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Investigações ampliam incerteza eleitoral e pressionam favoritismo de Lula, aponta diretor da Eurasia

Em artigo, Silvio Cascione afirma que avanço de apurações envolvendo INSS, Banco Master e crime organizado pode alterar o ambiente político

03.03.2026 - Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante a abertura da 2º Conferência Nacional do Trabalho, no Teatro Celso Furtado. São Paulo - SP.

Foto: Ricardo Stuckert / PR (Foto: Ricardo Stuckert)

247 – O avanço de investigações com potencial de atingir diferentes setores da política brasileira pode aumentar a incerteza no cenário eleitoral de 2026 e pressionar o favoritismo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A avaliação é do cientista político Silvio Cascione, diretor da consultoria Eurasia Group e mestre em ciência política pela Universidade de Brasília (UnB).

Em artigo publicado no jornal Estado de S. Paulo, Cascione afirma que a intensificação de apurações recentes pode influenciar o ambiente político ao deslocar o debate público da economia para temas ligados à corrupção e a escândalos políticos.

Segundo ele, o mês de março costuma marcar uma fase decisiva do calendário político em anos eleitorais. “Em ano eleitoral, março é um período de intensa atividade política. É o último mês para trocas partidárias e para que futuros candidatos renunciem aos seus cargos no governo. Muitas alianças serão seladas nas próximas quatro semanas”, escreve.

Investigações dominam o noticiário político

De acordo com o analista, no entanto, o noticiário recente tem sido dominado por investigações que podem alterar o equilíbrio da disputa eleitoral. Entre os fatos citados estão a quebra de sigilo bancário de Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, e a prisão do banqueiro Daniel Vorcaro.

Para Cascione, esses episódios aumentam as chances de que as investigações relacionadas ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e ao Banco Master ganhem relevância política. Ele também menciona a chamada Operação Carbono Oculto, que investiga possíveis conexões entre política e crime organizado.

“Ambas aumentam as chances de que as investigações sobre o INSS e o Banco Master desestabilizem um cenário eleitoral ainda muito marcado pelo equilíbrio entre Lula e Bolsonaro”, afirma no texto.

O autor acrescenta que as diferentes apurações em curso têm potencial para atingir atores de diversos campos políticos e institucionais. “Figuras do governo, da oposição e do Judiciário têm sido implicadas, e cada um desses lados tem muito a perder com a investida da Polícia Federal e de órgãos de controle”, escreve.

Risco político maior para o governo

Na avaliação do cientista político, embora as investigações possam afetar diversos atores, o impacto tende a ser mais sensível para quem ocupa o poder.

Cascione observa que o ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça pode permitir um ritmo mais acelerado de trabalho nas investigações relacionadas ao Banco Master, o que ampliaria a pressão política no período pré-eleitoral.

“Mas, de janeiro para cá, ficou clara a tendência de que as apurações ganhem mais força. O ministro André Mendonça indica que permitirá um ritmo mais intenso de trabalho no caso Master. Isso representa um risco maior para Lula do que para a oposição”, afirma.

Popularidade e economia sustentam favoritismo

Apesar dos riscos políticos apontados, o diretor da Eurasia Group observa que o presidente ainda mantém vantagem no cenário eleitoral atual.

Segundo ele, Lula aparece como favorito devido a um nível de aprovação considerado relativamente elevado. Cascione cita dados de um banco de dados da IPSOS Public Affairs que reúne mais de 500 eleições em diferentes países.

“Hoje, Lula é o favorito à vitória porque tem uma taxa de aprovação razoável, de 45% em média. De acordo com um banco de dados de mais de 500 eleições, coletado pela IPSOS Public Affairs, governantes com aprovação acima de 40% são reeleitos na maior parte das vezes”, afirma.

De acordo com o analista, essa popularidade está associada ao desempenho econômico recente. Contudo, ele ressalta que escândalos e investigações podem alterar o foco do debate público.

“Mas é mais difícil manter o foco dos eleitores em boas notícias quando histórias de corrupção começam a dominar o noticiário”, escreve.

Caso Lulinha pode pressionar governo

O cientista político também aponta que o caso envolvendo Lulinha pode gerar constrangimentos políticos ao governo, uma vez que obrigaria o presidente a responder sobre o tema em meio à disputa eleitoral.

“O caso de Lulinha é especialmente preocupante para o governo, pois força Lula a dar satisfações sobre o assunto quando ele gostaria de falar em salário mínimo, imposto de renda zero e redução da jornada de trabalho”, afirma.

Ao mesmo tempo, ele observa que a campanha do presidente deve explorar episódios envolvendo aliados da oposição. Segundo Cascione, conexões de Flávio Bolsonaro e aliados com o Banco Master podem se tornar tema de disputa política.

Eleição pode ser decidida por eleitores não alinhados

O artigo também destaca que a eleição de 2026 tende a ser definida por um grupo relativamente pequeno de eleitores que não se identificam fortemente com os principais polos políticos do país.

Segundo Cascione, esse eleitorado não é majoritariamente petista nem bolsonarista e muitas vezes demonstra pouco interesse pela política.

Ele argumenta que, na ausência de uma terceira candidatura competitiva, o ambiente político gerado por investigações e escândalos pode favorecer candidatos da oposição caso o debate público se torne dominado por temas negativos.

Histórico mostra que escândalos não impedem vitória

Por fim, o diretor da Eurasia Group lembra que escândalos políticos nem sempre impedem a vitória eleitoral de governantes. Ele cita o exemplo da eleição de 2014, quando a então presidente Dilma Rousseff foi reeleita em meio a um ambiente de forte tensão política.

“Em 2014, Dilma foi reeleita mesmo após os protestos de 2013 e a eclosão da Lava Jato, e a história pode se repetir com Lula, pelo menos quanto à vitória eleitoral”, escreve.

Ainda assim, ele conclui que o desfecho dependerá do rumo das investigações nos próximos meses.

“Nos próximos meses, teremos mais elementos para entender a profundidade de cada caso e o potencial de dano a Lula ou a Flávio. Porém, se os escândalos deslocarem o debate público dos temas econômicos para a corrupção daqui até outubro, Lula poderá perder sua vantagem sobre Flávio”, afirma.

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