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BRB comprou duas vezes mesma carteira do Banco Master

Operação sem garantia levou Banco de Brasília a gastar quase R$ 500 milhões em carteira repetida ligada ao Banco Master sob investigação da PF

Prédio do BRB em Brasília 18/11/2025 REUTERS/Mateus Bonomi (Foto: REUTERS/Mateus Bonomi)

247 - O Banco de Brasília (BRB) gastou R$ 500 milhões ao comprar duas vezes a mesma carteira sem garantia. A operação levantou suspeita sobre a gestão de ativos do banco estatal e ampliou o foco das investigações da Polícia Federal. O caso envolve a aquisição duplicada de uma mesma cédula de crédito bancário ligada ao Banco Master.

Segundo informações publicadas nesta segunda-feira (6) pela coluna de Demétrio Velcchioli, no Metrópoles, o Banco de Brasília realizou duas compras da mesma dívida, mesmo diante de alertas internos e ausência de garantias adequadas. As transações ocorreram antes da emissão de parecer jurídico com recomendações de cautela.

A investigação da Polícia Federal apura possíveis fraudes envolvendo o Banco Master e operações com instituições financeiras, incluindo o BRB. De acordo com os investigadores, o esquema pode ter movimentado entre R$ 12 bilhões e R$ 17 bilhões, com a aquisição de créditos considerados de baixa qualidade.

Um dos casos analisados envolve a carteira da empresa RKO Alimentos. O BRB desembolsou cerca de R$ 498 milhões ao adquirir duas vezes a mesma cédula de crédito, vinculada a um empréstimo de R$ 400 milhões concedido pelo Banco Master em dezembro de 2023, com prazo de carência até fevereiro de 2026.

A primeira aquisição ocorreu em 17 de outubro de 2024, no valor de R$ 174 milhões. A operação não apareceu na planilha oficial do banco que reúne as compras de ativos feitas junto ao Master. O crédito estava atrelado a um frigorífico no Mato Grosso, que apresentou garantias inferiores ao padrão mínimo exigido pelo próprio BRB.

Para viabilizar a operação, o banco estatal estabeleceu como condição a inclusão de um imóvel urbano avaliado em R$ 1,3 bilhão, localizado em Mata de São João, na Bahia. A propriedade, conhecida por abrigar resorts, não pertencia ao Banco Master, o que impedia sua utilização como garantia efetiva.

A segunda compra ocorreu em 30 de junho de 2025, no valor de R$ 324 milhões, e foi aprovada com rapidez após o BRB identificar indícios de fraude em outras carteiras adquiridas do Master. O objetivo era substituir ativos considerados problemáticos por outros supostamente mais seguros.

O Banco Master voltou a oferecer a mesma CCB vinculada à RKO, relacionada a um financiamento para expansão de atividades no setor de carnes. O contrato previa que 90% do valor do empréstimo seria aplicado em um fundo de investimento da Reag, com liberação condicionada ao andamento de projetos.

Inicialmente, os recursos deveriam estar vinculados ao fundo “Bravo”. No momento da nova oferta ao BRB, o capital estava alocado em outro fundo, chamado Titânia, sem apresentação de aditivo contratual que justificasse a alteração.

A área técnica do BRB apontou fragilidades relevantes na operação. “Entendemos que a falta de acompanhamento de uma operação com saldo devedor atual de mais de R$ 550 milhões também representa uma fragilidade da operação de crédito”, registrou o setor em análise interna.

Documento assinado por cinco superintendências do banco listou 18 pontos críticos, incluindo ausência de garantia imobiliária adequada, falta de comprovação do uso dos recursos, baixo índice de cobertura das garantias e ausência de informações atualizadas sobre a execução dos projetos.

Apesar das inconsistências, a aprovação da segunda compra ocorreu antes da conclusão do parecer jurídico, previsto para o dia 11 de julho. O documento deveria estabelecer oito condições para mitigar riscos, incluindo a inclusão de cláusula de revenda como mecanismo de proteção institucional.

Mesmo assim, instâncias internas do BRB autorizaram a operação no mesmo dia, sem impor as condicionantes previstas, consolidando uma transação que agora integra o conjunto de apurações sobre o caso envolvendo o Banco Master.

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