BRB leva ao Banco Central plano para recompor perdas com o Master e avalia pacote com FGC e ativos do DF
Banco de Brasília promete apresentar nesta sexta alternativas de capitalização
247 – O BRB (Banco de Brasília) apresentará nesta sexta-feira (6) ao Banco Central um plano de capitalização para recompor perdas associadas a operações com o Banco Master, em um processo que pode definir os próximos passos da instituição financeira controlada pelo Governo do Distrito Federal. A proposta, se aprovada pela autoridade monetária, deverá ser executada em prazo de até 180 dias.
As informações foram publicadas pela Folha de S.Paulo, que relata que, pelas regras, o BRB precisa submeter ao Banco Central um plano com mais de uma alternativa para atender às exigências de capital. Nos bastidores, havia ao menos cinco opções em discussão, incluindo medidas que dependem de aval político e outras que exigem engenharia financeira para dar lastro a um eventual aporte.
Um plano com várias rotas: FGC, fundo imobiliário e ações de estatais
A principal medida trabalhada nas últimas semanas, segundo o relato, seria uma linha de empréstimo emergencial do FGC (Fundo Garantidor de Créditos), com ativos oferecidos como garantia pelo Governo do Distrito Federal, controlador do banco. Esse caminho, porém, exigiria aprovação da Câmara Legislativa do DF, o que introduz um componente político relevante: a instituição precisa demonstrar ao Banco Central que há viabilidade não apenas técnica, mas também institucional para executar a alternativa escolhida.
Outra possibilidade discutida é a formação de um fundo com imóveis do governo do DF a serem transferidos ao BRB, criando uma estrutura patrimonial capaz de reforçar o capital e dar sustentação ao plano. Também entrou no radar a hipótese de repasse de ações de empresas estatais, como a CEB Ipes, ligada ao setor de iluminação pública.
Reservadamente, representantes do mercado e parlamentares indicaram que a ideia de um fundo imobiliário ganhou força nos últimos dias — especialmente por permitir a montagem de um conjunto de ativos com maior “valor agregado” e potencial de liquidez, caso a estratégia envolva securitização, reorganização patrimonial ou venda futura.
O “Centrad” e a busca por ativos mais robustos
Na tentativa de compor um pacote mais forte, uma das possibilidades mencionadas seria incluir na estrutura o Centrad, prédio construído para sediar o governo local e que está fechado há 12 anos. A avaliação é que ativos de grande porte podem gerar uma composição mais consistente do que um mosaico de lotes menores espalhados por diferentes regiões administrativas.
Esse tipo de desenho costuma ser visto, em operações de capitalização, como uma forma de reduzir a percepção de fragilidade: ao colocar no papel ativos mais robustos e facilmente identificáveis, o controlador tenta demonstrar capacidade de resposta e compromisso com a solvência do banco.
Na semana passada, entidades da indústria da construção civil e do mercado imobiliário do DF manifestaram apoio institucional ao BRB, argumentando que a instituição lidera o segmento com 62,8% de participação e se tornou “principal parceira” nas políticas de moradia. A sinalização do setor é politicamente relevante porque sugere que uma solução via ativos imobiliários pode encontrar menos resistência entre agentes que dependem do BRB para financiar projetos e manter o ritmo do mercado local.
Tesouro, minoritários, consórcio bancário e o fator político
Além das alternativas ligadas a ativos e ao FGC, o plano pode incluir um repasse direto do Tesouro do DF e dos minoritários e ainda a hipótese de um empréstimo concedido por um consórcio de bancos. Cada caminho tem custos e implicações distintas — desde a necessidade de espaço fiscal e negociação com acionistas até o potencial encarecimento do funding e a leitura do mercado sobre o risco do BRB.
Deputados distritais que integram a base do governador Ibaneis Rocha (MDB) reconhecem, segundo o relato, que o problema é complexo, mas afirmam que o presidente do BRB, Nelson Antônio de Souza, tem demonstrado otimismo nas conversas. A montagem de um pacote que envolva ativos do DF também esbarra em limitações objetivas: sob reserva, parlamentares apontam que a lista de estatais é enxuta.
A parte mais rentável da CEB (Companhia Energética de Brasília) foi privatizada em 2020 e se tornou a empresa Neoenergia. Já a Caesb (Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal), por exemplo, não tem ações em Bolsa — o que reduz o leque de ativos “transferíveis” ou imediatamente monetizáveis para um plano rápido de recomposição de capital.
Declarações: “não vai quebrar” e a promessa de suporte do DF
Em entrevista à Folha, a primeira após assumir a presidência do BRB, Nelson afirmou que a relação da população de Brasília com o banco estatal é simbólica e que o controlador fará o que for necessário para cobrir as perdas. "O BRB não vai quebrar, não vai ter intervenção, não vai ter liquidação", disse.
A fala é central porque antecipa o tom que o banco pretende levar ao Banco Central: o de que existe lastro político e patrimonial para evitar qualquer desfecho extremo, como intervenção ou liquidação, e que a estratégia de capitalização será implementada conforme exigido.
Também em declaração ao jornal, o secretário de Economia do DF, Daniel Izaías de Carvalho, destacou o papel social do BRB e reforçou disposição do governo local em atuar caso seja necessário. "O Distrito Federal tem ativos suficientes para fazer frente a uma necessidade de aporte de capital", afirmou. E completou: "Tem condições de se organizar para socorrer o banco em um determinado momento, se for necessário."
As declarações buscam responder ao núcleo da preocupação regulatória: o Banco Central quer ver capacidade concreta de absorver perdas, reforçar capital e manter indicadores prudenciais, evitando risco sistêmico e preservando a confiança de depositantes e do mercado.
O tamanho do problema: créditos falsificados, provisões e perdas bilionárias
O pano de fundo do plano é o conjunto de operações sob investigação envolvendo o Banco Master. Sob a gestão de Paulo Henrique Costa, o BRB comprou R$ 12,2 bilhões em créditos falsificados do Master, segundo apontam as investigações citadas. Além disso, o banco do DF passou a deter controle de fundos que integram uma “ciranda financeira” sob apuração das autoridades.
O BRB informou que recuperou parcialmente valores no ano passado — cerca de R$ 10 bilhões, conforme o relato. Ainda assim, o tema decisivo para a autoridade monetária é o provisionamento: em depoimento à Polícia Federal, o diretor de Fiscalização do Banco Central, Aílton de Aquino, afirmou que a necessidade de provisão para cobrir perdas pode chegar a R$ 5 bilhões, diante do uso de ativos de baixa qualidade para substituir os problemáticos.
Esse valor, segundo a reportagem, será detalhado no documento enviado ao Banco Central. Na prática, o número funciona como referência para dimensionar o “tamanho do colchão” que o BRB terá de construir — via capital, ativos, garantias ou combinações — para cumprir exigências prudenciais e convencer o regulador de que o banco tem condições de atravessar o episódio sem instabilidade.
O que o Banco Central deve observar agora
Com o envio do plano, o Banco Central tende a avaliar não apenas a lista de alternativas, mas a capacidade real de execução em até 180 dias: quais medidas dependem de aprovação legislativa, quais têm cronograma viável, quais ativos são líquidos, quais envolvem maior risco de contestação e quais garantem, de fato, recomposição de capital.
No centro da decisão estará o equilíbrio entre técnica e política: o BRB precisa demonstrar que tem instrumentos concretos para reparar perdas associadas ao Master, preservar a confiança e seguir operando com segurança — enquanto o controlador, o Governo do Distrito Federal, terá de sustentar no mundo real a promessa de suporte expressa por seus principais representantes.


