Lucro global das companhias aéreas deve cair pela metade em 2026 devido à guerra no Oriente Médio e alta do combustível
IATA projeta lucro de US$ 23 bilhões para o setor aéreo mundial, pressionado pelo aumento de 70% no preço do querosene de aviação
247 - As companhias aéreas de todo o mundo deverão enfrentar uma forte deterioração financeira em 2026, com o lucro líquido global projetado para cair pela metade em comparação ao ano anterior. A avaliação foi divulgada neste sábado (7) pela Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA, na sigla em inglês), que atribui o recuo principalmente aos impactos da guerra no Oriente Médio e à disparada dos preços dos combustíveis.
Segundo o relatório mais recente da entidade, o lucro líquido combinado das empresas aéreas deverá alcançar US$ 23 bilhões em 2026, muito abaixo dos US$ 45 bilhões estimados para 2025 e também distante da projeção anterior de US$ 41 bilhões para este ano. A margem líquida do setor também deverá recuar significativamente, passando de 4,2% para apenas 2%.
De acordo com a IATA, o principal fator por trás dessa piora é o aumento acelerado dos custos operacionais, especialmente do querosene de aviação, cujo preço médio deverá subir cerca de 70% em relação ao ano passado.
“O impacto das interrupções relacionadas à guerra no Oriente Médio e o aumento dos custos de combustível pioraram as perspectivas para as companhias aéreas. Globalmente, espera-se que a rentabilidade das empresas caia pela metade em comparação com 2025”, afirmou Willie Walsh, diretor-geral da IATA.
Walsh destacou que os lucros do setor devem encolher de US$ 45 bilhões para US$ 23 bilhões em apenas um ano, enquanto a margem líquida cairá de 4,2% para 2,0%.
“Todas as companhias aéreas estão sofrendo com a rápida alta de 70% nos preços do combustível de aviação. Parte desse custo adicional está sendo recuperada com ajustes tarifários e ganhos de eficiência, mas isso não será suficiente para manter a rentabilidade nos níveis do ano anterior”, declarou.
Lucro por passageiro despenca
Outro indicador que evidencia a pressão sobre o setor é o lucro líquido por passageiro transportado. A expectativa é de que esse valor caia para US$ 4,50 em 2026, exatamente metade dos US$ 9,10 registrados em 2025.
Para Walsh, o dado demonstra a fragilidade estrutural da indústria aérea, que tradicionalmente opera com margens reduzidas.
“As companhias aéreas estão absorvendo grande parte do choque dos preços dos combustíveis. Embora as tarifas estejam aumentando, as empresas continuam assumindo parte dos custos em seus resultados financeiros. O lucro líquido por passageiro deve cair para US$ 4,50, metade do registrado no ano passado”, afirmou.
O executivo acrescentou que, mesmo diante das dificuldades, o resultado revela certa resiliência do setor.
“Sob essas circunstâncias, isso demonstra resiliência. Mas esse valor nem sequer seria suficiente para comprar um cachorro-quente na maioria das sedes da Copa do Mundo da FIFA e não oferece muita margem de proteção caso outros custos ou impostos aumentem”, disse.
Receita global supera US$ 1 trilhão
Apesar da queda na lucratividade, a receita total da indústria aérea deverá continuar crescendo. A previsão da IATA aponta para um faturamento de US$ 1,165 trilhão em 2026, alta de 9,4% em relação aos US$ 1,065 trilhão registrados em 2025.
O transporte de passageiros continuará sendo a principal fonte de receitas. A arrecadação com venda de passagens deverá atingir US$ 839 bilhões, crescimento de 9,2% na comparação anual.
A entidade projeta ainda que o número total de passageiros transportados alcance 5,1 bilhões em 2026, aumento de 2,4% em relação ao ano anterior.
Além disso, as companhias deverão estabelecer um novo recorde de ocupação das aeronaves, preenchendo, em média, 84% dos assentos disponíveis ao longo do ano.
