Nathalia Urban por Milenna Saraiva

Esta seção é dedicada à memória da jornalista Nathalia Urban, internacionalista e pioneira do Sul Global

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“Somos as duas maiores democracias do Sul Global e temos que dar bons exemplos”, diz Lula sobre Índia e Brasil

Em entrevista à India Today TV, presidente destaca comércio bilateral recorde, reforma da ONU, defesa do BRICS e regulação da inteligência artificial

Lula desembarcou em Nova Délhi na última quarta-feira para participar da Cúpula sobre o Impacto da Inteligência Artificial e cumprir uma série de outras agendas (Foto: Reprodução (India Today TV via Planalto))

247 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva destacou nesta sexta-feira (20) em entrevista à India Today TV, a importância das relações entre Índia e Brasil. De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, o comércio bilateral alcançou US$ 15 bilhões em 2025. Foi o maior valor da série histórica, com alta de 25,5% em relação ao ano anterior. Os dois países já tinham criado a meta de alcançar US$ 20 bilhões em comércio até 2030.

“Nós somos as duas maiores democracias do Sul Global. Nós temos que dar bons exemplos”, disse Lula. “Nós estamos trazendo por volta de 300 empresários do Brasil, tem mais de 300 empresários da Índia inscritos no debate que vai ser feito amanhã, e nós queremos que a nossa relação política, cultural, comercial seja muito forte. Nós queremos aprender com a Índia e queremos ensinar aquilo que a gente pode ensinar à Índia. Nós queremos vender e queremos comprar”, afirmou.

“Nós queremos trocar experiências entre as nossas empresas, construir parcerias entre as nossas empresas, porque Brasil e Índia não podem ter apenas 15 bilhões de dólares de fluxo de comércio exterior, nós precisamos ter 30, 40 bilhões, pelo tamanho dos países e pela economia dos nossos países”, acrescentou Lula.

Segundo o presidente, o seu governo quer “que a Índia conheça esse nosso potencial, para que os empresários da Índia sintam-se à vontade para fazer investimentos no Brasil ou para construir parcerias”.

“A nossa empresa de aviação, a Embraer, vai montar uma fábrica aqui na Índia, é isso que precisa acontecer entre Brasil e Índia. A gente não pode ficar dependendo dos Estados Unidos ou dependendo da China, nós queremos que a nossa economia cresça, porque, se ela crescer, o fluxo comercial cresce e vai ser bom para a Índia e vai ser bom para o Brasil”.

Reforma na ONU

Lula também defendeu a importância do multilateralismo e de uma reforma no Sistema das Nações Unidas como formas eficazes de evitar conflitos e discutir as questões globais em um cenário de maior estabilidade política internacional. Lula desembarcou em Nova Délhi na última quarta-feira para participar da Cúpula sobre o Impacto da Inteligência Artificial e cumprir uma série de outras agendas no país.

“O mundo anda muito nervoso e há uma ausência de muitas lideranças de muitas partes do mundo. Ou seja, as instituições que garantem o processo democrático estão ficando desacreditadas. A ONU está desacreditada. Há mais de 20 anos que o Brasil criou o G4. Nós defendíamos que o Brasil, a Índia, a Alemanha e o Japão deveriam fazer parte do Conselho de Segurança da ONU. A ONU está muito enfraquecida e mesmo os membros do Conselho de Segurança, Trump, Xi Jinping, Putin, Macron e o Reino Unido não conversam entre si”, avaliou.

Segundo o presidente, “era preciso que a ONU voltasse a ser fortalecida para que ela pudesse coordenar todo e qualquer conflito existente em qualquer lugar do mundo”. “Eu quero provar que não é normal o mundo gastar 2 trilhões e 400 bilhões de dólares em armas e não gastar 10% disso para acabar com a fome no mundo. Eu quero provar que não é normal o aumento da violência contra a mulher e contra a criança. O mundo precisa de paz, de tranquilidade”, relatou.

