Site Politico censura artigo de Lavrov com verdades inconvenientes para o Ocidente
Chanceler russo afirma que Europa usa discurso diplomático para encobrir expansão geopolítica, prolongar a guerra na Ucrânia e preservar o governo Zelensky
247 – O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, acusou os principais países europeus de utilizarem a diplomacia como instrumento de pressão contra Moscou, afirmando que as recentes propostas apresentadas por Reino Unido, França, Alemanha e Vladimir Zelensky não representam um caminho real para a paz na Ucrânia, mas um ultimato destinado a preservar a estratégia ocidental de confrontação com a Rússia.
O artigo, publicado pela RT Brasil, havia sido aceito pelo site Politico, mas foi derrubado na última hora, sem explicações, segundo a publicação. O texto parte da reunião realizada em Londres em 7 de junho, quando líderes europeus e Zelensky apresentaram cinco exigências à Rússia como condições para uma chamada “paz justa e duradoura”. Para Lavrov, essas exigências não abrem espaço para uma negociação séria, pois reproduzem a lógica de imposição que, segundo ele, marcou a relação do Ocidente com Moscou nas últimas décadas.
Diplomacia como cobertura para expansão
Lavrov sustenta que a experiência de mais de 20 anos de negociações entre a Rússia e a Europa, dentro do que chama de “Ocidente coletivo”, demonstra que o diálogo foi frequentemente usado como “tática enganosa” e como “cobertura diplomática” para a expansão geopolítica da OTAN e da União Europeia em direção às fronteiras russas.
Segundo o chanceler, a Europa teve papel direto no agravamento da crise ucraniana. Ele afirma que, junto com os Estados Unidos, os europeus incentivaram a chamada “Revolução Laranja” em Kiev, em 2004, e passaram anos construindo uma plataforma política antirrussa na Ucrânia. Nesse processo, segundo Lavrov, teriam financiado políticos e partidos, reescrito programas educacionais, alimentado o nacionalismo ucraniano e estimulado o afastamento entre Kiev e Moscou.
O ministro também acusa a União Europeia de ter rejeitado, em 2013, uma proposta russa para buscar uma solução de compromisso sobre o acordo de associação que Bruxelas pretendia firmar com a Ucrânia. Lavrov recorda que o então presidente Viktor Yanukovich pediu o adiamento da assinatura do acordo, em razão de incompatibilidades com a permanência da Ucrânia na zona de livre comércio da Comunidade dos Estados Independentes. Na avaliação de Moscou, a resposta europeia foi fomentar distúrbios de rua que culminaram no golpe de Estado em Kiev em fevereiro de 2014.
Minsk, Odessa e a sabotagem da paz
Lavrov afirma que Alemanha, França e Polônia tiveram conduta “traiçoeira” no processo que sucedeu a queda de Yanukovich. Segundo ele, esses países ofereceram garantias para o cumprimento de um acordo político, mas “lavaram as mãos” quando a oposição apoiada pelo Ocidente assumiu o poder em Kiev.
O chanceler também menciona a tragédia de Odessa, em 2 de maio de 2014, quando dezenas de partidários da aproximação com a Rússia morreram queimados. De acordo com Lavrov, a Europa não emitiu “uma única palavra de condenação” diante do episódio.
Outro ponto central de sua crítica é o papel de França e Alemanha como garantidoras dos Acordos de Minsk, firmados em 2015 e aprovados pelo Conselho de Segurança da ONU. Lavrov afirma que Paris e Berlim, em vez de assegurar o cumprimento dos compromissos, estimularam a sabotagem das obrigações por parte do governo ucraniano.
Ele cita declarações posteriores de Angela Merkel e François Hollande segundo as quais os acordos teriam servido para ganhar tempo e fortalecer militarmente Kiev. Segundo Lavrov, nunca teria havido intenção real de fazer a Ucrânia cumprir Minsk. O objetivo, em sua avaliação, era reforçar as Forças Armadas ucranianas e abastecê-las com armas ocidentais.
