Lula acerta ao defender mais investimentos em defesa diante de um mundo marcado por guerras, agressões e ameaças à soberania
Declaração do presidente ganha peso diante da ofensiva contra o Irã, do sequestro de Nicolás Maduro e da escalada de pressões contra Cuba
247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tocou em um dos temas mais sensíveis da atual conjuntura internacional ao afirmar que Brasil e África do Sul precisam fortalecer suas capacidades de defesa para garantir a soberania nacional. Em um cenário global cada vez mais conturbado e marcado pela intensificação de conflitos, a advertência do presidente brasileiro deixa de ser apenas uma formulação diplomática e passa a soar como um alerta estratégico para países que pretendem preservar sua independência.
Ao lado do presidente sul-africano Cyril Ramaphosa, em visita de Estado ao Brasil, Lula foi direto ao ponto ao defender uma política de defesa baseada na dissuasão. “Se a gente não se preparar em questão de defesa, qualquer dia alguém invade a gente”, afirmou. Em seguida, ressaltou que a tradição brasileira continua sendo a de compromisso com a paz. “Aqui nem tem bomba nuclear, aqui ninguém tem bomba atômica. Nossos drones são para agricultura, ciência e tecnologia, não para a guerra”.
A fala sintetiza uma visão que combina dois princípios centrais da política externa brasileira: a defesa da paz e a necessidade de garantir meios para protegê-la. Em outras palavras, a ausência de ambições militaristas não pode significar vulnerabilidade estratégica em um mundo onde o uso da força voltou a ocupar lugar central na política internacional.
Um mundo mais perigoso
As palavras de Lula ganham ainda mais relevância diante da escalada de tensões que atravessa o sistema internacional. A recente ofensiva militar conduzida por Estados Unidos e Israel contra o Irã ampliou o risco de uma guerra regional no Oriente Médio e reforçou a percepção de que a lógica do confronto voltou a dominar a política global.
Em diferentes regiões do planeta, conflitos armados, intervenções diretas e disputas geopolíticas intensas recolocam o tema da soberania no centro do debate estratégico. O ambiente internacional tornou-se mais instável, mais imprevisível e potencialmente mais violento.
O alerta vindo da América Latina
A América Latina, tradicionalmente considerada uma das regiões mais pacíficas do planeta, também passou a conviver com sinais preocupantes. O sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos, anunciado por Donald Trump, representou um dos episódios mais graves de violação da soberania de um país sul-americano nas últimas décadas.
O caso repercutiu em todo o continente e reforçou a percepção de que a estabilidade regional não pode ser tomada como garantida. Durante décadas, a América do Sul construiu uma identidade diplomática baseada na solução pacífica de controvérsias e na ausência de armas nucleares, mas essa tradição depende da capacidade dos próprios países da região de proteger sua autonomia.
A pressão permanente sobre Cuba
Outro exemplo das tensões que atravessam o hemisfério é a escalada de ameaças contra Cuba. A ilha enfrenta um cerco econômico prolongado e continua sendo alvo de pressões políticas e ações hostis que mantêm o país em permanente estado de vigilância.
Para diversos analistas, a persistência desse tipo de pressão demonstra que a soberania nacional continua sendo testada em um cenário internacional marcado pela disputa entre grandes potências e pela tentativa de impor agendas geopolíticas por meio da força ou da coerção.
Cooperação em defesa e autonomia tecnológica
Nesse contexto, Lula defendeu que Brasil e África do Sul aprofundem a cooperação na área de defesa, inclusive com a possibilidade de produção conjunta de equipamentos militares. A proposta dialoga com a estratégia mais ampla de fortalecer a autonomia tecnológica dos países do Sul Global.
O presidente brasileiro também criticou a dependência em relação aos grandes exportadores de armamentos. Segundo ele, Brasil e África do Sul não precisam “ficar comprando dos ‘senhores das armas’. Nós poderemos produzir”.
A declaração reforça a ideia de que a indústria de defesa não deve ser vista apenas sob a ótica militar, mas também como vetor de desenvolvimento científico, tecnológico e industrial.
Relação econômica aquém do potencial
Durante o encontro bilateral, Lula também destacou que as relações econômicas entre Brasil e África do Sul permanecem aquém do potencial das duas economias. Para ele, o volume de comércio entre os países não reflete a importância estratégica da parceria.
“Não há explicação política para que a gente não tenha um comércio acima de US$ 10 bilhões. Alguma coisa está faltando na nossa relação”, afirmou o presidente.
Brasil e África do Sul são membros do BRICS, bloco que reúne economias emergentes e que atualmente inclui também Rússia, Índia, China, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã. A cooperação entre esses países tem sido vista como um dos pilares da reorganização da ordem internacional.
Chamado à paz no Oriente Médio
Em seu pronunciamento, o presidente sul-africano Cyril Ramaphosa também abordou o agravamento das tensões internacionais. Ele pediu que todas as partes envolvidas nos conflitos no Oriente Médio adotem um cessar-fogo imediato e busquem soluções diplomáticas.
Ramaphosa destacou que o momento exige compromisso com o direito internacional e com a Carta das Nações Unidas. Segundo ele, é necessário interromper a escalada de violência que tem provocado mortes de civis e destruição de infraestrutura essencial.
O líder sul-africano também expressou solidariedade às vítimas das fortes chuvas que atingiram municípios da Zona da Mata Mineira nos últimos dias, tragédia que já deixou mais de 70 mortos.
A visita de Ramaphosa ao Brasil marca a quarta viagem do presidente sul-africano ao país, mas é a primeira realizada com o status formal de visita de Estado. A agenda incluiu reuniões no Palácio do Itamaraty, participação no Fórum Empresarial Brasil–África do Sul e encontros institucionais no Congresso Nacional e no Supremo Tribunal Federal.


