Aliado de Vorcaro no Banco Central e irmão negociam R$ 7,7 milhões em imóveis
Ex-diretor do Banco Central e agricultor aparecem em 16 escrituras ligadas à Operação Compliance Zero, que investiga fraudes de até R$ 17 bilhões
247 - Um valor de R$ 7,7 milhões. Esse é o total das negociações imobiliárias realizadas por Paulo Sergio Neves de Souza, ex-diretor de fiscalização do Banco Central, e seu irmão Luis Roberto em apenas cinco anos. O volume foi referente à compra e à venda de uma dezena de imóveis — terrenos na zona urbana, lotes onde foram erguidos prédios residenciais e uma propriedade rural.
A movimentação foi detalhada nesta quarta-feira (18) pela coluna de Tácio Lorran, que teve acesso a 16 escrituras registradas desde 2021 e que documentam como as propriedades circularam entre os investigados — e até chegaram a uma empresa ligada ao pastor e empresário Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro Daniel Vorcaro.
O conjunto de negócios envolve nove terrenos urbanos, dois lotes onde foram edificados prédios residenciais e um sítio, todos localizados nos municípios mineiros de Guaxupé e Juruaia. As transações ocorreram entre janeiro de 2021 e dezembro de 2025, e a maior parte dos pagamentos foi feita à vista — em espécie ou por meio de depósitos e transferências bancárias.
O rastro das escrituras e a conexão com Zettel
A análise das escrituras expõe uma teia de negócios que ultrapassa o círculo familiar. Luis Roberto consta nos registros da Receita Federal e da Junta Comercial do Estado de Minas Gerais (Jucemg) como administrador da Noah Empreendimentos e Participações Ltda, empresa pertencente à Pipe Participações Ltda. O único sócio dessa holding é Fabiano Zettel, ligado à Igreja Batista da Lagoinha e preso na mesma operação que levou Daniel Vorcaro à cadeia.
Foi justamente por meio da Noah Empreendimentos que Luis Roberto realizou suas transações de maior volume. O agricultor vendeu R$ 3 milhões e comprou R$ 1,5 milhão em ativos imobiliários, superando as cifras registradas pelo próprio irmão ex-diretor do BC. Fora as operações vinculadas à empresa de Zettel, Luis Roberto ainda desembolsou R$ 363 mil na aquisição de dois lotes e de um terço de um terreno — este último comprado em conjunto com Paulo Sergio.
Ex-diretor do BC sob medidas cautelares do STF
As movimentações de Paulo Sergio somam R$ 2,3 milhões em vendas e R$ 828,4 mil em compras. O ex-servidor deixou o Banco Central após ocupar a chefia-adjunta do Departamento de Supervisão Bancária (Desup), área subordinada a Belline Santana, apontado como outro aliado de Vorcaro dentro da autarquia.
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça aplicou medidas cautelares tanto a Paulo Sergio quanto a Santana. Os dois estão monitorados por tornozeleira eletrônica e proibidos de manter qualquer contato com demais investigados no âmbito da Operação Compliance Zero.
Vorcaro preso e maioria no STF para manter detenção
O contexto em que essas transações ganham relevância é o da maior investigação sobre o sistema financeiro brasileiro em anos recentes. A Polícia Federal apura um esquema de fraudes que, segundo a corporação, movimentou entre R$ 12 bilhões e R$ 17 bilhões — e que tem como figura central Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
Vorcaro e Zettel foram presos em 4 de março por determinação do ministro André Mendonça. O banqueiro está recolhido na Penitenciária Federal de Brasília. Na última sexta-feira (13), a Segunda Turma do STF formou maioria para manter a prisão, consolidando o entendimento de que há elementos suficientes para sustentar a medida enquanto as investigações avançam.


