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Suíça votará proposta para limitar população a 10 milhões e restringir imigração

Referendo previsto para junho pode afetar acordos com a União Europeia e gerar impacto direto em empresas que dependem de mão de obra estrangeira

O rio Limmat e a cidade são vistos no início da manhã em Zurique, Suíça, em 21 de março de 2023. (Foto: REUTERS/Denis Balibouse)

247 - A Suíça realizará em meados de junho uma votação nacional sobre uma proposta que pretende impor um teto populacional de 10 milhões de habitantes até 2050, com medidas automáticas de contenção caso o número de residentes permanentes ultrapasse 9,5 milhões antes desse prazo. A iniciativa pode provocar mudanças profundas na política migratória do país e ameaçar acordos considerados estratégicos com a União Europeia (UE), especialmente o pacto de livre circulação de pessoas.

A proposta foi levada a referendo após reunir as 100 mil assinaturas necessárias dentro do modelo de democracia direta suíço e conta com apoio do Partido do Povo Suíço (SVP), principal legenda de direita do país.

Atualmente, a Suíça tem cerca de 9,1 milhões de habitantes e uma das maiores proporções de estrangeiros da Europa: 27% da população residente, segundo dados oficiais. O país vem registrando crescimento acelerado desde o início do século, com aumento de 25% desde 2000, percentual superior ao observado na maioria das nações vizinhas. A combinação de salários elevados e qualidade de vida tem atraído um grande volume de migrantes, ampliando a pressão sobre moradia, infraestrutura e serviços públicos.

A proposta surge em um contexto mais amplo de desconforto com a imigração em diversos países europeus, onde a percepção de sobrecarga em áreas como habitação e mercado de trabalho tem impulsionado o crescimento de partidos de extrema direita e de pautas mais rígidas contra a entrada de estrangeiros.

SVP fala em “explosão populacional” e defende reação imediata

O SVP argumenta que o aumento populacional tem provocado impactos negativos diretos no cotidiano do país. Em nota citada na reportagem, o partido afirmou que a “explosão populacional” está pressionando a infraestrutura, elevando os aluguéis e prejudicando o meio ambiente.

A legenda também declarou: “Após a entrada de 180 mil pessoas em um único ano, finalmente é preciso agir”, defendendo a chamada “iniciativa da sustentabilidade”, como foi batizada a proposta levada ao voto.

Uma pesquisa do instituto LeeWas, feita com mais de 10 mil entrevistados, indicou que 48% apoiam a medida, sugerindo um cenário de disputa apertada.

Analista prevê disputa equilibrada e tendência de queda no apoio ao longo da campanha

Michael Hermann, pesquisador e analista político da Sotomo, avaliou que o resultado pode ser decidido por pequena margem. Ele afirmou que levantamentos apontam que 60% dos suíços desejam restringir a imigração, mas alertou para mudanças comuns de comportamento ao longo da campanha.

“Na minha opinião, é meio a meio a chance dessa iniciativa ser aprovada. Normalmente, as propostas começam com um alto percentual de pessoas dizendo que votariam 'sim', mas esse apoio diminui à medida que a votação se aproxima”, disse Hermann.

Medidas podem incluir restrições a asilo e reunificação familiar

Pelo texto da iniciativa, se o país ultrapassar 9,5 milhões de habitantes antes de 2050, o governo seria obrigado a adotar medidas para conter o crescimento populacional. Entre as possibilidades citadas estão restrições ao direito de asilo e limitações à reunificação familiar.

Caso a população chegue a 10 milhões, o governo teria de usar “todos os instrumentos de política disponíveis” para reduzir o número de residentes, incluindo a renegociação ou até encerramento de tratados internacionais que favoreçam a imigração, como o acordo de livre circulação com a UE.

Algumas projeções consideradas mais extremas indicam que a marca de 10 milhões poderia ser atingida já em 2035.

Apesar disso, especialistas alertam que o projeto não define um sistema detalhado de cotas ou mecanismos graduais de gestão migratória. Na prática, a medida imporia um limite rígido, o que poderia resultar em paralisação quase total da entrada de trabalhadores estrangeiros após o teto ser alcançado.

Empresas alertam para risco econômico e chamam proposta de “iniciativa do caos”

A iniciativa provocou reação do setor empresarial. A entidade Economiesuisse, um dos principais grupos de lobby econômico do país, classificou o plano como uma “iniciativa do caos” e afirmou que companhias suíças dependem fortemente de trabalhadores vindos da UE e da Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA) para preencher vagas essenciais.

O grupo alertou que a restrição poderia levar empresas a buscar outros países, reduzir arrecadação, desacelerar inovação e comprometer serviços. Entre as corporações potencialmente afetadas estão gigantes globais como Nestlé, Novartis e Roche, que recorrem a talentos estrangeiros qualificados para manter suas operações e competitividade.

O economista-chefe da Economiesuisse, Rudolf Minsch, afirmou: “Já houve iniciativas anti-imigração antes, mas nunca vimos uma proposta de limite fixo tão extrema”.

Um estudo citado pela entidade também destaca que trabalhadores da UE e da EFTA contribuem de forma desproporcional para o sistema previdenciário suíço em comparação com os benefícios recebidos, o que poderia agravar a pressão sobre o seguro social caso a imigração seja reduzida.

Governo e Parlamento recomendam rejeição e citam risco a Schengen e Dublin

A proposta enfrenta oposição institucional. O Conselho Federal Suíço, órgão executivo do país, e o Parlamento recomendaram voto contrário, argumentando que o plano comprometeria o crescimento econômico e colocaria em risco tratados fundamentais.

O governo também alertou que a aprovação poderia ameaçar a participação suíça nos sistemas de Schengen e Dublin, pilares centrais da cooperação europeia em áreas como fronteiras e migração.

Além disso, a medida pode prejudicar um acordo negociado recentemente entre Berna e Bruxelas para manter e ampliar o acesso suíço ao mercado único europeu, ponto considerado essencial para setores exportadores e para a integração econômica do país.

Universidade de Berna vê pressão real, mas alerta para consequências graves

Para Christian Joppke, professor de sociologia da Universidade de Berna, o apoio expressivo à proposta reflete tensões concretas, sobretudo em infraestrutura, escolas e moradia, com destaque para a crise habitacional.

Ainda assim, ele advertiu que o impacto de uma eventual aprovação pode ser severo. “Mas, se essa iniciativa for aprovada, será desastrosa”, afirmou.

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