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Presidente Lula defende “política dos iguais” com a Índia e eleva meta de comércio bilateral para US$ 30 bilhões até 2030

Segundo Lula, Brasil e Índia se encontram em uma condição de necessidades convergentes e, por isso, conseguem construir uma parceria sem subordinação

Entrevista coletiva do presidente Lula na Índia (Foto: Brasil 247)

Por Leonardo Attuch, de Nova Déli, para o Brasil 247 – Em entrevista coletiva realizada neste domingo (23), em Nova Déli, logo após o encerramento de sua missão à Índia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que a relação com o país asiático se distingue das dinâmicas internacionais marcadas pela “lei do mais forte” e pela lógica de supremacia. Segundo Lula, Brasil e Índia se encontram em uma condição de necessidades convergentes e, por isso, conseguem construir uma parceria “entre iguais”, capaz de estimular investimentos cruzados e acelerar o comércio bilateral.

"Com a Índia é diferente. Nós somos dois necessitados. Ninguém é superior a ninguém." O presidente ressaltou que, apesar das diferenças culturais, religiosas e linguísticas, há “muitas similaridades nas virtudes e nas necessidades” entre as duas sociedades, o que, em sua avaliação, cria um terreno propício para acordos práticos, planos de ação e metas mensuráveis.

A crítica à lógica da supremacia e a aposta na cooperação

Ao comparar a relação com a Índia a outros ambientes de negociação, Lula indicou que há contextos internacionais em que prevalece um “tom de supremacia”, em que o maior tenta impor condições ao menor. Para ele, com a Índia ocorre o oposto, pois as conversas são conduzidas sem hierarquias, com foco em resultados concretos.

"Ou seja, não existe o tom da supremacia, o tom do maior, o tom do grande. É a política dos iguais. Isso é que me dá muito prazer e muito otimismo." Na leitura do presidente, a percepção mútua de desafios e demandas comuns torna mais simples “trabalhar e estabelecer planos de ação, estabelecer metas” e aproximar os setores produtivos dos dois países.

Lula descreveu que esse ambiente se manifesta tanto nas reuniões com empresários quanto no diálogo com a liderança política indiana. Ao mencionar encontros com o atual primeiro-ministro, ele retomou também a lembrança de conversas em visitas anteriores, sinalizando uma linha de continuidade na sua visão de que a Índia é um parceiro com quem o Brasil pode avançar sem subordinação e sem tutelas.

Metas e números: de US$ 2,4 bilhões para US$ 15,5 bilhões e além

Na coletiva, Lula recordou a evolução do comércio bilateral desde sua primeira visita à Índia. O presidente afirmou que, naquele momento, a corrente de comércio entre os dois países era de “apenas 2 bilhões e 400 milhões de dólares”. Agora, segundo ele, alcançou “15 bilhões e meio”.

Apesar do crescimento, Lula insistiu que o patamar ainda é insuficiente para duas economias que ele classificou como “razoavelmente grandes”. O presidente repetiu, mais de uma vez, a avaliação de que os números atuais permanecem aquém do potencial.

"Chegou agora a 15 bilhões e meio, o que é muito pouco. O que é muito pouco para duas economias razoavelmente grandes. É muito pouco." A ênfase na expressão não foi casual. Ao reiterar o diagnóstico, Lula sinalizou que a missão não se encerra com a assinatura de acordos e fotos protocolares, mas exige ambição e execução.

Nesse contexto, ele relatou que o primeiro-ministro Narendra Modi apresentou a ideia de uma meta de US$ 20 bilhões até 2030. Lula, no entanto, decidiu elevar o objetivo.

O desafio de US$ 30 bilhões e a cobrança pública como método

Em um dos trechos mais reveladores da entrevista, Lula explicou que gosta de estabelecer metas e, mais do que isso, de registrar publicamente esses compromissos para que se transformem em pressão política permanente, inclusive sobre o próprio governo.

O presidente comentou que, durante entrevistas, às vezes se pergunta se está dizendo algo relevante ou se já é “hora de parar”. Em seguida, avisou que faria um pedido direto à imprensa, justamente para criar um mecanismo de acompanhamento.

"Eu queria falar aqui para a imprensa para vocês anotarem. Eu quero que vocês anotem para eu seguir." Ao narrar a conversa com Modi, Lula afirmou que comunicou ao primeiro-ministro que o Brasil pretende ir além do número inicialmente proposto e chegar a US$ 30 bilhões em 2030.

"Porque eu disse ao presidente Modi, nós vamos chegar a 30 bilhões em 2030. É um desafio que está colocado. Nós vamos chegar." Ao usar a expressão “nós vamos”, o presidente enquadrou a meta como tarefa bilateral, com responsabilidades compartilhadas, e não como promessa unilateral.

A fala também reforça um traço recorrente do método político de Lula: transformar metas econômicas em compromissos públicos, vinculando governo, diplomacia e setor privado a um horizonte verificável. Ao pedir que jornalistas “anotem”, o presidente sinalizou que pretende ser cobrado, e que a cobrança ajudará a disciplinar a execução dos acordos e a mobilizar os atores econômicos.

Investimento cruzado e protagonismo empresarial

Outro ponto central do trecho é a ênfase na articulação entre empresários. Lula descreveu a negociação com a Índia como um processo que não se limita ao Estado, mas busca construir pontes entre agentes produtivos dos dois países, estimulando projetos de investimento mútuo.

"Construir parceria entre os empresários indianos e os empresários brasileiros, convidá-los a fazer investimento no Brasil e se oferecer para fazer investimento na Índia." A formulação resume o eixo da política externa econômica que o presidente tem defendido: diplomacia ativa para abrir portas, reduzir assimetrias e criar oportunidades para a indústria, o agronegócio e serviços, sem submissão e sem dependência.

Ao insistir que Brasil e Índia se aproximam por necessidades semelhantes, Lula também sugere que o aumento do comércio e dos investimentos não deve ocorrer por uma lógica de complementaridade passiva, em que um vende e o outro apenas compra. A ideia exposta na coletiva aponta para uma parceria estratégica sustentada por planejamento e metas, que se desdobra em iniciativas entre empresas e governos.

Uma parceria “entre iguais” como sinal político no mundo em disputa

No pano de fundo, a mensagem do presidente foi política. Ao criticar a “lei do mais forte” e afirmar que, com a Índia, “ninguém é superior a ninguém”, Lula reafirma a defesa de um sistema internacional menos hierárquico, com espaço para países do Sul Global negociarem sem coerção.

A escolha de palavras como “otimismo”, “prazer” e “política dos iguais” reforça que, para o presidente, a missão à Índia não foi apenas comercial. Ela foi também simbólica, porque projeta o Brasil como ator que busca parcerias baseadas em respeito e interesses convergentes, e não em imposições.

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