Grupo J&F avalia compra da CSN Cimentos em operação estimada em ao menos R$ 10 bilhões
Negociação entraria no plano de desinvestimentos de Benjamin Steinbruch para reduzir dívida líquida do grupo CSN, próxima de R$ 40 bilhões
247 – O Grupo J&F Investimentos, controlado pelos irmãos Joesley e Wesley Batista e dono da multinacional JBS, analisa a aquisição do controle da CSN Cimentos, braço de cimento da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em um negócio estimado em ao menos R$ 10 bilhões, já incluindo dívidas. A informação foi apurada pelo jornal Estado de S. Paulo com pessoas próximas às negociações.
A eventual venda é descrita como peça central do plano de desinvestimentos anunciado no início de janeiro por Benjamin Steinbruch, controlador da CSN, com o objetivo de reduzir o elevado endividamento líquido do grupo, próximo de R$ 40 bilhões. A meta apresentada é arrecadar entre R$ 15 bilhões e R$ 18 bilhões, com a alienação do controle da cimenteira como pilar do programa para reduzir a alavancagem financeira.
Oferta recente e avaliação em fase preliminar
Segundo a apuração, a CSN Cimentos teria sido oferecida há menos de um mês à J&F, que demonstrou interesse. O processo estaria em estágio preliminar, conforme interlocutores citados pela reportagem, sem conclusão de termos e valores finais.
Procurada, a J&F afirmou que “não comenta”. A CSN, por sua vez, informou que “não vai se manifestar sobre o assunto”. Esses posicionamentos reforçam que, até aqui, as tratativas relatadas permanecem no terreno da avaliação e da estruturação financeira.
Como a operação poderia ser estruturada: NewCo e injeção de capital
De acordo com as informações disponíveis, a compra poderia ocorrer por meio de uma injeção de capital da J&F na cimenteira, após a separação do ativo do restante da CSN e a criação de uma “NewCo”. Nessa modelagem, a nova empresa carregaria também um pacote de dívidas do grupo CSN.
O efeito prático desse desenho, conforme descrito, seria a diluição significativa da participação de Steinbruch, que passaria à condição de acionista minoritário. A venda tem assessoria dos bancos Morgan Stanley e Santander.
Pressão da alavancagem e rebaixamentos de rating
A CSN enfrenta crescimento da alavancagem desde o início de 2024. No balanço mais recente citado, referente ao fim de setembro, a relação entre dívida líquida e Ebitda chegou a 3,14 vezes, indicador que teria acendido sinal de alerta e acelerado a decisão de montar um plano de desalavancagem baseado em desinvestimentos.
Além de vender participação na empresa ferroviária MRS no fim do ano, a CSN selecionou como potenciais alvos de alienação as áreas de cimento e de infraestrutura (com possibilidade de venda de até 30% nessa última). A cimenteira aparece como o ativo considerado mais “líquido” para uma operação de venda, desde que o controlador esteja disposto a abrir mão do comando.
No mesmo contexto, a companhia sofreu rebaixamentos de rating desde novembro por S&P Global, Fitch e Moody’s, que destacaram preocupações com alavancagem elevada, consumo de caixa e desempenho mais fraco nos segmentos de siderurgia e mineração.
O tamanho da CSN Cimentos e por que ela atrai compradores
Formada a partir de 2009, a CSN Cimentos tem capacidade de produção de 17 milhões de toneladas por ano, distribuída em 13 fábricas, sendo sete integradas e seis unidades de moagem. As plantas estão concentradas no Sudeste (nove), além de presença no Nordeste (três) e no Centro-Oeste (uma).
O parque industrial cresceu a partir de 2021, quando a empresa comprou a Cimento Elizabeth, na Paraíba, e, em 2022, a LafargeHolcim Brasil, com diversas unidades industriais. O desembolso informado nessas aquisições foi de R$ 6 bilhões.
