Republicanos alertam Trump sobre tomada da Groenlândia: 'seria o fim de sua presidência'
Aliados do presidente dos Estados Unidos veem risco à Otan, desgaste eleitoral e ruptura com parceiros estratégicos
247 - A retomada do discurso expansionista do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em torno da Groenlândia desencadeou um movimento raro de dissidência dentro do Partido Republicano. Parlamentares conservadores, alguns deles historicamente alinhados à Casa Branca, passaram a fazer alertas públicos sobre as consequências políticas, diplomáticas e estratégicas de uma eventual tentativa de controle do território, que pertence ao Reino da Dinamarca, aliado dos EUA na Otan.
A reportagem foi publicada originalmente pelo jornal britânico The Guardian, que detalha como o tema voltou ao centro do debate após Trump reacender o interesse pela Groenlândia depois da operação norte-americana na Venezuela que resultou no sequestro do presidente Nicolás Maduro, levado a julgamento em Nova York.
Embora republicanos no Congresso costumem evitar confrontos diretos com o presidente dos Estados Unidos, o cenário atual tem estimulado manifestações mais firmes. Pesquisas indicam ampla rejeição popular à ideia de anexação da Groenlândia, enquanto autoridades dinamarquesas alertam que qualquer invasão significaria, na prática, o colapso da Otan.
Um dos posicionamentos mais contundentes partiu do senador Thom Tillis, da Carolina do Norte, que discursou no plenário do Senado. “A ideia de os Estados Unidos adotarem a posição de que tomariam a Groenlândia, um território independente dentro do Reino da Dinamarca, é absurda”, afirmou. Segundo ele, “alguém precisa dizer ao presidente que o povo da Groenlândia, até estes tempos recentes, era na verdade muito, muito pró-americano e muito favorável à presença americana”.
Na Câmara dos Representantes, o deputado Don Bacon, de Nebraska, foi ainda mais direto ao comentar o impacto político da iniciativa. Em entrevista ao Omaha World-Herald, declarou: “Se ele levasse essas ameaças adiante, acho que seria o fim da presidência dele. E ele precisa saber: a saída é perceber que os republicanos não vão tolerar isso e que ele vai ter de recuar. Ele odeia ouvir um não, mas, neste caso, acho que os republicanos precisam ser firmes”.
O ex-líder republicano no Senado Mitch McConnell também se posicionou contra a proposta, comparando seus possíveis efeitos ao desgaste causado pela retirada das tropas dos Estados Unidos do Afeganistão em 2021, durante o governo de Joe Biden. “Levar essa provocação adiante seria mais desastroso para o legado do presidente do que a retirada do Afeganistão foi para seu antecessor”, disse McConnell. Ele alertou que a medida significaria “incinerar a confiança duramente conquistada de aliados leais em troca de nenhuma mudança significativa no acesso dos EUA ao Ártico”.
No segundo mandato, Trump tem reiterado uma postura expansionista, chegando a afirmar publicamente que gostaria de anexar o Canadá, o canal do Panamá e a Groenlândia. O tema havia perdido força nos últimos meses, em meio à queda de popularidade do governo, impulsionada por preocupações com o custo de vida e pela política de imigração fortemente militarizada. No entanto, voltou à pauta após a operação bem-sucedida na Venezuela.
As declarações de Trump provocaram reação imediata na Europa. Tropas da França, Alemanha, Reino Unido, Noruega e Suécia desembarcaram na Groenlândia nesta semana em uma demonstração de apoio político, que um dos países descreveu também como uma missão exploratória sobre como seria uma presença militar prolongada no território.
Apesar de uma reunião entre representantes da Groenlândia e da Dinamarca com Trump, o vice-presidente JD Vance e o secretário de Estado Marco Rubio, não houve mudança na posição do presidente dos Estados Unidos. Após o encontro, Trump voltou a afirmar que os EUA ainda “precisam” da Groenlândia por razões de segurança nacional e chegou a ameaçar impor tarifas a países que se oponham à sua campanha.
Mesmo mantendo a maioria dos republicanos alinhados, Trump tem enfrentado fissuras pontuais. Após o Senado avançar uma resolução que exigiria notificação prévia ao Congresso antes de um novo ataque à Venezuela, o presidente dos Estados Unidos criticou duramente os cinco republicanos que apoiaram a medida ao lado dos democratas. Dias depois, dois senadores do partido mudaram seus votos para barrar a proposta.
Tillis, Bacon e McConnell não concorrem à reeleição neste ano, mas outros parlamentares também se manifestaram contra a ideia. A senadora Lisa Murkowski, do Alasca, afirmou durante visita a Copenhague: “Esta senadora do Alasca não acha que seja uma boa ideia, e eu quero construir sobre a relação que temos tido. A Groenlândia precisa ser vista como nossa aliada, não como um ativo”.
Até mesmo republicanos mais próximos ao presidente dos Estados Unidos demonstraram desconforto, sobretudo pelo impacto sobre a Otan. O deputado Mike Turner, de Ohio, escreveu nas redes sociais: “Como chefe da delegação dos EUA na Assembleia Parlamentar da Otan, não posso exagerar a importância de nossas relações transatlânticas. Precisamos respeitar a soberania do povo dinamarquês e da Groenlândia”.
Em entrevista à CNN, o senador John Kennedy, da Louisiana, usou termos duros ao comentar o cenário: “Invadir a Groenlândia e atacar sua soberania, um país aliado da Otan, seria estupidez de nível militar. O presidente Trump não é estupidez de nível militar”.


