Jeffrey Sachs acusa Alemanha de empurrar Europa para uma guerra com a Rússia
Economista afirma que Berlim tem responsabilidade histórica e diplomática diante da escalada na Ucrânia e critica ausência de diálogo com Moscou
247 – O economista norte-americano Jeffrey Sachs voltou a fazer duras críticas à condução europeia da guerra na Ucrânia e afirmou que a Alemanha, sob liderança do chanceler Friedrich Merz, tem responsabilidade especial para evitar que o continente caminhe para uma guerra direta com a Rússia. Em entrevista ao canal de Glenn Diesen no YouTube, Sachs disse que a situação “é completamente alarmante” e cobrou uma retomada imediata da diplomacia.
A entrevista teve como ponto de partida uma nova carta aberta escrita por Sachs ao chanceler alemão. Segundo ele, a segunda manifestação pública se tornou necessária porque o cenário se deteriorou nos últimos seis meses. “Para colocar de forma simples, as coisas estão piores agora do que estavam há seis meses. Essa foi a razão da carta”, afirmou.
Sachs vê escalada e acusa Europa de abandonar a diplomacia
Sachs lembrou que, em dezembro de 2025, já havia enviado uma primeira carta aberta a Merz, na qual alertava para o risco de escalada e para o papel particular da Alemanha, que ele descreveu como o país mais populoso e poderoso da Europa. Na avaliação do economista, Berlim carrega responsabilidades históricas e políticas específicas diante da crise atual.
O professor disse ter visto, em janeiro de 2026, “lampejos de esperança” quando Merz fez discursos reconhecendo que a Rússia faz parte da Europa e que seria necessário conviver com Moscou após o fim da guerra. Segundo Sachs, Merz, o presidente francês Emmanuel Macron e outros líderes europeus chegaram a falar sobre a necessidade de uma nova diplomacia.
Esse movimento, no entanto, teria se dissipado. Sachs criticou o fato de a União Europeia não ter conseguido definir um interlocutor respeitado por todos os lados para conversar com Moscou. Ele também atacou a chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, a quem chamou de “russofóbica aberta”, afirmando que suas declarações contra a Rússia inviabilizariam sua atuação como principal diplomata do bloco.
“A situação é alarmante agora”
Para Sachs, os acontecimentos recentes revelam uma escalada perigosa. Ele citou o ataque a uma escola feminina em Starobilsk, em Lugansk, que, segundo sua descrição, teria causado muitas mortes de estudantes. O economista criticou a ausência de pedido de desculpas ou explicações por parte da Europa e disse que houve “negação ou silêncio” diante do episódio.
Na entrevista, Sachs também afirmou que, em resposta, o chanceler russo Sergei Lavrov teria alertado o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, de que a Rússia atacaria Kiev, incluindo centros de comando e áreas de controle operacional na capital ucraniana. “Esse ataque ainda não veio, apesar dos avisos, mas acho que podemos esperar que ele venha”, disse.
O economista também mencionou episódios envolvendo drones no espaço aéreo do Báltico e na Romênia, perto da fronteira com a Ucrânia, classificando-os como eventos “contestados” e “não explicados”, mas que aumentariam a tensão. Ele criticou ainda declarações vindas dos países bálticos sobre possíveis ataques a Kaliningrado ou uso de seus territórios como base para operações de drones contra o noroeste da Rússia.
“Nada disso é o tipo de comportamento de que precisamos em uma era nuclear”, afirmou Sachs. “Tudo isso é incrivelmente irresponsável, incrivelmente negligente com a sua vida, com a minha vida e com a de todos nós no planeta. É verdadeiramente chocante”.
Responsabilidade alemã desde 1990
Um dos pontos centrais da entrevista foi a crítica de Sachs à expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) para o leste europeu. Ele afirmou que sua cobrança à Alemanha não se baseia apenas em responsabilidades históricas gerais, mas em compromissos assumidos a partir de 1990, no contexto da reunificação alemã.
Segundo Sachs, a reunificação da Alemanha exigiu a aprovação da União Soviética e das potências ocupantes após a Segunda Guerra Mundial. Em sua interpretação, o acordo envolvia o compromisso de que a Alemanha e o Ocidente não se aproveitariam da reunificação para mover forças militares rumo à Europa Central e Oriental, muito menos em direção à Ucrânia e à Geórgia.
“A Alemanha trapaceou na reunificação alemã de uma forma fundamental”, afirmou. “A Alemanha e os Estados Unidos trapacearam. E isso, a meu ver, é a razão subjacente pela qual as tensões aumentaram por mais de 30 anos”.
Sachs disse ter citado em sua carta seis episódios nos quais, em sua visão, a Alemanha não teria agido de forma honesta no contexto geopolítico. Para ele, Berlim se beneficiou da reunificação e, por isso, teria obrigação especial de impedir uma nova guerra europeia.
Crítica à narrativa ocidental sobre a Rússia
O economista atacou o que chamou de narrativa unilateral do Ocidente sobre a guerra. Segundo ele, líderes europeus repetem a ideia de que a Europa seria “pura” e a Rússia “má”, sem reconhecer erros próprios no processo que levou à escalada.
“Essa narrativa unilateral interminável — nós somos puros, eles são maus, tudo o que eles fazem é não provocado — é o que vai nos levar a um desastre completo e total”, afirmou.
Sachs defendeu que a Europa deveria, antes de tudo, expressar condolências ou pedir desculpas pelo ataque à escola em Starobilsk e tentar compreender o que ocorreu. Ele comparou a necessidade de responsabilização a outros episódios envolvendo mortes de civis, incluindo ataques atribuídos aos Estados Unidos no Irã.
