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Acossada pelos juros altos, Braskem pede proteção contra credores

Petroquímica iniciou mediação para reestruturar dívidas financeiras e busca proteção temporária contra cobranças durante as negociações

Unidade da Braskem (Foto: Divulgação)
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247 – A Braskem comunicou nesta quinta-feira (25) que iniciou um processo de mediação com credores financeiros e protocolou na Justiça um pedido de tutela de urgência cautelar para obter proteção temporária contra cobranças enquanto negocia uma solução para sua estrutura de capital. As informações foram divulgadas pela Reuters, em reportagem assinada por Paula Arend Laier.

Segundo fato relevante enviado pela companhia à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), as medidas têm alcance limitado e envolvem apenas credores financeiros. A empresa afirma que o objetivo é preservar um ambiente estável para as negociações em curso, buscando uma solução “consensual, estruturante e ordenada” para sua dívida, em meio à pressão sobre a liquidez, ao peso dos juros elevados e às dificuldades enfrentadas pela indústria petroquímica global.

“As medidas envolvem apenas os credores financeiros da companhia e foram ajuizadas com o objetivo de preservar um ambiente estável para a continuidade das negociações em andamento exclusivamente com os referidos credores em busca de uma solução consensual, estruturante e ordenada para sua estrutura de capital, alinhada com a posição de liquidez da companhia e as condições da indústria petroquímica global”, afirmou a Braskem no documento.

O processo de mediação foi iniciado na Câmara Wind de Mediação. Já o pedido de tutela de urgência cautelar foi apresentado à 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais da Comarca da Capital do Estado de São Paulo.

Ações da Braskem desabam no Ibovespa

A reação do mercado foi negativa. Por volta de 12h15, as ações da Braskem caíam 13,12%, cotadas a R$ 6,62, registrando o pior desempenho do Ibovespa no dia. No mesmo horário, o principal índice da Bolsa brasileira avançava 1,2%.

Analistas da XP Investimentos avaliaram que a iniciativa pode representar uma etapa preliminar de uma reestruturação mais ampla da companhia, seja extrajudicial ou judicial.

“Do ponto de vista de crédito, a iniciativa tende a caracterizar um estágio preliminar de uma reestruturação mais ampla -- extrajudicial ou judicial --, criando uma janela para condução ordenada das tratativas, sem ainda estabelecer os termos de eventual repactuação da dívida”, afirmaram os analistas da XP em relatório a clientes.

A Braskem também informou que seu conselho de administração aprovou, caso seja necessário e em momento oportuno, a adoção de eventuais medidas protetivas no exterior.

A companhia reforçou, no entanto, que a mediação e o pedido de tutela de urgência cautelar não afetam suas obrigações com fornecedores, clientes e demais partes interessadas.

“A Braskem esclarece e reforça que a Mediação e o PTU (pedido de tutela de urgência cautelar) possuem escopo limitado, estritamente financeiro, e não abrange quaisquer obrigações da companhia com seus fornecedores, clientes e demais stakeholders, as quais permanecem vigentes e seguem sendo cumpridas normalmente, nos termos dos respectivos contratos”, afirmou a empresa.

Crise de liquidez e mudança no controle

O movimento ocorre em um momento delicado para a Braskem. No início de junho, a gestora de private equity IG4, por meio do fundo Shine, tornou-se co-controladora da petroquímica ao assumir uma fatia de 50,1% das ações com direito a voto que antes pertenciam à Novonor, antiga Odebrecht. A Petrobras permanece com a outra participação de controle, de 47%.

A decisão da Braskem ocorre após notícias recentes apontarem dificuldades nas negociações com credores para uma reestruturação extrajudicial. A companhia enfrenta um quadro desafiador de liquidez no curto prazo.

No fim de março, a dívida bruta corporativa da Braskem era de US$ 9,4 bilhões, considerando o saque de uma linha de crédito stand-by realizado em outubro de 2025. A dívida líquida ajustada somava US$ 8,5 bilhões.

Segundo a XP, o movimento formaliza um cenário que já vinha sendo antecipado desde abril, quando a companhia informou à CVM que avaliava alternativas para reorganizar sua estrutura de capital.

“O movimento formaliza um cenário já antecipado desde abril, quando a companhia indicou à CVM estar avaliando alternativas para endereçar sua estrutura de capital”, afirmou a equipe da XP.

Ao fim do primeiro trimestre, a Braskem tinha cerca de US$ 1,06 bilhão em caixa, diante de US$ 1,46 bilhão em vencimentos ao longo de 2026. Esse quadro ocorre em um ambiente de margens pressionadas e geração de caixa negativa.