“Nós temos milhões e milhões de seres humanos que ainda não têm energia elétrica. E nós ficamos falando de guerra? Não, eu quero paz. Nós queremos mudar a ONU. Não adianta criticar a ONU. Como é que a gente resolve isso? Mudando o funcionamento da ONU. Quem é que faz guerra? São os países que fazem parte do Conselho de Segurança da ONU. Se o chefe da família não respeita a família que criaram, quem vai respeitar? Nós temos que fazer muita força, o primeiro-ministro Modi, eu e todos os outros que querem mudança na ONU, para que a ONU seja reformulada e tenha representatividade.”

Inteligência artificial

Ao comentar sobre a área de tecnologia, o presidente afirmou que, “na política, se você não faz os debates, se você não faz os encontros, se você não mistura as pessoas, você não consegue construir uma política consensual para atender a maioria das pessoas”.

“É importante levar em conta que a inteligência artificial é uma coisa extremamente importante para a humanidade, mas é preciso que ela esteja a serviço da sociedade e que ela possa fazer com que o povo possa melhorar de vida. Acho que, na área da saúde, a inteligência artificial vai cumprir um papel muito importante, na área da educação pode cumprir um papel importante, mas nós precisamos tomar muito cuidado para que a inteligência artificial não substitua o trabalho do ser humano”, continuou.

“O primeiro-ministro Modi (Narendra Modi, primeiro-ministro da Índia) governa um país de um bilhão e 400 milhões de habitantes que precisa gerar empregos, que precisa gerar renda e precisa gerar qualidade de vida para as pessoas”, complementou.

Conforme o presidente Lula, “a inteligência artificial tem que estar a serviço disso, a serviço do crescimento do país, da melhoria da qualidade dos serviços privados e públicos e, sobretudo, na perspectiva de melhorar as condições de trabalho de toda a humanidade”. “Nós não podemos permitir que a inteligência artificial possua um dono ou dois donos. Quem tem que assumir a inteligência artificial é a sociedade. E é por isso que este debate, aqui na Índia, foi extremamente importante.”

Regulação da IA

Na entrevista, Lula aproveitou para defender a regulação da IA. “Tem que ter uma regulamentação rígida. É por isso que nós achamos que essa regulação tem que ser feita numa instituição multilateral que tenha o tamanho das Nações Unidas. E ela tem que ser regulada para proteger, sobretudo, crianças, adolescentes e mulheres, porque nós não podemos permitir que a inteligência artificial seja utilizada para promiscuidade, para causar danos à intimidade das pessoas, à vida das pessoas, para provocar violência contra qualquer pessoa”, pontuou.

“Obviamente que você tem dois ou três donos de plataforma que não querem que haja nenhuma regulação. Mas se a gente não fizer uma regulação e a gente perder o controle, o que eu acho que não será bom para a humanidade. Poderá ser lucrativa para uma ou para outra pessoa, mas para a humanidade não será boa. Por isso que nós, governantes, temos que ter noção de proteção da sociedade contra essa coisa extraordinária que é a inteligência artificial.”

BRICS

Em sua análise, Lula defendeu o BRICS, grupo de países que é uma das principais frentes de resistência à hegemonia dos Estados Unidos na política internacional.

Na avaliação do presidente, “o BRICS foi uma das coisas mais importantes que foram criadas nas últimas três décadas”. “Ou seja, é importante você lembrar, nós temos o G7 que funciona em defesa da determinação política dos países mais ricos, você tem o G20 que foi criado por ocasião da crise econômica de 2008, uma crise criada no coração dos Estados Unidos, e depois você tem o BRICS que é uma representação do Sul Global”, observou.

“É uma coisa nova porque representa o Sul Global e participando países como a China e como a Índia, você tem só nesses dois países quase três bilhões de seres humanos. Se você imaginar a Indonésia, o Brasil, você vai ter metade da humanidade participando dos BRICS, você vai ter um bom percentual do PIB participando dos BRICS e você então pode estabelecer uma nova dinâmica na política comercial, na política cultural e na relação entre os Estados”, disse.

“É por isso que eu sou defensor do multilateralismo, porque depois da Segunda Guerra Mundial, o multilateralismo permitiu que houvesse a busca de uma harmonia entre as nações para que a gente pudesse evitar conflitos, porque toda guerra começa com uma guerra comercial. Nós não precisamos de guerra comercial”.

