Aldo Rebelo nega intentona golpista e diz que teria feito minuta se Dilma pedisse
Pré-candidato pelo DC critica o governo Lula, defende “quatro Rs”, ataca vetos do Ibama na Margem Equatorial e busca espaço fora da polarização
247 – O ex-ministro Aldo Rebelo, 69, será lançado neste sábado (31) como pré-candidato à Presidência pelo partido Democracia Cristã (DC), apresentando-se como alternativa à polarização entre o presidente Lula (PT) e o bolsonarismo. Ex-dirigente do PC do B e associado historicamente a uma linha nacional-desenvolvimentista, Aldo transita hoje por um terreno político ambíguo: já integrou gestões petistas e, mais recentemente, passou a ser recebido com simpatia por setores bolsonaristas.
As declarações foram dadas em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, na qual Aldo rechaça a ideia de que tenha havido uma tentativa de golpe de Estado baseada na chamada “minuta” apresentada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) a comandantes das Forças Armadas. O documento previa medidas como estado de defesa para impedir a posse de Lula após a eleição.
Em um dos trechos mais contundentes, Aldo afirma que o texto, em sua avaliação, tinha amparo constitucional e sustenta que teria agido de forma semelhante se estivesse no governo Dilma Rousseff. “A minuta estava baseada na Constituição. Eu era ministro da Defesa. Se a presidente Dilma [Rousseff] tivesse me pedido uma minuta daquela, eu teria feito”, disse.
Lançamento pelo DC e tentativa de ocupar um espaço “fora do binário”
Sem bancada na Câmara e com poucos recursos, o DC aposta no capital político de Aldo para ganhar visibilidade nacional. Ainda assim, o próprio pré-candidato reconhece a dificuldade de se posicionar em um país atravessado por uma disputa de campos cada vez mais rígida.
Questionado sobre apoiar a reeleição do presidente, Aldo respondeu de forma direta: “Deus me livre”. Ao mesmo tempo, evitou escolher desde já entre Lula: e Flávio: Bolsonaro (PL) em eventual segundo turno, preservando margem de manobra para o desenrolar do cenário eleitoral.
“Minuta baseada na Constituição” e relativização do que seria “golpe”
Aldo insiste que, se o fundamento para chamar o episódio de tentativa de golpe for apenas aquele documento, a acusação não se sustentaria. “Se a base for aquele documento que foi apresentado, aquilo não é tentativa de golpe”, afirmou. Para ele, o país estaria “condenando uma intenção” ou “uma ideia”, e não um ato típico de conspiração.
Ele reforça o argumento com uma hipótese envolvendo Dilma: “A presidente Dilma nunca comentou sobre isso, mas se tivesse cogitado, eu teria feito o documento pela situação que nós vivíamos, daquele movimento de impeachment”, disse, ao defender que a elaboração de um texto não equivaleria, automaticamente, a uma ação golpista.
Vice com sinal ao bolsonarismo: convite a Fabio Wajngarten
Em movimento que explicita sua busca por diálogo com a direita, Aldo disse ter convidado Fabio Wajngarten, ex-secretário de Comunicação de Bolsonaro, para compor a chapa como vice. O gesto reforça a estratégia de conquistar capilaridade num campo político em que sua figura se tornou “aceitável” por convergências em temas como soberania, segurança e crítica a entraves ambientais.
Aldo tenta explicar essa aproximação pela chave do nacionalismo. “Sempre fui nacionalista”, afirmou, ao lembrar sua trajetória na militância contra a censura e em defesa da anistia e da Constituinte. E concluiu: “Eu diria que foi esse setor [bolsonarismo] que se aproximou da minha agenda”.
Desenvolvimento, desigualdade, democracia e segurança
O programa é apresentado como uma “plataforma dos quatro Rs”. O primeiro seria “retomada do desenvolvimento”, com ataque direto à condução econômica do governo. “A política econômica de Lula se reduz a aumentar despesa por causa da eleição que se aproxima e aumentar imposto para cobrir essa despesa”, disse.
O segundo “R” é “redução das desigualdades”. O terceiro, “revalorização da democracia”, entendida como capacidade de debate público com “respeito” e “tolerância”, sem o “ódio” que, segundo ele, domina as redes sociais.
O quarto “R” se desdobra em duas frentes: segurança pública e segurança nacional. Nesse ponto, Aldo faz crítica estrutural sobre defesa e Estado: “O Brasil é um país que não tem Forças Armadas compatíveis com as suas necessidades”.
Licenciamento ambiental e a ofensiva sobre a Margem Equatorial
Aldo afirma que o Brasil não é um país pobre, mas “travado”, e atribui parte desse travamento ao licenciamento ambiental, que, segundo ele, teria virado “uma ideologia de veto”. Para o pré-candidato, o país passou a tratar setores produtivos, como agricultura, pecuária e agroindústria, como “vilões” da proteção ambiental — o que resultaria em paralisia econômica.
O ponto mais agudo aparece quando ele critica a decisão do Ibama na Margem Equatorial, relacionando o tema a desigualdade regional. “Como é que o presidente da República aceita que o chefe de uma autarquia que ele nomeia, que nem status de ministro tem, que é o presidente do Ibama, imponha um veto à exploração do petróleo na margem equatorial, num estado que tem 73% da população vivendo de transferência de renda, de Bolsa Família?”, disse.
Aldo também atacou a insegurança jurídica do licenciamento: “Você não sabe se ela dura 5 anos ou 50 anos”, afirmou, defendendo a criação de “uma autoridade única, nacional, de licenciamento”.
Amazônia, infraestrutura e crime
Ao falar da Amazônia, Aldo a define como “a área mais vulnerável do nosso país” e defende medidas para garantir ocupação “demográfica e econômica com responsabilidade ambiental”, com respeito às populações indígenas. Ele também afirma que a região precisa de infraestrutura — “rodovias”, “ferrovias” e “hidrovias” — e associa bloqueios à atividade econômica ao fortalecimento do narcotráfico.
Agenda identitária, crítica ao Supremo e às corporações
Outro eixo do discurso é o distanciamento do que chama de “esquerda identitária”. “A agenda da ideologia foi substituída pela agenda da biologia”, disse, ao afirmar que a política teria migrado do “interesse geral” para disputas orientadas por raça, cor da pele e gênero.
Ele também diz que essa agenda seria “das grandes corporações” e teria sido “imposta ao Brasil pelo sistema financeiro, por uma parte da mídia, pelo Supremo”. E conclui: “Sejam felizes, mas não é a minha agenda”.
Prisão de Bolsonaro e a crítica à “vingança”
Sobre Jair Bolsonaro, Aldo compara o caso com o do ex-presidente Fernando Collor e critica o que interpreta como distorção do sistema de Justiça: “Você não sabe o que é propriamente justiça e o que é vingança”, afirmou, dizendo que isso gera ressentimentos e “envenena” o ambiente político.
Venezuela e Estados Unidos: “afronta” na fronteira
Na política regional, Aldo condena a hipótese de apoiar uma invasão da Venezuela pelos Estados Unidos. “Apoiar a invasão da Venezuela é uma atitude que demonstra a desorientação do país… A atitude dos Estados Unidos é uma afronta… é uma afronta ao Brasil, porque é na nossa fronteira”, disse, mencionando o narcotráfico como pretexto que, segundo ele, tem sido instrumentalizado.


