UE prepara tarifas de 93 bilhões de euros contra EUA após ameaças de Trump à Groenlândia
Bloco discute retaliação comercial e restrições a empresas dos EUA diante de pressão sobre aliados da OTAN
247 - A União Europeia passou a preparar um pacote de tarifas no valor de até € 93 bilhões contra produtos dos Estados Unidos como resposta às ameaças do presidente do país, Donald Trump, relacionadas à Groenlândia. A informação foi publicada pelo jornal britânico Financial Times e divulgada neste domingo (18).
Segundo a reportagem, capitais europeias avaliam tanto a reativação de tarifas já elaboradas quanto a adoção de medidas para restringir o acesso de empresas estadunidenses ao mercado europeu. A iniciativa surge em reação direta às declarações de Trump contra aliados da Otan que se opõem à sua campanha para assumir o controle da Groenlândia, território autônomo pertencente ao Reino da Dinamarca.
Pressão antes do Fórum de Davos
De acordo com autoridades envolvidas nas discussões, o objetivo das medidas é criar instrumentos de pressão antes dos encontros previstos entre líderes europeus e o presidente dos Estados Unidos durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. O esforço busca evitar uma ruptura profunda na aliança militar ocidental, considerada uma ameaça direta à segurança europeia.
As tarifas foram elaboradas no ano anterior, mas tiveram sua aplicação suspensa até 6 de fevereiro para evitar uma escalada imediata da guerra comercial. No domingo, o tema foi discutido pelos 27 embaixadores da União Europeia, juntamente com o chamado instrumento anticorrupção, mecanismo que permite limitar o acesso de empresas estrangeiras ao mercado interno do bloco.
Tarifas de Trump intensificam a crise
A crise se intensificou após Trump anunciar, no sábado, a intenção de impor tarifas de 10% a partir de 1º de fevereiro sobre produtos do Reino Unido, da Noruega e de seis países da União Europeia que enviaram tropas à Groenlândia para um exercício militar realizado na região.
Um diplomata europeu, ouvido pelo Financial Times, afirmou que "há instrumentos claros de retaliação disponíveis", acrescentando que o presidente dos Estados Unidos estaria usando "métodos puramente mafiosos". Segundo a mesma fonte, o bloco pretende, ao mesmo tempo, "pedir calma publicamente e dar a ele a oportunidade de recuar".
França defende instrumento anticorrupção e coordenação com Alemanha
A França defendeu o uso do instrumento anticorrupção, aprovado em 2023 e ainda não utilizado. A ferramenta permite impor restrições a investimentos e limitar a oferta de serviços, inclusive de grandes empresas de tecnologia dos Estados Unidos. Paris e Berlim passaram a coordenar uma resposta conjunta, com reuniões previstas entre ministros das Finanças e demais autoridades europeias.
Apesar disso, diplomatas relataram ao Financial Times que a maioria dos Estados-membros prefere priorizar o diálogo com Trump antes de avançar com ameaças formais de retaliação. "Precisamos baixar a temperatura", disse um segundo diplomata da União Europeia.
Como sinal de pressão, os maiores partidos do Parlamento Europeu decidiram adiar uma votação que reduziria tarifas sobre produtos dos Estados Unidos, prevista em um acordo comercial firmado no ano passado.
Encontros em Davos e posições irreconciliáveis
Trump deve participar do Fórum de Davos ao longo da semana e manter reuniões privadas com líderes europeus, incluindo a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. O tema da Groenlândia também passou a dominar a agenda de encontros entre conselheiros de segurança nacional de países ocidentais, originalmente voltados ao conflito na Ucrânia.
A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, afirmou que "queremos cooperar e não somos nós que buscamos conflito". Ainda assim, autoridades europeias afirmaram que não há margem para concessões envolvendo o território groenlandês. "Não podemos entregar a Groenlândia", disse um representante ouvido pelo jornal britânico.
Do lado estadunidense, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, declarou que a Europa seria "fraca demais" para garantir a segurança da Groenlândia e reiterou a posição do governo Trump. Segundo ele, "o presidente acredita que a segurança ampliada não é possível sem que a Groenlândia faça parte dos Estados Unidos".
Diante da escalada da crise, líderes da União Europeia passaram a articular uma reunião extraordinária do Conselho Europeu. O presidente do órgão, António Costa, afirmou que o bloco está pronto "para nos defendermos contra qualquer forma de coerção".