“Precisamos de civilidade, honestidade, humanidade, decência, discussão, não de mais belicismo e discurso de ódio”, disse.
Ucrânia, Otan e o ponto central da guerra
Durante a conversa, Sachs e Glenn Diesen discutiram a ideia de que a expansão da Otan teria desencadeado uma competição de segurança que acabou levando à guerra. Diesen afirmou que a Rússia vê a entrada da Ucrânia na esfera militar ocidental como uma ameaça existencial, ao mesmo tempo em que a invasão russa fez com que os ucranianos também passassem a enfrentar uma ameaça existencial.
Sachs concordou que o tema central continua sendo a neutralidade da Ucrânia. Para ele, o Ocidente precisa compreender esse ponto ou a guerra seguirá avançando.
“Isso tem de se basear no que foi, é e continua sendo a questão central desta guerra, que é a neutralidade da Ucrânia. O Ocidente deveria entender isso. Absolutamente deve entender. Ou teremos uma guerra”, afirmou.
O professor também citou a cúpula da Otan em Bucareste, em 2008, quando foi assumido o compromisso de que Ucrânia e Geórgia se tornariam membros da aliança no futuro. Segundo Sachs, a ex-chanceler Angela Merkel sabia que uma promessa explícita de adesão da Ucrânia seria vista pela Rússia como uma declaração de guerra.
Ele criticou ainda uma fala recente de Merkel, segundo a qual esperava que a guerra na Ucrânia não durasse mais dez anos. “Somos tão incapazes como seres humanos que aceitamos um prazo de mais dez anos de guerra? Por que não dez dias ou dez horas?”, questionou.
Maidan, Minsk e acusações de duplicidade
Sachs retomou também os acontecimentos de 2014, quando o governo de Viktor Yanukovich foi derrubado após os protestos de Maidan. Segundo ele, ministros da Alemanha, França e Polônia haviam negociado um acordo para manter Yanukovich no poder até novas eleições, mas o acerto foi rompido no dia seguinte por um “golpe violento”.
O economista criticou o fato de Alemanha, França, Polônia e Estados Unidos não terem rejeitado a derrubada do governo ucraniano. “A Ucrânia era uma democracia constitucional, e o presidente Yanukovich continuava sendo presidente. É claro que eles não disseram isso”, afirmou.
Ele também acusou a Alemanha de não cumprir adequadamente seu papel como garantidora dos acordos de Minsk 2, assinados em 2015 para tentar encerrar o conflito no Donbass. Sachs destacou que o acordo previa autonomia para a população de origem russa no leste da Ucrânia e foi endossado pelo Conselho de Segurança da ONU.
Segundo Sachs, Merkel e o então presidente francês François Hollande negociaram pessoalmente Minsk 2, mas o acordo acabou sendo abandonado. O economista citou declaração posterior de Merkel, na qual ela teria afirmado que o objetivo era dar tempo para a Ucrânia fortalecer suas capacidades. Sachs disse não acreditar que essa fosse a motivação original dela, mas afirmou que, de qualquer forma, houve duplicidade no resultado final.
“Merz tem a responsabilidade de não ser um belicista”
Ao voltar ao papel do atual chanceler alemão, Sachs afirmou não saber se Merz conhece todos esses episódios ou se estudou a história recente das relações entre Rússia, Ucrânia, Alemanha e Otan. Mas disse que, como chefe do governo alemão, ele tem responsabilidade direta diante do risco de uma guerra maior.
“Ele é o chanceler da Alemanha e tem responsabilidade com todos nós, na verdade, de se comportar como um chanceler responsável da Alemanha”, afirmou. Para Sachs, isso significa reconhecer que não há “pureza” no lado europeu e que existe muito a ser discutido sobre segurança mútua no continente.
“Como chanceler, ele tem a responsabilidade de não ser um belicista. Ele tem a responsabilidade de pegar o telefone ou ligar seu Zoom e se conectar com seu contraparte, o presidente Putin”, disse.
Sachs afirmou que a falta de diplomacia é “chocante” e acusou governos europeus de operarem como se estivessem em um “bunker”, sem diálogo com a sociedade e sem prestar contas sobre suas escolhas. Segundo ele, autoridades europeias evitam responder a críticas e deixaram de se engajar em debates públicos reais.
Governos isolados e crise de legitimidade
Na parte final da entrevista, Sachs disse que os governos ocidentais mantêm apenas “os aparatos da democracia” e da prestação de contas, mas não respondem de fato aos questionamentos. Ele afirmou que autoridades da Comissão Europeia e líderes que conhece deixaram de dialogar.
“Eles simplesmente não falam mais. Líderes que eu conheço não falam. Eles estão entrincheirados. Não conseguem defender sua posição. Não conseguem racionalizá-la”, afirmou.
O economista relatou ainda ter sido convidado a falar a ministros das Relações Exteriores do G20, em encontro posterior à invasão russa da Ucrânia, e disse que os chanceleres ocidentais se recusaram a conversar com Lavrov. Para Sachs, isso mostra o abandono da função básica da diplomacia.
Ele também avaliou que líderes como Merz, Macron e o primeiro-ministro britânico Keir Starmer enfrentam forte perda de popularidade, o que indicaria distanciamento entre governos e sociedades. Para o economista, a Europa precisa abandonar a retórica de guerra e retomar canais de negociação.
“Vocês disseram que iriam conversar. Disseram que iriam encontrar um intermediário. Pelo amor de Deus, 450 milhões de pessoas na União Europeia: encontrem alguém e comecem”, concluiu.



