“Queremos fazer os melhores acordos com os Estados Unidos”, afirma Lula
Após encontro na Casa Branca, Lula disse estar otimista com negociações sobre tarifas e investimentos
247 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta quinta-feira (7) que o Brasil tem interesse em fazer “os melhores acordos com os Estados Unidos” e ampliar a parceria econômica entre os dois países, em áreas como comércio, investimentos, minerais críticos e transição energética, sem abrir mão da soberania nacional.
A declaração foi feita após reunião com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na Casa Branca, em Washington. Segundo Lula, o encontro marcou um avanço na relação bilateral e demonstrou que Brasil e Estados Unidos, as duas maiores democracias do hemisfério, podem reconstruir uma agenda comum baseada em diálogo, interesses econômicos e respeito mútuo.
“Eu tenho razões para acreditar que o Trump gosta do Brasil. E por isso eu quero que ele saiba que nós brasileiros temos interesse em fazer os melhores acordos com os Estados Unidos”, afirmou Lula.
O presidente brasileiro disse ter saído “muito satisfeito” da reunião e destacou que a relação entre os dois países tem peso histórico. Lula lembrou que, durante todo o século XX, os Estados Unidos foram o principal parceiro comercial do Brasil, posição que passou a ser ocupada pela China a partir de 2008.
Para Lula, esse deslocamento comercial não impede que Washington volte a ampliar sua presença econômica no Brasil. O presidente afirmou ter dito a Trump que empresas norte-americanas muitas vezes deixam de participar de licitações internacionais em áreas como rodovias e ferrovias, enquanto companhias chinesas ocupam esse espaço.
“É importante que os Estados Unidos voltem a ter interesse nas coisas do Brasil”, disse Lula.
Comércio e tarifas no centro da conversa
A discussão sobre comércio e tarifas foi um dos pontos centrais da reunião. Lula afirmou que apresentou a Trump dados sobre o saldo comercial entre os dois países e defendeu que eventuais divergências sejam tratadas por equipes técnicas, com prazo definido para a apresentação de propostas.
Segundo o presidente, o Brasil registrou déficit de US$ 14 bilhões com os Estados Unidos no último ano, enquanto os norte-americanos acumularam superávit expressivo nas trocas comerciais com o Brasil nos últimos 15 anos.
Lula também contestou a avaliação de que o Brasil cobraria tarifas excessivas sobre produtos dos Estados Unidos. De acordo com ele, a média tarifária aplicada pelo Brasil aos produtos norte-americanos é de 2,7%.
“Vamos fazer o seguinte, vamos colocar um grupo de trabalho e vamos permitir que esse moço da Indústria e Comércio do Brasil, junto com o teu moço do comércio, sentem em 30 dias. Apresente para nós uma proposta para a gente poder bater o martelo. Quem tiver errado vai ceder. Se alguém tiver que ceder, nós vamos ceder. Se vocês tiverem que ceder, vocês vão ter que ceder”, afirmou.
Lula disse estar otimista em relação ao encaminhamento das negociações. Para ele, decisões políticas tomadas em reuniões presidenciais precisam ser acompanhadas de metas claras para evitar que fiquem paralisadas na burocracia estatal.
“Os presidentes têm prazo de validade”
Ao defender uma agenda objetiva com Trump, Lula afirmou que os governos precisam transformar entendimentos diplomáticos em resultados concretos. O presidente disse que a burocracia pública tende a retardar decisões e que, por isso, é necessário estabelecer prazos.
“Vocês sabem o meu conceito de máquina pública. A máquina pública é eterna. O presidente tem prazo de validade. Eles têm data para entrar e data para sair”, declarou.
Segundo Lula, a criação de um grupo de trabalho com prazo de 30 dias busca justamente evitar que as divergências comerciais permaneçam sem solução. O presidente afirmou que Brasil e Estados Unidos precisam avançar em acordos que tragam benefícios concretos para os dois lados.
“Nós temos quatro anos de mandato, as coisas têm que acontecer. Então é preciso que a gente estabeleça plano de metas em cada reunião”, disse.
Investimentos dos EUA no Brasil
Lula também afirmou que o Brasil quer atrair mais investimentos norte-americanos. O presidente citou oportunidades em transição energética, infraestrutura, tecnologia e data centers, mas ressaltou que empresas estrangeiras que desejem instalar estruturas no país devem respeitar as condições brasileiras.
No caso dos data centers, Lula afirmou que o Brasil pode oferecer oportunidades, desde que as empresas arquem com a produção da energia necessária.
“Nós temos interesse, muito interesse, que os Estados Unidos voltem a investir no Brasil”, afirmou.
O presidente disse que o Brasil reúne condições favoráveis para receber investimentos ligados à transição energética e reforçou que o país pretende transformar sua capacidade produtiva em vantagem estratégica nas relações internacionais.
Minerais críticos e soberania
Outro tema tratado na reunião foi a exploração de minerais críticos e terras raras. Lula afirmou que o Brasil está aberto a parcerias com empresas dos Estados Unidos e de outros países, mas destacou que a exploração dessas riquezas precisa ocorrer sob regulamentação soberana brasileira.
O presidente disse que o Brasil não pretende ser apenas exportador de matéria-prima. Para ele, o país precisa avançar na cadeia produtiva, incluindo etapas de mineração, separação, transformação e geração de valor.
“O que nós não queremos é ser meros exportadores dessas coisas”, disse.
Lula afirmou que empresas norte-americanas, chinesas, alemãs, japonesas, francesas e de outros países serão bem-vindas caso queiram investir em parceria com o Brasil.
“Nós não temos preferência. O que nós queremos é fazer parceria”, declarou.
Relação bilateral em novo momento
Lula afirmou que sua relação com Trump evoluiu desde contatos anteriores, incluindo um breve encontro em Nova York, telefonemas e uma reunião na Malásia. Segundo o presidente brasileiro, o diálogo se tornou mais direto e produtivo.
“A nossa relação é muito boa, mas muito boa. Eu diria uma relação que pouca gente acreditava que pudesse acontecer com tanta rapidez”, afirmou.
O presidente também ressaltou que eventuais divergências políticas não devem impedir a construção de acordos de interesse nacional. Questionado sobre interferência estrangeira em eleições brasileiras, Lula disse que o tema não será tratado com líderes de outros países e que cabe exclusivamente ao povo brasileiro decidir seu futuro.
“Não existe nenhuma possibilidade de eu discutir esse assunto com qualquer presidente de qualquer país do mundo. Esse é um assunto brasileiro”, afirmou.
Democracia e soberania como limites
Apesar da disposição para negociar, Lula afirmou que há princípios dos quais o Brasil não abre mão. O presidente disse que o país está pronto para discutir qualquer tema com qualquer governo, mas que democracia e soberania nacional são inegociáveis.
“O Brasil está preparado para discutir com qualquer país do mundo qualquer assunto. Nós não temos veto, não tem assunto proibido. A única coisa que nós não abrimos mão é da nossa democracia e da nossa soberania. O resto é tudo discutível”, declarou.
Ao final, Lula classificou a reunião como positiva para os dois países e indicou que o objetivo do Brasil é transformar o bom clima político em acordos concretos com Washington. Para o presidente, a retomada de uma agenda robusta com os Estados Unidos pode reforçar o papel do Brasil em um cenário internacional marcado por disputas comerciais, tensões geopolíticas e reorganização das cadeias produtivas.


