre integrantes do grupo e estruturas dos governos dos Estados Unidos e de Israel.
“A análise da DAWN mostra que 66 ex-funcionários do AIPAC trabalham atualmente no governo dos EUA, do Congresso à Casa Branca e a vários ramos das forças armadas; quase duas dezenas de funcionários atuais do AIPAC trabalharam anteriormente em órgãos do governo dos EUA”, diz o relatório.
O documento também afirma que “as relações pessoais e profissionais que resultam desse tipo de porta giratória formam a espinha dorsal da influência política em Washington, o que se evidencia nas centenas de conexões profissionais entre funcionários do AIPAC e funcionários federais e estaduais dos EUA.”
A DAWN cobrou que o AIPAC torne públicos os nomes das pessoas que dirigem e trabalham para o grupo. “O AIPAC deveria publicar, no mínimo, uma página com a lista atual de sua liderança em seu site oficial”, afirmou a organização. “A página deve identificar os dirigentes, o conselho administrativo, a equipe sênior e os chefes de departamento da AIPAC, com fotos e biografias. A AIPAC também deve publicar um organograma mostrando a estrutura da instituição. Este é o padrão mínimo que organizações sem fins lucrativos isentas de impostos semelhantes já atendem.”
Shakir afirmou que, por causa do status de isenção fiscal do AIPAC como organização sem fins lucrativos, os contribuintes “efetivamente subsidiam” o grupo pró-Israel. “Eles merecem saber como o AIPAC atua para moldar a política dos EUA em relação ao Oriente Médio e quem trabalha para ele”, disse ele à Al Jazeera.



