Ex-presidente do BRB cita Rueda em mensagens com Vorcaro, do Banco Master
Conversas analisadas pela PF indicam articulação política em tentativa de salvar o Banco Master e ampliam suspeitas sobre relações institucionais
247 - Uma troca de mensagens entre o então presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, e o empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, revela menções ao presidente do União Brasil, Antônio Rueda, durante negociações envolvendo a venda da instituição financeira. O conteúdo foi extraído do celular de Vorcaro e integra investigações conduzidas pela Polícia Federal (PF) e pela CPMI do INSS, informa o jornal O Globo.
Vorcaro costumava registrar capturas de tela de conversas de WhatsApp e armazená-las em seu aparelho. Um desses registros, salvo no início de 2025, mostra Costa informando que havia conversado com Rueda e indicando que o dirigente partidário também teria interesse em dialogar com o banqueiro. O material, segundo investigadores, reforça a rede de conexões políticas mobilizada por Vorcaro em meio à tentativa de reestruturar o Banco Master.
Mensagens indicam alinhamento entre os envolvidos
No diálogo analisado, Costa relata frustração com uma reunião realizada anteriormente, sem detalhar os interlocutores, e reafirma apoio a Vorcaro. “Sempre é sempre mesmo”, escreveu o então presidente do BRB. Em resposta, o empresário também manifestou alinhamento, no contexto das negociações para socorrer a instituição financeira, que enfrentava dificuldades no mercado.
As investigações buscam esclarecer o conteúdo e o alcance das tratativas mencionadas, especialmente no que diz respeito à eventual participação de agentes políticos na operação.
Defesa nega irregularidades e cita rotina institucional
Procurado, Paulo Henrique Costa afirmou, por meio de advogados, que “mensagens foram trocadas no contexto do exercício regular de suas responsabilidades como presidente do Banco de Brasília (BRB), no âmbito das relações institucionais e comerciais mantidas pelo banco".
A defesa acrescentou que “comunicações entre dirigentes de instituições financeiras fazem parte da rotina do mercado e não substituem os processos formais de análise, governança e deliberação colegiada que regem a atuação do BRB”. Também destacou que “todas as decisões relacionadas às operações em discussão foram submetidas às instâncias técnicas e de governança competentes, sempre orientadas pela defesa dos interesses do BRB”.
Já Antônio Rueda declarou que “não comenta diálogos privados” que, segundo ele, teriam sido divulgados de forma irregular. O dirigente afirmou ainda que “não possui qualquer relação” com Vorcaro, “além de contatos sociais eventuais, como ocorre com diversas pessoas do meio político e empresarial”. A defesa de Vorcaro informou que não se manifestará.
Operação bilionária e suspeitas de fraude
À época das conversas, BRB e Banco Master negociavam uma operação para tentar reequilibrar a instituição privada. O banco público anunciou a compra de 58% do capital do Master por cerca de R$ 2 bilhões, mas a transação foi barrada pelo Banco Central, que posteriormente decretou a liquidação da instituição por suspeitas de fraude e incapacidade de honrar compromissos financeiros.
As investigações apontam que o BRB teria adquirido carteiras de crédito consideradas fictícias do Master. Segundo a Polícia Federal, o volume de fraudes pode chegar a R$ 12,2 bilhões. Os investigadores identificaram “indícios de participação consciente dos dirigentes do BRB no suposto esquema fraudulento engendrado pelos gestores do Banco Master”.
Em depoimentos ao Supremo Tribunal Federal (STF), no fim do ano passado, Costa e Vorcaro negaram irregularidades, embora tenham apresentado versões divergentes sobre o conhecimento da origem dos ativos sob suspeita.
Rede de contatos políticos sob investigação
Uma das linhas de apuração busca entender como Vorcaro teria obtido apoio para uma operação considerada de alto risco. Segundo relatos, o empresário reconhecia, em conversas reservadas, a importância de sua rede de contatos em Brasília, afirmando ter feito “fortes amigos” e destacando a necessidade de apoio político para avançar no ambiente institucional brasileiro.
Outros elementos analisados reforçam essa hipótese. Um e-mail armazenado nos arquivos de Vorcaro indica que Antônio Rueda e o senador Ciro Nogueira (PP-PI) tiveram assentos reservados em um helicóptero de empresa ligada ao banqueiro após o Grande Prêmio de São Paulo de Fórmula 1, em 2024. Rueda não comentou o episódio, enquanto Nogueira confirmou presença no evento, mas negou ter utilizado a aeronave.