Em 2024, a CSN Cimentos também tentou comprar os ativos de cimento da InterCement (grupo Mover) no Brasil e na Argentina, em operação próxima de R$ 10 bilhões incluindo dívidas, mas as negociações não avançaram, e a InterCement entrou com pedido de recuperação judicial.
No desempenho operacional, a divisão teria receita anual na casa de R$ 5 bilhões, com vendas de 14 milhões de toneladas de cimento, além de produtos como brita e calcário agrícola. A CSN afirma que o braço de cimento responde por 10,6% da receita total do grupo. O Ebitda anualizado até 30 de setembro foi indicado em R$ 1,3 bilhão.
Quanto vale o ativo e o que a CSN diz sobre o potencial de expansão
Especialistas ouvidos pela reportagem estimaram o valor bruto da CSN Cimentos, incluindo dívidas, por múltiplo de 8 vezes a geração de Ebitda, o que levaria a uma faixa entre R$ 10,4 bilhões e R$ 11,2 bilhões. A expectativa relatada é que Steinbruch busque um preço superior a essa referência.
Na apresentação de “plano estratégico” em 15 de janeiro, a CSN destacou atributos como liderança em produção integrada e custo competitivo, além de potencial de crescimento com projetos greenfield e expansões. Foram citadas três novas fábricas que somariam 12 milhões de toneladas, além de um projeto adicional de expansão de 1,4 milhão de toneladas em “estágio avançado”. Para duas novas unidades, a CSN já teria equipamentos adquiridos e armazenados há alguns anos.
J&F amplia diversificação e aproximação com Steinbruch
Caso avance, a compra representaria mais um movimento de diversificação da J&F, que, além da JBS, reúne ativos como Eldorado Celulose, Banco Original, PicPay, Âmbar Energia e Flora, entre outros investimentos.
A relação entre Steinbruch e os Batista teria se estreitado no ano passado, quando a CSN, sob pressão judicial e do Cade, precisou vender ações que detinha na Usiminas. Steinbruch vendeu 4,99% do capital social da siderúrgica para um fundo ligado à família Batista por cerca de R$ 263 milhões, em operação realizada com a Globe Investimentos S.A., veículo de investimentos da família presidido por Aguinaldo Gomes Ramos Filho, sobrinho de Joesley e Wesley Batista e presidente da J&F.
Nos últimos anos, os Batista também avançaram em mineração, fertilizantes, petróleo e gás e energia. Em 2022, compraram ativos de minério de ferro e manganês da Vale em Corumbá (MS) por US$ 1,2 bilhão, operação que resultou na criação da LHG Mining. A LHG produziria cerca de 9 milhões de toneladas por ano e tem plano de elevar esse volume até 2030, exportando para o mercado asiático via rio Paraguai, com transbordo em navios em porto no Uruguai. Em agosto passado, o grupo anunciou entrada em fertilizantes com a aquisição da mina de potássio Taquari-Vassouras, em Sergipe, por US$ 27 milhões, além de iniciativas em biodiesel e em energia por meio da Âmbar, com investimentos em geração, comercialização, gás natural e energia nuclear, incluindo compra de participação na Eletronuclear por R$ 535 milhões.
Próximos passos: venda-chave para a CSN e aposta estratégica para a J&F
A possível alienação do controle da CSN Cimentos aparece, portanto, como a principal alavanca do plano de desalavancagem do grupo CSN, em um momento em que a companhia busca reduzir pressão sobre caixa e indicadores financeiros. Para a J&F, o ativo poderia se encaixar em uma estratégia de ampliar presença industrial e ganhar escala em um setor onde a CSN Cimentos já ocupa 21% do mercado brasileiro e figura como vice-líder de vendas, atrás da Votorantim Cimentos.
Enquanto as partes mantêm reserva pública sobre o assunto, o mercado acompanha a evolução das conversas, a definição do modelo de “NewCo” e o tamanho do pacote de dívidas que poderia acompanhar o ativo, pontos que tendem a determinar preço, governança e viabilidade final da operação.

