Moody's rebaixa nota da CSN para B2 e coloca perspectiva negativa
Agência cita alavancagem elevada e pressiona por desalavancagem enquanto empresa promete vender ativos para reduzir dívida
247 – A agência de classificação de risco Moody’s rebaixou nesta quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026, a nota de crédito da CSN para B2 e definiu a perspectiva como negativa, sinalizando que novos cortes podem ocorrer no curto prazo, em meio a preocupações com endividamento elevado e riscos de refinanciamento.
A informação foi publicada pela Reuters, em despacho assinado pelo jornalista Alberto Alerigi Jr., que detalha os argumentos da Moody’s e o contexto recente de reavaliação do risco de crédito da companhia, incluindo um corte anterior promovido pela Fitch no início de fevereiro.
Rebaixamento da Moody’s aponta alavancagem alta e cobrança por plano de desalavancagem
No comunicado sobre o rebaixamento, a Moody’s atribuiu a decisão à estrutura de capital altamente alavancada da CSN e à necessidade de acelerar medidas para reduzir o endividamento e fortalecer a geração de caixa.
Segundo a agência, a companhia precisa "implementar iniciativas de desalavancagem para reduzir níveis de endividamento, ônus dos juros e aumentar a geração de fluxo de caixa livre, a fim de evitar riscos de refinanciamento".
O ponto central, portanto, não é apenas o nível atual de dívida, mas a leitura de que o custo financeiro e a pressão sobre o caixa podem limitar a flexibilidade da empresa em um cenário de volatilidade de mercado, com maior aversão ao risco e condições mais duras de crédito.
Venda de ativos vira peça-chave, mas Moody’s alerta: indicadores seguem fracos sem execução
A Moody’s também vinculou a melhora do quadro de crédito à capacidade de execução do plano anunciado pela CSN de levantar entre R$15 bilhões e R$18 bilhões por meio da venda de ativos.
De acordo com a agência, enquanto esse plano não se materializar, "os indicadores de crédito permanecerão fracos e os riscos de liquidez elevados, principalmente durante períodos de volatilidade de mercado e maior aversão ao risco".
Na prática, a mensagem do rating é clara: a estratégia de desalavancagem passa a ser tratada como um requisito para estabilizar a percepção de risco da companhia, e não apenas como uma iniciativa desejável de reequilíbrio financeiro.
Fitch já havia rebaixado recomendação e colocou ratings sob observação negativa
O movimento da Moody’s ocorre após um passo relevante da Fitch no começo de fevereiro. Conforme o despacho da Reuters, a Moody’s reduziu a nota de Ba3 para B2 depois que a Fitch cortou a recomendação da CSN de “BB” para “BB-”, colocando os ratings em observação negativa.
Esse encadeamento de decisões reforça que o mercado de crédito acompanha, com atenção crescente, a trajetória de endividamento, o custo da dívida e a dinâmica de caixa da companhia.
Quando duas agências apontam, em sequência, para deterioração do perfil de risco, aumenta a sensibilidade de credores e investidores a qualquer sinal de execução incompleta do plano de vendas, de piora do fluxo de caixa ou de necessidade de rolagem em condições mais caras.
Cimento e logística no centro do plano da CSN para cortar dívida líquida
A CSN anunciou, em meados de janeiro, uma agenda de desinvestimentos com dois eixos principais.
O primeiro é a intenção de vender o controle da operação de cimento, descrita no texto como a segunda maior cimenteira do Brasil.
O segundo envolve participações minoritárias em uma empresa a ser criada para reunir ativos de infraestrutura logística.
A tese apresentada pela companhia é que, com as vendas, seria possível reduzir a dívida líquida de R$37,5 bilhões em 50%. A forma como o mercado precifica essa meta, porém, depende do preço dos ativos, do apetite de compradores, do cronograma das transações e das condições financeiras do período.
Liquidez “adequada”, mas queima de caixa eleva risco de refinanciamento no médio prazo
Apesar das críticas, a Moody’s afirmou que a liquidez da CSN é adequada. Ainda assim, ressaltou que a combinação de queima de caixa e necessidades futuras de refinanciamento pode elevar a pressão no médio prazo.
A agência destacou, conforme a Reuters, que a CSN possui R$16,5 bilhões em caixa. Indicou também que a maior parte das próximas necessidades de refinanciamento se relaciona a dívidas bancárias e que o próximo vencimento relevante de título de dívida está previsto para 2028.
Mesmo com essa “janela” até o próximo vencimento mais relevante, a Moody’s enfatizou que o risco aumenta se o consumo de caixa persistir. Como registra o despacho, "Entretanto, com a atual queima de caixa, o risco de refinanciamento aumentou".
Esse tipo de avaliação costuma pesar porque sinaliza que, sem reversão do fluxo de caixa e sem redução efetiva da alavancagem, a companhia pode enfrentar condições mais restritivas para rolar dívidas, especialmente em momentos de estresse financeiro global ou de piora de liquidez doméstica.
O que o rebaixamento pode significar para a CSN e para o mercado
O rebaixamento para B2 e a perspectiva negativa tendem a ampliar o foco sobre três variáveis: execução do plano de venda de ativos, trajetória de endividamento e capacidade de geração de caixa livre.
No curto prazo, a classificação de risco funciona como um termômetro de confiança e pode influenciar o custo de captação, a percepção de credores e até a disposição de investidores em financiar novas operações, ainda que parte relevante do endividamento citado seja bancário e o próximo vencimento de título esteja concentrado mais à frente.
No médio prazo, a leitura da Moody’s também coloca o plano de desalavancagem sob escrutínio contínuo: se as vendas não ocorrerem no volume esperado, ou se o cronograma se estender, a agência já deixa claro que novas pressões podem surgir.
Para a CSN, o desafio passa a ser convencer o mercado de que o plano não é apenas uma intenção, mas uma execução concreta — com impacto visível na dívida, na despesa financeira e no fluxo de caixa. Para o setor e para o ambiente de crédito, o episódio reafirma como alavancagem elevada, em ciclos de volatilidade, pode rapidamente se traduzir em revisão de rating e aumento do custo do capital.