XP vê caminho para reestruturação mais ampla

Para a XP, o pedido de tutela cautelar aumenta a percepção de que a empresa caminha para uma reestruturação de maior alcance. Ao mesmo tempo, a limitação da medida ao passivo financeiro preserva, por ora, a continuidade operacional da companhia.

“A tutela cautelar reforça a leitura de que a companhia caminha para uma reestruturação de maior amplitude, ao mesmo tempo em que preserva, neste momento, a continuidade operacional ao limitar o escopo da medida ao passivo financeiro. Entre os principais pontos a monitorar, destacam-se o deferimento do pedido pela Justiça, a definição do perímetro de credores e instrumentos abrangidos e eventuais sinalizações sobre o tratamento dos cupons com vencimento no curto prazo”, acrescentaram os analistas.

No começo do mês, assembleia de acionistas da Braskem aprovou uma mudança no estatuto da empresa. A alteração permite que o conselho de administração decida sobre eventual requerimento de recuperação extrajudicial. Em caso de urgência, também autoriza a confissão de falência ou o pedido de recuperação judicial.

Analistas do UBS BB afirmaram que o caminho da companhia para resolver seus problemas de liquidez ainda é incerto e pode representar riscos para acionistas minoritários.

“De forma geral, acreditamos que o caminho da companhia para uma solução de liquidez ainda é incerto e pode incluir risco de diluição para acionistas minoritários”, afirmaram os analistas do UBS BB em relatório a clientes.

“Embora avaliemos que a empresa possa superar esses desafios e alcançar uma perspectiva mais construtiva no médio e longo prazo, as incertezas ao longo desse processo sustentam nossa recomendação neutra”, acrescentaram.

Plano prevê alongamento da dívida e nova linha de crédito

A Braskem também divulgou informações não públicas apresentadas a determinados titulares e gestores de investimentos de notas seniores e debêntures emitidas ou garantidas pela empresa. Os dados foram compartilhados no contexto de uma possível reorganização da estrutura de capital da petroquímica.

Entre os principais termos da proposta apresentada está a conversão de todas as dívidas financeiras sem garantia em novos instrumentos com vencimento prorrogado em cinco anos em relação aos prazos atuais. A proposta também prevê redução de 200 pontos-base na taxa de juros aplicável a todos os instrumentos.

Outro ponto é a possibilidade de opção de PIK, sigla em inglês para payment-in-kind, de 100% entre julho de 2026 e dezembro de 2028, a critério do devedor. Nesse modelo, os juros podem ser incorporados à dívida em vez de pagos em dinheiro durante determinado período.

O plano também prevê que os créditos relacionados a letras de crédito em aberto dos credores que se comprometerem a participar de uma nova linha sugerida na proposta sejam incorporados a essa linha, até o valor de compromisso de cada credor.

Credores que não aderirem à proposta terão seus créditos tratados como dívidas financeiras sem garantia. A proposta ainda contempla uma nova linha de carta de crédito comprometida de até US$ 1,5 bilhão. Desse total, até cerca de US$ 1,3 bilhão corresponderiam a créditos de letras de crédito em aberto elegíveis à incorporação, além de US$ 200 milhões em compromisso adicional.

Braskem projeta receita de US$ 15,5 bilhões em 2026

A apresentação compartilhada pela Braskem também traz dados sobre o perfil do serviço da dívida. Segundo o documento, o serviço da dívida soma US$ 3,686 bilhões entre julho de 2026 e dezembro de 2027, antes do vencimento do bond de 2028. Em janeiro de 2028, esse valor chega a US$ 1,326 bilhão.

A companhia também prevê saldo de caixa disponível negativo de US$ 3,248 bilhões em janeiro de 2028. Excluídos os pagamentos do serviço da dívida a partir de julho de 2026, o saldo ficaria positivo em US$ 1,764 bilhão.

No plano de negócios apresentado pela empresa, a receita líquida estimada para 2026 é de US$ 15,5 bilhões. O lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização, conhecido pela sigla Ebitda, é projetado em US$ 2,2 bilhões.

A Braskem afirma ainda que sua apresentação considera a manutenção da atual capacidade instalada no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa até 2029. Naquele ano, o projeto Transforma Rio deve entrar em operação, adicionando capacidade incremental de etileno de 220 mil toneladas por ano.

A empresa ressaltou, contudo, que as projeções apresentadas são hipotéticas e refletem as expectativas atuais da administração. A Braskem destacou que esses números não devem ser interpretados como garantia, promessa de desempenho ou guidance. Segundo a companhia, os dados foram preparados no contexto da reestruturação em discussão.

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