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"Teerã deveria declarar vitória e firmar um acordo com os EUA", defende ex-chanceler do Irã

Ex-chanceler Mohammad Javad Zarif propõe acordo entre Irã e EUA com limites nucleares, fim das sanções e pacto de não agressão

Mohammad Javad Zarif (Foto: Carlo Allegri/Reuters)

247 - O ex-chanceler do Irã Mohammad Javad Zarif avalia que Teerã deveria declarar vitória e buscar um acordo com os Estados Unidos para encerrar o conflito atual, evitando uma escalada ainda mais ampla na região e no cenário global. Em artigo de opinião publicado na revista Foreign Affairs, Zarif sustenta que, apesar dos intensos ataques sofridos, o país conseguiu preservar sua estrutura política e responder militarmente, o que lhe garantiria condições favoráveis para negociar.

Professor associado de Estudos Globais na Universidade de Teerã e fundador da organização Possibilities Architects, Zarif — que também foi vice-presidente e representante do Irã na ONU — argumenta que a continuidade da guerra tende a ampliar perdas humanas e danos à infraestrutura. Segundo ele, embora haja pressão interna por uma resposta mais dura, prolongar o confronto não traria ganhos estratégicos duradouros.

Na avaliação do ex-chanceler, setores da sociedade iraniana defendem a intensificação das ações militares, impulsionados por desconfiança em relação a Washington. Ele afirma que essa percepção se baseia em episódios anteriores, como a retirada dos Estados Unidos do acordo nuclear de 2015 e a imposição de sanções severas contra o país. Ainda assim, Zarif considera que insistir no conflito pode aprofundar a crise e ampliar riscos regionais.

O artigo aponta que a guerra já provocou destruição significativa e atingiu áreas civis e industriais, além de aumentar a possibilidade de envolvimento de outros países. Para o ex-ministro, esse cenário eleva o risco de um conflito mais amplo, com consequências imprevisíveis para a estabilidade internacional.

Zarif defende que o Irã utilize sua posição atual para propor um acordo abrangente. Entre as medidas sugeridas estão a limitação do programa nuclear iraniano, a reabertura do Estreito de Ormuz e o fim das sanções impostas pelos Estados Unidos. Ele também propõe um pacto de não agressão entre os dois países, com o compromisso de evitar novos ataques no futuro.

O ex-chanceler argumenta ainda que um entendimento poderia incluir cooperação econômica e tecnológica, beneficiando tanto iranianos quanto norte-americanos. Para ele, esse caminho permitiria ao governo iraniano concentrar esforços no desenvolvimento interno e na melhoria das condições de vida da população.

Ao analisar o papel dos Estados Unidos, Zarif afirma que há inconsistências na postura de Washington, especialmente sob a liderança do presidente Donald Trump. Ele menciona declarações contraditórias sobre negociações e avalia que fatores internos, como o impacto econômico da guerra, podem pressionar a Casa Branca a buscar uma saída diplomática.

O ex-ministro também revisita o histórico recente das relações entre os dois países, destacando episódios que, segundo ele, contribuíram para a atual desconfiança iraniana. Entre eles, cita a cooperação do Irã com os Estados Unidos após os ataques de 11 de setembro e o posterior enquadramento do país no chamado “eixo do mal”, além da ruptura do acordo nuclear e a política de “pressão máxima”.

Apesar disso, Zarif argumenta que uma solução negociada ainda é possível e preferível a um prolongamento do conflito. Ele avalia que um cessar-fogo isolado seria insuficiente, por não resolver as tensões estruturais entre as partes, defendendo, em vez disso, um acordo abrangente que encerre décadas de hostilidade.

Segundo o ex-chanceler, a guerra também revelou limites da estratégia militar dos Estados Unidos e de seus aliados, ao não conseguir eliminar as capacidades nucleares e de mísseis do Irã. Ele afirma que esses programas são dispersos e resilientes, o que dificulta sua neutralização por meio de ataques.

Zarif também aponta impactos regionais, afirmando que países do Golfo que dependem da presença militar norte-americana acabaram sendo arrastados para o conflito. Para ele, isso demonstra a fragilidade de modelos de segurança baseados em alianças externas e reforça a necessidade de mecanismos regionais de cooperação.

Como parte de uma solução de longo prazo, o ex-ministro propõe a criação de um sistema regional de segurança envolvendo países do Oriente Médio e potências internacionais. Ele sugere ainda iniciativas como o monitoramento internacional do programa nuclear iraniano e a participação do país em cadeias globais de produção.

Zarif defende também medidas imediatas para iniciar o processo de paz, como a garantia de navegação segura no Estreito de Ormuz e a flexibilização das restrições à exportação de petróleo iraniano. Para ele, essas ações poderiam abrir caminho para negociações mais amplas.

O ex-chanceler conclui que, apesar das tensões e da desconfiança mútua, o atual momento oferece uma oportunidade para um acordo duradouro. Segundo ele, a história tende a valorizar líderes que conseguem encerrar conflitos e estabelecer a paz, em vez de prolongar confrontos sem solução.

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