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Vídeo racista contra Barack e Michelle Obama como macaco é removido pela Casa Branca: “foi um erro”

Casa Branca diz que postagem foi feita por engano após vídeo conspiratório exibir Barack e Michelle Obama como macacos

Donald Trump - 16/01/2026 (Foto: REUTERS/Kevin Lamarque)

247 - A Casa Branca retirou do ar um vídeo publicado na rede Truth Social que gerou forte repercussão nos Estados Unidos ao exibir, ainda que por um breve instante, imagens do ex-presidente Barack Obama e da ex-primeira-dama Michelle Obama retratados como macacos. O conteúdo, associado a teorias conspiratórias sobre as eleições presidenciais de 2020, provocou críticas imediatas tanto de democratas quanto de republicanos. 

A postagem, atribuída ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, desencadeou acusações de racismo e levou aliados do governo a cobrarem publicamente sua remoção. Segundo um representante do governo ouvido pela AFP, a publicação teria ocorrido por engano. “Um funcionário da Casa Branca publicou o conteúdo erroneamente. A postagem foi retirada do ar”, afirmou a fonte, de acordo com o jornal O Globo citando agências internacionais.

Casa Branca minimiza críticas antes de apagar postagem

Antes de o vídeo ser removido, a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, tentou reduzir o impacto do episódio e classificou as reações como “indignação falsa”. Ela afirmou que o material havia sido extraído de “um vídeo de meme da internet que retrata o presidente Trump como o Rei da Selva e os democratas como personagens de O Rei Leão”.

O vídeo tinha cerca de um minuto e utilizava a música “The Lion Sleeps Tonight”. Em um trecho rápido, de aproximadamente um segundo, os rostos de Barack e Michelle Obama apareciam sobrepostos a corpos de macacos. A gravação promovia teorias conspiratórias relacionadas à eleição de 2020 e fazia parte de uma sequência de publicações que repetiam alegações falsas de que o pleito teria sido fraudado. Até as primeiras horas da manhã desta sexta-feira (6), a postagem havia acumulado milhares de curtidas na plataforma.

Democratas acusam racismo e cobram reação republicana

O líder da minoria democrata na Câmara, Hakeem Jeffries, reagiu com dureza ao episódio e classificou Donald Trump como “vil, desequilibrado e maligno”. Em publicação no X, ele cobrou que integrantes do Partido Republicano se manifestassem: “Todo e qualquer republicano deve denunciar imediatamente a repugnante intolerância” do presidente. Em outra postagem, chamou Trump de “doente”.

O gabinete do governador da Califórnia, Gavin Newsom, também criticou o conteúdo. “Comportamento asqueroso por parte do Presidente. Cada republicano deve denunciá-lo. Agora”, escreveu o democrata, apontado como possível candidato presidencial em 2028.

Ben Rhodes, ex-assessor de segurança nacional e aliado próximo de Barack Obama, afirmou que o episódio deixaria marcas duradouras. “Que isso assombre Trump e seus seguidores racistas: os americanos do futuro vão abraçar os Obama como figuras queridas, enquanto estudarão Trump como uma mancha em nossa história”, publicou.

Senador republicano Tim Scott pede retirada do vídeo

As críticas não se restringiram à oposição. O senador republicano Tim Scott, da Carolina do Sul, aliado de Trump e único senador negro do partido, condenou o conteúdo e pediu sua remoção.

“Rezo para que seja falso, porque é a coisa mais racista que já vi sair desta Casa Branca”, escreveu Scott em suas redes sociais. Ele também preside a Comissão Nacional Republicana Senatorial, responsável por coordenar a estratégia do partido para manter a maioria no Senado nas eleições de meio de mandato. O grupo Republicans Against Trump, que atua como crítico frequente do presidente nas redes, comentou o episódio com a frase: “não há limite”.

Estereótipo racista e uso crescente de memes políticos

A publicação reacendeu o debate sobre o uso de imagens com conotação racista em ambientes digitais. A representação de pessoas negras como macacos está ligada a estereótipos históricos utilizados por escravocratas e segregacionistas para desumanizar afro-americanos e justificar atos de violência, como linchamentos e outras atrocidades.

De acordo com a primeira versão apresentada pela Casa Branca, o trecho com Barack e Michelle Obama teria sido extraído de um vídeo mais longo produzido por um criador de memes conservadores. Nesse material, Donald Trump aparece retratado como um leão, enquanto líderes democratas surgem representados como diferentes animais, até o momento em que se curvam diante do presidente.

Histórico de ataques e rivalidade com Barack Obama

O episódio ocorre em meio a uma longa rivalidade entre Donald Trump e Barack Obama, que presidiu os Estados Unidos entre 2009 e 2017. Obama é o único presidente negro da história do país e apoiou Kamala Harris, adversária de Trump nas eleições presidenciais de 2024.

Trump ganhou projeção política ao promover a teoria conspiratória conhecida como “birther”, que alegava falsamente que Obama não teria nascido nos Estados Unidos, apesar de o democrata ter nascido no Havaí. Segundo o relato, Trump também demonstrou ressentimento público em relação à popularidade do ex-presidente e ao fato de ele ter recebido o Prêmio Nobel da Paz.

Na campanha presidencial de 2024, Trump afirmou que imigrantes estavam “envenenando o sangue do nosso país”, linguagem associada a discursos de desumanização usados na Alemanha nazista. Durante seu primeiro mandato, ele se referiu a países em desenvolvimento, em sua maioria negros, como “países de merda”. Inicialmente, negou ter usado a expressão, mas admitiu em dezembro de 2025 que havia dito a frase.

Vídeos com IA e ofensiva contra políticas de diversidade

Desde que voltou à Casa Branca, Donald Trump e seus aliados ampliaram o uso de memes e vídeos, inclusive produzidos com inteligência artificial, para atacar adversários. No ano passado, ele publicou um vídeo criado com IA que mostrava Barack Obama sendo preso no Salão Oval e aparecendo atrás das grades com um macacão laranja. Mais tarde, também divulgou um clipe feito com IA do próprio Hakeem Jeffries usando um bigode falso e um chapéu de charro. O democrata classificou a publicação como racista.

No segundo mandato, Trump também tem sido alvo de críticas por conduzir uma ofensiva contra programas de diversidade, equidade e inclusão (DEI). Uma das primeiras decisões do governo foi encerrar programas federais ligados ao tema, inclusive políticas voltadas à diversidade nas Forças Armadas, que o presidente classificou como “woke”.

A medida levou à retirada de dezenas de livros de bibliotecas de academias militares, incluindo obras que abordam a história da discriminação racial nos Estados Unidos. Segundo o texto original, programas federais contra a discriminação surgiram a partir das lutas pelos direitos civis na década de 1960, lideradas principalmente por afro-americanos, em busca de igualdade e justiça após séculos de escravidão.

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