‘Sem Guerra Fria’

O presidente afirmou que “o Brasil não quer uma segunda Guerra Fria”. “O Brasil quer comercializar com os Estados Unidos, quer fazer comércio com a China, com a Índia, com a Rússia, com a Bolívia, com todos os países do mundo. Eu sou defensor do livre comércio, do multilateralismo e da harmonia entre as nações. É preciso que se aprenda a respeitar a soberania territorial, a soberania cultural das pessoas e dos países. Por isso é que eu sou um defensor muito grande dos BRICS.”

Venezuela

Em seu comentário, Lula criticou o sequestro de Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos e afirmou ser “inadmissível que um chefe de Estado de um país possa invadir o outro país e sequestrar o presidente”.

“Isso não tem explicação e não é aceitável. Agora, o Maduro está preso. O que mais interessa nesse instante é restabelecer a democracia na Venezuela. E acho que se o Maduro tiver que ser julgado, que seja julgado dentro do seu país e não julgado no exterior. Não é admissível, não é aceitável a ingerência de uma nação em outra nação.”

Encontro com Trump

Na entrevista ao veículo indiano, o presidente disse que “o Brasil não quer enfrentamento nem com os Estados Unidos”.” Estou marcando uma conversa com o presidente Trump para que a gente coloque, olhando um no olho do outro, as questões entre o Brasil e os Estados Unidos. Eu quero negociar os interesses do meu Estado, respeitando os interesses do outro Estado”.

“Então, na minha conversa com Trump, eu quero negociar, por exemplo, a questão do combate ao narcotráfico e ao crime organizado. Vou levar uma proposta para ele. Eu quero negociar essa coisa dos minerais críticos e das terras raras. O Brasil tem muitos minerais críticos e tem muitas terras raras. Dois chefes de Estado têm que se sentar, olhar um no olho do outro e dizer o que pensam. É isso que vai acontecer entre mim e o Trump. Eu respeito todo mundo e gosto muito de ser respeitado. A relação entre Brasil e Estados Unidos tem 201 anos e eu quero que continue uma relação forte, com a liberdade que os Estados Unidos querem para ele e com a liberdade que eu quero para o meu país.”

Ghandi

“Minha teoria é a teoria do Mahatma Gandhi, que conquistou a independência desse gigante chamado Índia só com o exemplo. Só motivando o povo e mostrando que a Índia teria que ser livre. É o exemplo da minha vida. É o exemplo das coisas como eu acho que têm que acontecer.”

Amazônia

O meio ambiente também foi tema da entrevista. “Quando eu fiz a COP na Amazônia, é porque eu queria que o mundo conhecesse a Amazônia. Porque tem muita gente que fala da Amazônia, mas não conhece a Amazônia. É importante saber que na Amazônia moram 30 milhões de pessoas que querem viver, que querem trabalhar, que querem ter acesso aos bens materiais que as pessoas das cidades querem”, destacou Lula.

“A outra coisa é que nós, em apenas três anos, diminuímos em mais de 50% o desmatamento na Amazônia. Nós estamos provando que uma árvore em pé vale mais do que uma árvore derrubada. Por isso é que nós criamos o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), que é um jeito novo de financiar a questão da preservação da Amazônia. Não é doação de dinheiro, é investimento. Acho que vai dar conta nos próximos anos, para que a gente possa resolver o nosso problema do desmatamento”, prosseguiu.

“Nós temos seis biomas no Brasil e nós queremos preservar todos eles. E é uma luta titânica, porque são as pessoas que querem preservar e as pessoas que não querem preservar. São as pessoas que têm consciência, cientistas e estudam o assunto e provam que está havendo uma mudança climática forte, e outros que não querem acreditar. Alguns que não cumpriram o Protocolo de Kyoto, alguns que não querem cumprir o Acordo de Paris. Ao invés de ficar brigando com os outros, eu vou cumprir a minha parte. Eu me comprometi a desmatamento zero na Amazônia até 2030.”

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