A rejeição das garantias de segurança
O chanceler russo afirma que Moscou tentou evitar a escalada por meio da diplomacia. Ele recorda que, em janeiro de 2022, a Rússia propôs aos Estados Unidos e à OTAN acordos juridicamente vinculantes sobre garantias mútuas de segurança. A proposta, segundo Lavrov, foi rejeitada por Washington e pela aliança militar, com participação ativa dos países europeus.
Depois do início da operação militar especial russa na Ucrânia, Lavrov acusa a Europa de ter apoiado a linha do então primeiro-ministro britânico Boris Johnson para sabotar as negociações de Istambul entre Rússia e Ucrânia. O chanceler cita o apelo de Johnson para que Kiev “não assinasse nada e simplesmente lutasse”, o que, segundo ele, fechou por longo período as possibilidades de uma diplomacia real.
Para Lavrov, esse histórico explica por que Moscou vê com desconfiança as novas declarações europeias em defesa de negociações. A seu ver, os mesmos países que teriam bloqueado soluções anteriores agora tentam se apresentar como promotores de uma paz que, na prática, manteria intactas as causas profundas do conflito.
As novas exigências da Europa
Lavrov critica declarações recentes da chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, segundo as quais o diálogo com a Rússia seria necessário para transmitir as condições europeias. Entre elas, estariam o pagamento de “reparações” à Ucrânia, a retirada de tropas russas da Transnístria e da Transcaucásia, a revogação da lei russa sobre “agentes estrangeiros” e a imposição de um limite máximo ao efetivo das Forças Armadas da Federação da Rússia.
Para o chanceler, tais exigências demonstram que a Europa não busca uma negociação equilibrada, mas a responsabilização unilateral da Rússia. Ele também cita uma declaração feita em 19 de maio por um representante da União Europeia no Conselho de Segurança da ONU, segundo a qual “o apoio militar à Ucrânia não contradiz a busca pela paz; é uma condição prévia para a realização de negociações de boa-fé”.
Na avaliação de Lavrov, essa lógica inverte o sentido da diplomacia, pois combina o discurso de paz com a continuidade do fornecimento de armas, sanções e medidas jurídicas contra Moscou.
Conselho da Europa e guerra jurídica
Lavrov acusa ainda os países europeus de promoverem uma “agressão jurídica” contra a Rússia por meio do Conselho da Europa. Segundo ele, a organização, que já foi respeitada por Moscou, passou a criar estruturas voltadas à responsabilização da Rússia, como um “registro de danos”, uma “comissão de reivindicações” e um “tribunal especial”.
O chanceler também afirma que a União Europeia deu “sinal verde” para a detenção de navios mercantes em alto-mar, mencionando incidentes no Báltico e no Atlântico. Ao mesmo tempo, segundo ele, o Ocidente ignoraria sabotagens atribuídas às Forças Armadas da Ucrânia no Mar Negro e no Mediterrâneo.
Para Lavrov, esses elementos mostram que o objetivo real dos líderes europeus não é negociar com a Rússia, mas salvar o governo de Vladimir Zelensky e preservar a Ucrânia como plataforma de pressão militar e política contra Moscou.
Cessar-fogo para congelar o conflito
O chanceler russo afirma que as capitais europeias buscam um cessar-fogo rápido não para solucionar a crise, mas para impedir o colapso das Forças Armadas da Ucrânia na frente de combate. A estratégia, segundo ele, seria “congelar” o conflito sem eliminar suas causas profundas e, em seguida, introduzir na Ucrânia contingentes militares da chamada “coalizão dos voluntários” liderada por Reino Unido e França.
Lavrov também acusa as elites europeias de terem investido seu “capital político” na confrontação com a Rússia. Ele afirma que centenas de bilhões de dólares foram destinados ao apoio ao governo de Kiev e ao aumento dos orçamentos militares da União Europeia e da OTAN.
Segundo o chanceler, a Europa pretende atingir “capacidade de combate” para um eventual conflito com a Rússia até 2030. Ele cita uma declaração atribuída ao chefe do Estado-Maior belga, que teria dito em abril: “Ainda temos alguns anos graças ao sangue dos ucranianos, que nos compra esse tempo”.