As receitas acessórias — como cobrança por bagagens, seleção de assentos e outros serviços adicionais — também devem avançar fortemente, alcançando US$ 165 bilhões. Pela primeira vez desde 2019, essa categoria deverá superar a receita proveniente do transporte de cargas.
Alta do petróleo pressiona custos
Os custos com combustível serão o principal desafio para as empresas aéreas em 2026.
A IATA estima que os gastos globais com combustível subam de US$ 252 bilhões em 2025 para US$ 350 bilhões neste ano, um salto próximo de 40%.
A previsão considera um preço médio do barril de petróleo Brent em US$ 95, contra US$ 69 no ano passado. Já o querosene de aviação deverá alcançar média de US$ 152 por barril, ante US$ 90 em 2025.
Mesmo com cerca de um terço do consumo de combustível protegido por operações de hedge, as empresas continuam fortemente expostas ao aumento persistente dos preços da energia.
A consequência é que o combustível passará a representar 31,4% de todos os custos operacionais das companhias aéreas, acima dos 25,4% registrados no ano anterior.
Oriente Médio deve registrar prejuízo
O Oriente Médio será a única região do mundo com resultado líquido negativo em 2026.
As companhias da região, que estavam entre as mais lucrativas do setor, deverão registrar prejuízo conjunto de US$ 4,3 bilhões, revertendo os ganhos de US$ 7,2 bilhões obtidos em 2025.
Segundo a IATA, cancelamentos de voos, redução da capacidade operacional, fechamento de espaços aéreos e perda de tráfego de conexão estão entre os principais fatores que explicam a deterioração do desempenho financeiro.
“A incerteza operacional enfrentada pelas companhias do Golfo após o quase completo fechamento do espaço aéreo no início da guerra gera impactos financeiros inevitáveis”, afirmou Walsh.
Europa e América do Norte seguem lucrativas
Embora pressionadas pelos custos, as empresas aéreas da Europa e da América do Norte deverão permanecer lucrativas.
Na Europa, o lucro líquido projetado é de US$ 9,6 bilhões, abaixo dos US$ 13 bilhões estimados para 2025. O continente sofre tanto com o aumento dos preços dos combustíveis quanto com restrições operacionais relacionadas ao fechamento de espaços aéreos e regulações ambientais mais rígidas.
Já na América do Norte, o lucro deverá atingir US$ 9,4 bilhões, frente aos US$ 12,4 bilhões do ano anterior. A região é particularmente vulnerável às oscilações dos combustíveis, uma vez que muitas companhias abandonaram programas de proteção financeira contra altas nos preços do petróleo.
América Latina terá desaceleração
Na América Latina, a expectativa é de lucro líquido de US$ 1,2 bilhão em 2026, abaixo dos US$ 1,9 bilhão registrados em 2025.
A IATA aponta que a desvalorização de diversas moedas da região em meio à crise energética aumenta a pressão sobre os custos das empresas. Além disso, a demanda latino-americana tende a ser mais sensível ao aumento das tarifas, devido à menor renda média dos consumidores e à participação relativamente reduzida das viagens corporativas.
Ainda assim, a entidade avalia que os fundamentos estruturais da demanda permanecem positivos, indicando uma desaceleração gradual, e não uma retração abrupta do mercado.
Passageiros continuam otimistas
Mesmo diante das tensões geopolíticas e da alta dos preços das passagens, a confiança dos consumidores segue elevada.
Pesquisa global realizada pela IATA em abril de 2026, com 6.500 viajantes de 15 países, revelou que 97% dos entrevistados ficaram satisfeitos com sua última experiência de viagem aérea.
Além disso, 88% afirmaram que o transporte aéreo melhora suas vidas, enquanto 79% consideram que as viagens aéreas ainda oferecem boa relação custo-benefício.
O levantamento também mostrou que 41% dos entrevistados pretendem viajar mais nos próximos 12 meses, enquanto outros 52% planejam manter o mesmo nível de viagens.
Para a IATA, os números demonstram que, apesar dos desafios econômicos e geopolíticos, a demanda global por transporte aéreo permanece sólida e continua sustentando o crescimento da indústria.



