Trump cita trégua, mas ameaça novos ataques ao Irã
Washington e Teerã discutem memorando sobre Ormuz, programa nuclear e sanções
247 - O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nas redes sociais que a ofensiva norte-americana contra o Irã poderá ser encerrada caso Teerã aceite cumprir os termos em negociação, mas ameaçou ampliar os bombardeios se não houver concordância. A declaração ocorre em meio a tratativas para um memorando preliminar que pode abrir caminho para a redução das tensões no Golfo.
Estados Unidos e Irã estão próximos de um entendimento preliminar, mediado pelo Paquistão, para interromper a guerra na região e iniciar uma nova fase diplomática sobre o Estreito de Ormuz, o programa nuclear iraniano e as sanções impostas por Washington.
Em meio ao avanço das negociações, Trump condicionou o fim da ofensiva ao cumprimento do que teria sido acordado. O presidente também advertiu que a recusa iraniana poderia levar a uma escalada militar.
“Supondo que o Irã concorde em entregar o que foi acordado, o que é, talvez, uma suposição ousada, a já lendária Fúria Épica chegará ao fim... Se eles não concordarem, os bombardeios começarão, e será, lamentavelmente, em um nível e intensidade muito maiores do que antes”, afirmou o presidente Donald J. Trump.
Memorando pode abrir nova etapa diplomática
A proposta em discussão, segundo fonte paquistanesa citada pela Reuters, consiste em um memorando de uma página que serviria como base para uma negociação mais ampla. O documento trataria de pontos centrais do conflito, incluindo a navegação pelo Estreito de Ormuz, as limitações ao programa nuclear do Irã e a retirada gradual de sanções norte-americanas.
O Paquistão tem atuado como mediador entre Washington e Teerã e sediou no mês passado as únicas conversas de paz realizadas até agora durante o conflito. De acordo com a fonte paquistanesa, as negociações avançaram e um desfecho pode ocorrer em breve.
“Vamos fechar isso muito em breve. Estamos chegando perto”, disse a fonte paquistanesa.
O possível acordo ganhou força após reportagem da Axios, considerada correta pela fonte ouvida pela Reuters. A publicação norte-americana afirmou que a Casa Branca acredita estar próxima de concluir um memorando de entendimento com o Irã. O texto, ainda em negociação, teria 14 pontos e funcionaria como uma base para interromper a guerra.
Sanções, programa nuclear e Estreito de Ormuz
De acordo com a Axios, citada pela Reuters, o memorando envolveria compromissos de ambos os lados. O Irã aceitaria uma moratória no enriquecimento nuclear, enquanto os Estados Unidos concordariam em suspender sanções e liberar bilhões de dólares em recursos iranianos congelados.
A proposta também prevê medidas para reduzir as restrições ao trânsito pelo Estreito de Ormuz, rota estratégica para o comércio global de energia. O plano em discussão estabelece que as limitações iranianas à navegação e o bloqueio naval norte-americano contra portos iranianos sejam retirados gradualmente ao longo de 30 dias.
Nesse intervalo, Estados Unidos e Irã negociariam um acordo mais detalhado para reabrir o estreito, limitar o programa nuclear iraniano e remover sanções impostas por Washington. Caso as tratativas fracassem, forças norte-americanas poderiam restabelecer o bloqueio ou retomar ações militares.
Missão naval pausada por Trump
O avanço diplomático ocorreu poucas horas depois de Trump anunciar uma pausa na “Project Freedom”, missão naval lançada para escoltar embarcações pelo Estreito de Ormuz. A operação havia sido anunciada com o objetivo de reabrir a passagem marítima bloqueada.
Segundo a Reuters, a missão não conseguiu provocar uma retomada significativa do tráfego e ainda foi seguida por uma nova onda de ataques iranianos contra navios no estreito e alvos em países vizinhos.
Ao anunciar a suspensão temporária da operação, Trump afirmou haver “grande progresso” nas negociações com o Irã.
“Nós concordamos mutuamente que, enquanto o Bloqueio permanecerá em pleno vigor e efeito, o Project Freedom (O Movimento de Navios pelo Estreito de Ormuz) será pausado por um curto período de tempo para ver se o Acordo pode ou não ser finalizado e assinado”, escreveu Trump em rede social.
A decisão veio depois de o presidente norte-americano ter indicado que provavelmente rejeitaria a proposta iraniana mais recente. Essa oferta, apresentada na semana passada, também tinha 14 pontos e previa deixar a discussão nuclear para uma etapa posterior ao fim da guerra e à solução da disputa sobre a navegação.
Irã fala em acordo justo
O chanceler iraniano, Abbas Araqchi, não comentou diretamente as declarações mais recentes de Trump durante visita à China. Ele afirmou, porém, que Teerã busca “um acordo justo e abrangente”.
A posição iraniana surge em um momento de forte pressão militar e econômica. Desde o fim de fevereiro, o Irã mantém o Estreito de Ormuz praticamente fechado a embarcações que não sejam suas. Em abril, Washington impôs um bloqueio separado aos portos iranianos.
A interrupção prolongada do tráfego no estreito, uma das rotas marítimas mais sensíveis do mundo para o transporte de petróleo, ampliou preocupações sobre o abastecimento global de energia e elevou o impacto econômico do conflito.
Mercados reagem à possibilidade de trégua
A perspectiva de um acordo entre Estados Unidos e Irã provocou reação imediata nos mercados internacionais. Os preços globais do petróleo caíram, com os contratos futuros do Brent recuando mais de 8%, para cerca de US$ 100 por barril.
Bolsas globais também subiram, enquanto os rendimentos dos títulos caíram. A possibilidade de reabertura do Estreito de Ormuz e de redução das tensões no Golfo foi interpretada como um fator de alívio para a economia internacional.
A guerra tem afetado diretamente o fluxo de energia e aumentado a instabilidade no transporte marítimo. Durante a vigência da missão naval norte-americana, drones e mísseis iranianos atingiram embarcações dentro e ao redor do estreito, incluindo um cargueiro sul-coreano que relatou uma explosão na sala de máquinas.
Na terça-feira, uma empresa francesa de transporte marítimo informou que um de seus navios porta-contêineres foi atingido na região. Tripulantes feridos precisaram ser evacuados.
Escalada pressiona por saída negociada
A Reuters informou que o Irã passou a atacar também alvos nos Emirados Árabes Unidos, incluindo o principal porto petrolífero do país fora da passagem pelo Estreito de Ormuz. A região vinha sendo usada como alternativa para exportações sem necessidade de cruzar o estreito.
Teerã também afirmou que estava ampliando a área sob seu controle para incluir trechos da costa dos Emirados, no lado oposto do estreito. A escalada aumentou o risco de interrupções mais amplas no comércio regional e intensificou a pressão sobre Washington e Teerã por uma solução diplomática.
O memorando em negociação representa, até agora, o sinal mais concreto de uma tentativa de desescalada. Ainda assim, o entendimento depende de respostas iranianas a pontos considerados centrais pelos Estados Unidos. Caso seja firmado, o documento não encerraria todas as disputas entre os dois países, mas abriria uma janela de 30 dias para negociações mais amplas sobre o fim da guerra, a navegação no Estreito de Ormuz, o programa nuclear iraniano e as sanções norte-americanas.


