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Lula diz que Brasil e Índia “não podem permanecer distantes” e mira salto no comércio e parceria em minerais críticos

Em Nova Déli, presidente defende ampliar acordo Mercosul–Índia e alerta para “colonialismo digital” na IA

Lula no Índia AI Impact Summit (Foto: Ricardo Stuckert)

247 – Em visita de quatro dias a Nova Déli, acompanhado pela maior delegação brasileira já levada à Índia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que a relação bilateral está “pronta para uma expansão decisiva”, com foco em comércio, investimentos e coordenação política em temas globais. Em entrevista exclusiva ao jornal The Hindu, conduzida pelo jornalista Shobhan Saxena, Lula resumiu o tom da viagem ao sustentar que “como duas das maiores democracias do mundo e economias dinâmicas, Índia e Brasil não podem permanecer distantes”.

A declaração serve de eixo para uma agenda que combina pragmatismo econômico e ambição geopolítica: ampliar fluxos comerciais hoje considerados modestos para o tamanho das duas economias, firmar acordos inéditos em minerais críticos, aproximar setores produtivos e defender uma governança internacional menos assimétrica — inclusive no campo da inteligência artificial e nas reformas de instituições como ONU, Banco Mundial e Organização Mundial do Comércio (OMC).

Comércio recorde, mas “muito abaixo do potencial”

Embora o comércio bilateral tenha atingido o maior patamar em 2025, Lula reconheceu que o volume segue aquém do que Brasil e Índia poderiam alcançar. “A Índia tem 1,4 bilhão de pessoas e o Brasil tem 215 milhões. Não faz sentido que nosso comércio seja de apenas US$ 15 bilhões”, afirmou. Para o presidente, a viagem tem como objetivo central “expandir significativamente nossos fluxos de comércio”, com a assinatura de acordos e a mobilização do setor privado.

Entre as medidas destacadas, Lula anunciou entendimentos em duas frentes com peso estratégico. A primeira envolve minerais críticos, em um acordo que ele descreveu como “o primeiro de seu tipo a ser assinado pelo Brasil”. A segunda mira pequenas e médias empresas, setor que ele apontou como grande gerador de empregos, com potencial de estimular cadeias produtivas e inovação em parceria com empresas indianas.

O presidente também ressaltou o papel do Brazil-India Business Forum, em Nova Déli, que reunirá “600 representantes dos setores privados dos dois países”. Para Lula, são “as parcerias e projetos conjuntos” do empresariado que transformarão o bom momento político em ganhos concretos: “Porque é o setor privado, por meio de parcerias e projetos conjuntos, que transformará a excelente relação que temos com a Índia em prosperidade compartilhada para nossas sociedades”.

“A resposta às guerras comerciais é mais comércio internacional”

A entrevista ao The Hindu sugere que Brasília enxerga a Índia como peça-chave de uma estratégia de diversificação econômica em um mundo marcado por tarifas, disputas tecnológicas e tensões comerciais. Lula foi direto ao associar o cenário de fragmentação ao resgate do multilateralismo: “Costumo dizer que a resposta à crise do multilateralismo é mais multilateralismo. E a resposta às guerras comerciais é mais comércio internacional”.

Ele argumentou que Brasil e Índia têm “forte convergência” e que a aproximação precisa “se traduzir em resultados concretos”. Nesse contexto, Lula defendeu que o Mercosul avance na relação com Nova Déli, apontando como prioridade “tornar realidade a expansão do acordo comercial Mercosul–Índia”. Segundo ele, os dois lados têm “interesses complementares” em áreas como biocombustíveis, inteligência artificial, ciência e tecnologia, defesa, indústria espacial e saúde.

Ao comentar o acordo Mercosul–Índia em vigor desde 2009, Lula afirmou que ele é limitado e precisa ser ampliado: “Na sua forma atual, o acordo é muito limitado, pois cobre apenas uma pequena porcentagem de produtos. Nós o ampliaremos e reduziremos as barreiras que ainda obstruem nosso comércio”. A lógica, insistiu, é fazer o volume de trocas refletir a dimensão das economias e populações envolvidas.

Alerta sobre IA e “colonialismo digital”

Ao responder sobre inteligência artificial, Lula adotou um tom político e civilizatório, com críticas explícitas à concentração de poder tecnológico. “Devemos evitar uma nova forma de colonialismo: o colonialismo digital”, declarou. Para ele, o avanço da IA é irreversível, mas não pode ser apropriado por poucos: “O desenvolvimento da inteligência artificial é irreversível, mas não pode se tornar um privilégio de alguns países, nem uma ferramenta de manipulação nas mãos de bilionários”.

O presidente defendeu que Brasil e Índia liderem uma cooperação do Sul Global em torno de uma IA voltada à inclusão e à paz: “Brasil e Índia estão interessados em uma inteligência artificial emancipatória — uma que reflita o rosto do Sul Global, fortaleça a diversidade cultural e sirva como ferramenta para a paz, não para a guerra”. E arrematou com uma frase de forte apelo social: “Precisamos que cada chip, cada algoritmo, carregue a marca da inclusão social”.

Nesse desenho, Lula propõe uma governança internacional com protagonismo da ONU: “Para alcançar isso, precisamos de governança intergovernamental da inteligência artificial. É urgente que as Nações Unidas estejam no centro deste debate, e que todos os Estados tenham um lugar à mesa”.

BRICS 2026 e a pressão por reforma do Conselho de Segurança

A entrevista também aborda a presidência indiana do BRICS em 2026 e as expectativas do Brasil de que Nova Déli impulsione reformas na governança global. Lula disse estar confiante de que a Índia “levará adiante importantes iniciativas brasileiras” dentro do bloco, citando cooperação em saúde, combate a doenças socialmente determinadas, clima e inteligência artificial.

Ao tratar do cenário internacional, Lula descreveu uma crise profunda: “Estamos testemunhando um colapso sem precedentes do multilateralismo”. E associou a escalada de conflitos à paralisia institucional: “A paralisia das Nações Unidas e de seu Conselho de Segurança contribuiu para o aumento dos conflitos armados ao redor do mundo, a níveis não vistos desde o fim da Segunda Guerra Mundial”.

No ponto mais incisivo, Lula afirmou que a reforma do Conselho de Segurança deixou de ser um debate abstrato e passou a ser exigência de legitimidade democrática: “Não faz sentido, neste estágio do século XXI, que o Conselho de Segurança não inclua Índia, Brasil e países africanos como membros permanentes”. E completou: “Apoiamos integralmente a presidência indiana do BRICS no avanço desses objetivos”.

“Pontes” entre Norte e Sul, Oeste e Leste

Ao final, Lula procurou enquadrar Brasil e Índia como atores com tradição diplomática universalista, capazes de dialogar com diferentes polos sem alinhamentos automáticos. “Somos pontes entre o Norte Global e o Sul Global, e entre o Ocidente e o Oriente”, afirmou. E reiterou a ideia de que a aproximação, há muito reconhecida como natural, precisa sair do plano retórico: “Há muito se diz que é natural que Brasil e Índia trabalhem mais de perto. Por todas essas razões, chegou a hora de transformar esse potencial em realidade”.

A entrevista ao The Hindu expõe, assim, uma aposta dupla do presidente: de um lado, uma agenda concreta para ampliar comércio, reduzir barreiras e estimular parcerias empresariais; de outro, a tentativa de construir um eixo político capaz de fortalecer o multilateralismo, conter assimetrias tecnológicas e reposicionar o Sul Global em decisões que ainda refletem a arquitetura de 1945.

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