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Chico Vigilante: "Custo do rombo no Master cairá sobre o povo"

Deputado denuncia operação entre BRB e Banco Master e afirma que prejuízo bilionário será repassado à população

Deputado Chico Vigilante

247 - A crise política e financeira envolvendo o BRB e o Banco Master ganhou novos desdobramentos no Distrito Federal, com pressão crescente por investigação e responsabilização de autoridades. Em entrevista ao programa Boa Noite 247, o deputado distrital Chico Vigilante do PT afirmou que o caso representa uma das situações mais graves já enfrentadas por Brasília, com potencial de causar um rombo de dezenas de bilhões de reais.

A entrevista, exibida pelo Boa Noite 247, trouxe críticas diretas do parlamentar ao governador Ibaneis Rocha e ao ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa. Segundo Chico Vigilante, a operação teria sido uma negociata com alto risco financeiro e impacto direto sobre os cofres públicos e sobre a população, que acabaria arcando com os custos por meio de tarifas bancárias e mecanismos do mercado. 

Logo no início da conversa, o deputado classificou o episódio como sem precedentes. Para ele, trata-se de um escândalo que supera outros casos históricos do Distrito Federal. “Essa situação que está acontecendo aqui em Brasília é a mais grave da nossa história e talvez uma das mais graves do Brasil”, afirmou.

Chico Vigilante explicou que o valor inicialmente associado ao negócio gira em torno de R$ 12,2 bilhões, mas apontou que o prejuízo total pode ser muito maior. “Até agora o que está dito é que essa negociata envolvendo o BRB e o Banco Master chega a R$ 12 bilhões e 200 milhões”, disse. Em seguida, acrescentou: “Mas o que a gente assiste o tempo todo é que o rombo pode ultrapassar R$ 40 bilhões”.

Na entrevista, o deputado também afirmou que alertou previamente sobre os riscos da operação e criticou a decisão do BRB de assumir ativos que ele descreveu como de baixa qualidade. “Nós alertamos que era um mau negócio. Se fosse um bom negócio, o BRB não teria entrado nessa”, declarou.

O parlamentar relatou ainda que havia informações no mercado de que o Banco Master teria sido oferecido por valores simbólicos. “A gente tem informação de que teve banco oferecendo R$ 1 pela compra do Banco Master”, afirmou, ao sustentar que o BRB acabou assumindo “títulos podres” e comprometendo recursos públicos em uma operação arriscada.

Ao abordar a reação política, Chico Vigilante informou que a oposição tenta instalar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o caso, mas enfrenta dificuldades para reunir o número necessário de assinaturas. “Hoje nós temos sete assinaturas para CPI. Precisamos de 13 para conseguir abrir a investigação”, explicou.

O deputado também criticou a atuação de setores da imprensa e de comentaristas econômicos que, segundo ele, tentam minimizar o impacto da crise ao afirmar que não haverá prejuízo ao dinheiro público. Ele rebateu diretamente esse argumento e disse que a população será a principal prejudicada.

“Tem gente dizendo que é o fundo garantidor que vai pagar e que não tem dinheiro público envolvido. Isso é conversa”, afirmou. Em seguida, reforçou: “Banqueiro não dá dinheiro de graça para ninguém. Esses R$ 40 bilhões que vão sair do fundo garantidor vão ser pagos por nós, pelo povo, através de taxas e juros cobrados pelo sistema financeiro”.

O parlamentar também comparou o tratamento dado pelo mercado a gastos sociais e ao resgate de instituições financeiras. Segundo ele, existe uma contradição evidente no discurso dominante sobre austeridade. “Quando é para reajustar aposentadoria ou fortalecer programas sociais, dizem que vai quebrar o país. Mas quando é para socorrer banqueiro, aí sempre aparece dinheiro”, afirmou.

Outro ponto enfatizado por Chico Vigilante foi a responsabilidade política do governo do Distrito Federal sobre a gestão do BRB. O deputado disse que não faz sentido atribuir toda a culpa ao presidente do banco, já que o controlador do BRB é o próprio governo local.

“O governador Ibaneis está tentando jogar tudo nas costas do Paulo Henrique. Mas o BRB não é um banco autônomo. O presidente não toma decisões dessa dimensão sem aval do controlador, que é o governador do Distrito Federal”, declarou.

Chico Vigilante destacou que o governo do DF detém a maioria das ações da instituição financeira e, por isso, tem obrigação de acompanhar e fiscalizar suas operações. “O governo do Distrito Federal tem 59% das ações do BRB. Tem o dever moral e institucional de administrar esse patrimônio e evitar que um desastre como esse aconteça”, afirmou.

Na entrevista, ele também citou episódios que, segundo ele, demonstrariam gastos excessivos e uso questionável de recursos do banco em patrocínios e eventos. O deputado mencionou despesas com publicidade, jantares e ações promocionais, enquanto, na visão dele, o banco se envolvia em operações de alto risco financeiro.

Ao mesmo tempo, o parlamentar destacou a importância histórica do BRB para o desenvolvimento econômico de Brasília e disse que o foco agora deve ser proteger a instituição para evitar consequências ainda mais graves. “O BRB sempre prestou um serviço extraordinário ao Distrito Federal. Ele é fundamental para a economia local”, afirmou.

Chico Vigilante ressaltou ainda que a carteira imobiliária do banco em Brasília teria superado a da Caixa Econômica Federal, evidenciando o peso do BRB no setor. Ele também citou que parte do Instituto de Previdência do DF possui participação acionária na instituição, o que amplia o risco social do caso.

Ao final da entrevista, o deputado avaliou como positiva a abertura de investigação pela Polícia Federal, que pode trazer consequências jurídicas para os envolvidos. “O que apareceu de novo e eu considero altamente positivo foi a instauração de um inquérito da Polícia Federal”, disse. Para ele, a apuração pode resultar em enquadramentos por gestão temerária e punições severas. “Espero, inclusive, que alguns sejam presos”, completou.

A fala do deputado reforça o clima de instabilidade política no Distrito Federal e amplia a pressão por transparência sobre as operações financeiras envolvendo o BRB e o Banco Master, um caso que pode se transformar em um dos maiores escândalos bancários já associados ao poder público local.

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