Ucrânia como plataforma militar
Lavrov afirma que a Europa continua perseguindo uma agenda expansionista, buscando incorporar Ucrânia e Moldávia e atrair a Armênia para sua órbita. Ele também menciona a ampliação da OTAN para o Leste, com a entrada de Finlândia e Suécia na aliança militar.
Na visão de Moscou, a Ucrânia passou a ser tratada como o “punho de ataque” das futuras forças armadas europeias, em um projeto de autonomia militar em relação aos Estados Unidos e à própria OTAN. Para Lavrov, essa dinâmica aumenta os riscos para a segurança global, pois pode levar a um confronto direto entre a Rússia e a aliança atlântica.
O chanceler adverte que um choque direto entre Rússia e OTAN poderia rapidamente se transformar em troca de ataques nucleares, com consequências catastróficas. Ele expressa preocupação especial com o fortalecimento militar europeu sob o lema da “autonomia estratégica”, inclusive na esfera nuclear.
Lavrov critica ainda a intenção de Paris de oferecer um “guarda-chuva nuclear” a países da União Europeia e da OTAN. Segundo ele, essa medida não aumentaria a segurança nem da França nem dos países que receberiam essa proteção.
A posição russa para uma negociação
Ao tratar da possibilidade de negociações, Lavrov afirma que a Rússia não rejeita contatos com ninguém. Ele recorda que Vladimir Putin voltou a declarar, no Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo, que Moscou está aberta ao diálogo.
No entanto, Lavrov ressalta que a Rússia enxerga a Europa como parte interessada no conflito, e não como observadora imparcial. Segundo ele, os próprios líderes europeus se apresentam abertamente como atores comprometidos com a derrota da Rússia. Por isso, o diálogo com a Europa não poderia ser construído como se Bruxelas, Paris, Londres ou Berlim fossem mediadores neutros.
O chanceler afirma que a Rússia prefere alcançar os objetivos da operação militar especial por meio da diplomacia. Para isso, segundo ele, é necessário garantir de forma confiável a segurança russa em suas fronteiras ocidentais, além da honra e da dignidade dos cidadãos e compatriotas russos, incluindo o direito à língua russa materna e à fé ortodoxa.
Lavrov também afirma que não pode haver discussão sobre a continuidade da expansão militar, política e econômica do Ocidente, pois isso contrariaria os imperativos de um mundo multipolar.
Uma nova arquitetura de segurança
Na avaliação de Lavrov, o modelo de segurança regional construído na Europa desde a Ata Final de Helsinque, de 1975, foi destruído pelas próprias ações europeias. Ele defende a criação de uma nova arquitetura de segurança pancontinental, aberta a todos os países da Eurásia e compatível com as realidades de um mundo multipolar.
O chanceler sustenta que o princípio da segurança igual e indivisível, que segundo ele foi violado pelas estruturas euro-atlânticas, poderia tornar-se realidade em uma nova arquitetura euroasiática. A Europa, afirma Lavrov, poderia participar desse processo quando as condições estivessem maduras.
Para que isso ocorra, ele considera indispensável restabelecer a confiança, profundamente abalada pelas ações antirrussas do Ocidente após a Guerra Fria. Essa confiança, segundo Lavrov, não será restaurada por meio de ultimatos, mas apenas por medidas práticas que demonstrem a renúncia ao uso da diplomacia como cobertura para projetos expansionistas.
O chanceler conclui que o ultimato apresentado à Rússia em Londres, em 7 de junho, vai na direção oposta. Segundo ele, a postura foi confirmada pelos embaixadores do Reino Unido, da França e da Alemanha em reunião realizada no Ministério das Relações Exteriores da Rússia em 11 de junho, encontro que, de acordo com Lavrov, foi solicitado pelos próprios diplomatas europeus.
Para Moscou, esse episódio reforça a percepção de que a Europa não está pronta para uma negociação substantiva. A mensagem central de Lavrov é que a Rússia não aceitará discutir segurança regional sob pressão, imposição ou ultimatos, especialmente vindos de países que, em sua avaliação, atuaram durante anos para expandir a influência militar e política do Ocidente até as fronteiras russas.



