Senado não pode impor nome de ministro do STF ao governo, diz Jaques Wagner
Líder do governo Lula critica articulação no Senado, diz que indicação ao STF é prerrogativa presidencial e aponta “traição” na votação
247 - O líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), afirmou que o Senado Federal “escorregou na institucionalidade” ao rejeitar a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF). Em entrevista concedida à Folha de São Paulo, o senador criticou a condução política da articulação em torno da votação e reforçou que a escolha de ministros da Corte é uma atribuição exclusiva do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Segundo Wagner, houve uma movimentação política organizada nos dias anteriores à votação que levou à derrota de Messias no Senado. Para ele, o episódio extrapolou o debate institucional e atingiu diretamente uma prerrogativa constitucional do chefe do Executivo. “A prerrogativa de indicar é do presidente. Uma coisa é negociar, outra coisa é impor”, declarou o senador.
Jaques Wagner também afirmou que o presidente Lula comentou a possibilidade de reapresentar o nome de Jorge Messias para uma nova tentativa de aprovação no STF, embora não saiba se a decisão já foi tomada oficialmente. “Ele comentou isso, não sei se decidiu. Comentou com mais pessoas: ‘Estou pensando’”, disse.
Pelas regras atuais, uma nova votação sobre a indicação não poderia ocorrer ainda neste ano, o que empurraria a análise para 2027. Wagner afirmou, no entanto, que há interpretações divergentes sobre o regimento interno do Senado, mas ponderou que não considera produtivo aprofundar esse debate agora.
Na avaliação do líder do governo, a rejeição da indicação de Messias não teve relação com questionamentos técnicos ou jurídicos. “Qual o sentido da sabatina? [Avaliar] notório saber jurídico e reputação ilibada. Ninguém questionou isso em relação ao Messias. Objetivamente, não tinha motivo para derrotá-lo”, afirmou.
Wagner revelou que o Palácio do Planalto trabalhava com uma expectativa de vitória apertada, entre 41 e 43 votos favoráveis, número suficiente para aprovação. Segundo ele, porém, houve uma operação política de última hora para reverter o placar. “Acho que houve uma operação nas 48, 72 horas [antes da votação], para derrotar”, disse.
O senador atribuiu parte da crise à condução política envolvendo o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), e o senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG), que teria sido defendido por aliados como alternativa ao STF. “Teve o trauma do Rodrigo, que na minha opinião não foi bem conduzido”, afirmou.
Questionado sobre quem teria conduzido mal a articulação, Wagner respondeu: “Por eles. Ele e o Davi.”
Segundo o petista, Lula chegou a convidar Rodrigo Pacheco para disputar o governo de Minas Gerais, gesto que ele considera politicamente relevante. “Vocês querem ir lá dizer que declinam do convite, mas querem um outro convite, para o STF? A conta não fecha”, declarou.
Apesar do desgaste causado pela derrota de Messias, Jaques Wagner afirmou acreditar numa recomposição da relação entre Lula e Davi Alcolumbre. “Ninguém vai ficar menino zangado o tempo todo”, disse.
O senador também minimizou especulações sobre rompimento institucional entre o Palácio do Planalto e o Senado. “O Lula é tarimbado o suficiente, eu creio que o Davi também, para saber que os presidentes da República e do Senado não podem estar não se falando”, afirmou.
Ao comentar o resultado da votação, Wagner disse acreditar que houve traição de parlamentares que haviam sinalizado apoio ao governo. “Óbvio que houve traição. Ganharam o quê? Nada”, declarou.
Mesmo assim, evitou apontar nomes diretamente. “Eu não estou procurando quem traiu porque posso fazer uma tremenda injustiça. Quem sabe essa conta é quem armou o time contrário.”
O líder governista ainda rebateu críticas recebidas após a derrota de Messias e disse que só deve explicações ao presidente Lula. “Só devo satisfação a uma pessoa, Lula. Pelo visto ele não botou na minha conta, senão teria me tirado daqui.”
Durante a entrevista, Wagner também comentou as investigações envolvendo o banco Master e negou qualquer irregularidade em sua relação com empresários ligados ao caso. Ele afirmou que nunca conversou com Daniel Vorcaro, antigo dono do banco, sobre a antiga rede estatal baiana Cesta do Povo, privatizada durante sua gestão no governo da Bahia. “Nunca falei com ele sobre Cesta do Povo, nunca. Nunca falei com ele”, afirmou.
Sobre contratos firmados pelo banco com uma empresa ligada à sua nora, o senador declarou desconhecer os detalhes das negociações. “Claro que não, nunca soube. Eles são maiores de idade, tocam a vida deles”, disse.
Wagner também comentou a queda de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas pesquisas eleitorais após o avanço das investigações relacionadas ao caso Master. Sem fazer projeções definitivas, afirmou acreditar em desgaste político do senador. “Acho que ele vai entrar no viés de baixa”, declarou.



