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Investigações indicam que ex-diretor do Banco Central recebeu “vantagens indevidas” de Vorcaro ainda no cargo

Apuração interna do BC enviada à PF embasou fase da Operação Compliance Zero e levou ao afastamento de Paulo Souza e Belline Santana

Sede do Banco Central, em Brasília 17/12/2024 (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

247 – As investigações do chamado caso Master reuniram evidências de que o ex-diretor do Banco Central Paulo Souza já recebia “vantagens indevidas” de Daniel Vorcaro no período em que comandava a diretoria de Fiscalização da autoridade monetária, entre setembro de 2017 e julho de 2023. Os indícios, identificados em apuração interna do próprio BC, foram encaminhados à Polícia Federal e passaram a compor o conjunto de informações que sustenta medidas recentes no inquérito.

As revelações foram publicadas pelo jornal O Globo, que relatou nesta quarta-feira que o Banco Central apontou o envio dos dados à PF como parte do avanço das apurações, em um caso que atingiu a fiscalização do sistema financeiro e a supervisão sobre o banco que acabou liquidado em novembro de 2025.

Apuração interna do BC e envio de indícios à PF

Segundo o que foi informado, o BC abriu uma investigação interna após a liquidação do banco, ocorrida em novembro de 2025, com o objetivo de avaliar os procedimentos adotados na fiscalização da instituição financeira e no próprio processo de liquidação. A apuração, descrita como abrangente, procurou analisar “todo o período de influência” de Vorcaro na instituição, iniciado ainda em 2017, quando ele declarou interesse em assumir o então Banco Máxima, embora a mudança de controle só tenha se concretizado em 2019.

Foi nesse rastreamento interno que surgiram as suspeitas envolvendo Paulo Souza e outro servidor, Belline Santana. De acordo com o relato, o material produzido pelo Banco Central foi encaminhado à Polícia Federal, apontando suspeitas de que ambos teriam atuado a favor do banqueiro no relacionamento com o regulador.

A partir dos elementos reunidos, os dois servidores foram afastados do Banco Central. O texto informa que, no momento em que o caso se tornou público, por decisão tomada no âmbito da investigação interna, Belline era chefe do Departamento de Supervisão Bancária (Desup) e Souza ocupava o cargo de chefe-adjunto, responsável pelo monitoramento do Master.

Operação Compliance Zero e decisões no STF

As informações enviadas pelo Banco Central também ajudaram a embasar a terceira fase da Operação Compliance Zero. Essa etapa, conforme descrito, foi autorizada pelo ministro André Mendonça, relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF). A decisão representou um novo patamar no inquérito ao transformar o conteúdo da apuração interna do regulador em peça relevante para a atuação policial e para medidas processuais autorizadas no âmbito da Corte.

No conjunto de suspeitas que motivaram afastamentos e medidas, a Polícia Federal apontou a hipótese de que Paulo Souza e Belline Santana atuavam como “consultores informais” de Vorcaro. A suspeita inclui a revisão de documentos que seriam enviados ao regulador e, ainda, alertas ao banqueiro sobre investigações internas em curso, o que, se comprovado, configuraria um desvio grave no funcionamento de mecanismos de supervisão, que deveriam operar com independência e rigor técnico.

Um ponto ressaltado é que a decisão do ministro André Mendonça não especifica o período exato em que Souza e Santana teriam atuado em favor de Vorcaro. Ainda assim, um trecho menciona uma troca de mensagens na qual o banqueiro parabeniza o ex-diretor pela nomeação como chefe-adjunto do Desup, sinalizando que a relação entre eles poderia ser anterior às suspeitas mais recentes apontadas no processo.

Linha do tempo do caso Master e o alcance das suspeitas

A cronologia narrada na reportagem ajuda a dimensionar o alcance das investigações. Paulo Souza liderou a diretoria de Fiscalização do Banco Central de setembro de 2017 a julho de 2023, período em que a supervisão bancária atravessou mudanças relevantes no sistema financeiro. Paralelamente, a apuração interna do BC afirma alcançar o ciclo de influência de Vorcaro sobre a instituição, iniciado em 2017 e formalizado com a mudança de controle em 2019.

Com a liquidação do banco em novembro de 2025, o Banco Central deu início à investigação interna para aferir como se deu a fiscalização e como foram aplicados os procedimentos no desfecho da instituição. Nesse processo, foram descritas “fortes suspeitas” de vantagens indevidas relacionadas aos dois servidores, material que acabou remetido à PF.

Outro dado relevante do relato é que ambos já haviam deixado seus cargos por decisão do Banco Central no âmbito dessa apuração interna, que veio a público em janeiro. Assim, a terceira fase da Operação Compliance Zero ocorre em um cenário em que a própria autoridade monetária já havia tomado medidas administrativas preliminares, antes de etapas mais formais que podem ocorrer em esferas disciplinares.

Próximos passos no BC, CGU e o risco de PAD

Como parte do encaminhamento institucional, o texto aponta que, por os indícios remontarem ao período em que Paulo Souza ocupava posição na diretoria do Banco Central, o próximo movimento do BC deve ser remeter os processos derivados da investigação interna à Corregedoria-Geral da União (CGU). O órgão é descrito como responsável por tratar de casos relacionados à cúpula do Banco Central, o que tende a deslocar a análise disciplinar para um nível de controle compatível com a hierarquia dos cargos citados.

Com base nos indícios apontados pela PF, a tendência narrada é a abertura de um processo administrativo disciplinar (PAD). Esse tipo de procedimento pode resultar em sanções que vão da suspensão à demissão, dependendo do que for apurado e comprovado, além de eventuais desdobramentos na esfera criminal, caso as autoridades entendam que há elementos para responsabilização.

Procurado, Paulo Souza não respondeu aos contatos, segundo o relato. A ausência de manifestação do ex-diretor é citada no texto como parte do contexto, enquanto as investigações avançam e os órgãos de controle delineiam os próximos passos.

Sindicato pede apuração e “devido processo legal”

Em meio ao caso, o Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central (Sinal) se pronunciou defendendo esclarecimento integral dos fatos e garantias processuais. Em nota, a entidade afirmou que é fundamental que tudo seja apurado com “estrita observância do devido processo legal, do direito ao contraditório e da ampla defesa”. O posicionamento reforça a necessidade de transparência e rito formal, especialmente em investigações que atingem a credibilidade da fiscalização bancária.

O sindicato também declarou confiar “na solidez institucional do BC, na qualidade técnica e ética de seu corpo funcional e na atuação dos órgãos responsáveis pela apuração”. E concluiu com uma defesa de responsabilização caso haja comprovação de irregularidades: “Uma vez esclarecidos todos os fatos, e na hipótese de eventual constatação de ilícitos, que sejam aplicadas as medidas cabíveis, nos termos da lei, assegurando-se a responsabilização de quem de direito e a preservação da credibilidade da instituição perante a sociedade.”

O episódio, pelo que descreve a reportagem, expõe um ponto sensível do sistema de supervisão financeira: a confiança pública em mecanismos de regulação depende tanto da capacidade técnica quanto da integridade dos procedimentos internos. Com a apuração interna já encaminhada à Polícia Federal e com a Operação Compliance Zero avançando por decisão no STF, o caso tende a se desdobrar em novas frentes administrativas e disciplinares, com impacto direto sobre a forma como o Banco Central preserva sua autoridade diante da sociedade e do mercado.

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