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Vorcaro e Moraes podem ter trocado mensagens no dia da primeira prisão do dono do Banco Master; ministro nega

Registros encontrados pela PF apontam contato entre o banqueiro e o ministro do STF no dia em que o banqueiro foi detido

Alexandre de Moraes (Foto: Rosinei Coutinho/STF)

247 – O banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, pode ter trocado mensagens com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes no mesmo dia em que acabou sendo preso pela Polícia Federal, em 17 de novembro, segundo registros encontrados no celular do empresário. As informações foram reveladas pela jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo.

De acordo com a reportagem, uma das últimas mensagens enviadas por Vorcaro naquela manhã foi direcionada a Moraes por meio do WhatsApp. Às 7h19, o banqueiro escreveu ao ministro: “Fiz uma correria aqui para tentar salvar. Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”

A troca de mensagens foi localizada pela Polícia Federal durante a perícia realizada no celular de Vorcaro. Na mesma data, o empresário acabaria preso às 22h no aeroporto internacional de Guarulhos, em São Paulo, quando tentava embarcar em um jato particular com destino a Dubai, com escala em Malta.

Segundo os registros analisados pelos investigadores, Moraes respondeu logo após a mensagem enviada por Vorcaro. No entanto, não é possível saber o conteúdo da resposta. Isso porque as mensagens seguintes aparecem registradas como três mensagens de visualização única — recurso do WhatsApp que apaga automaticamente o conteúdo após ser aberto pelo destinatário.

Conversas anteriores também foram identificadas

A perícia também encontrou um outro registro de diálogo entre Vorcaro e Moraes, datado de 1º de outubro de 2025. Nesse caso, novamente não foi possível recuperar o conteúdo da conversa, já que as mensagens teriam sido apagadas ou enviadas com visualização única.

Investigadores afirmam ainda que há registros de telefonemas entre os dois. Apesar de essas referências constarem no material apreendido e analisado pela Polícia Federal, Alexandre de Moraes negou a existência das mensagens mencionadas na reportagem.

Em resposta à equipe da coluna de Malu Gaspar, o ministro afirmou por meio da assessoria de imprensa do Supremo Tribunal Federal que não recebeu os textos atribuídos a ele.

A nota enviada pela Corte afirma: “O Ministro Alexandre de Moraes não recebeu essas mensagens referidas na matéria. Trata-se de ilação mentirosa no sentido, novamente, de atacar o Supremo Tribunal Federal.”

A defesa de Daniel Vorcaro preferiu não comentar o conteúdo revelado pela investigação.

Banqueiro já sabia da investigação

De acordo com a Polícia Federal, no momento em que enviou a mensagem ao ministro, Vorcaro já tinha conhecimento da existência do inquérito que investigava a venda de carteiras de crédito fraudulentas ao Banco Regional de Brasília (BRB). A investigação acabaria levando à sua prisão e, posteriormente, à liquidação do Banco Master.

Os investigadores apontam que o banqueiro teria descoberto o inquérito ao acessar ilegalmente sistemas da própria Polícia Federal. Segundo a apuração, ele também consultou de forma irregular dois procedimentos do Ministério Público relacionados às mesmas fraudes.

Essas descobertas fazem parte do material reunido na investigação que culminou na Operação Compliance Zero da Polícia Federal.

Suspeitas de corrupção no Banco Central

A operação também revelou suspeitas de corrupção envolvendo dois chefes de supervisão do Banco Central: Paulo Sergio Souza e Belline Santana.

Segundo os investigadores, os dois servidores teriam repassado informações privilegiadas a Vorcaro sobre monitoramentos realizados pela autoridade monetária. A investigação indica que ambos revisavam documentos do banco e orientavam o banqueiro sobre como se posicionar em reuniões com o regulador.

Souza, segundo a apuração, chegou a assinar um ofício do Banco Central que foi apresentado pela defesa de Vorcaro após sua prisão. O documento teria sido utilizado para sustentar que o banqueiro havia informado previamente à autarquia sobre a viagem que faria a Dubai para supostamente negociar a venda do Banco Master a investidores árabes.

Tentativas de evitar medidas judiciais

No mesmo dia em que enviou a mensagem a Moraes afirmando ter feito uma “correria para tentar salvar”, o Banco Master realizou movimentos jurídicos e corporativos que indicavam uma tentativa de evitar o avanço das medidas judiciais.

Um deles foi o envio de uma petição à 10ª Vara Federal de Brasília, onde o inquérito tramitava sob sigilo. O documento foi encaminhado por e-mail às 15h47 ao juiz Ricardo Leite.

Na manifestação, os advogados de Vorcaro se posicionavam contra “medidas cautelares eventualmente requeridas”, argumentando que elas poderiam provocar “impacto relevante” e gerar “prejuízo irreversível a todo o conglomerado Master”.

Segundo a reportagem, a petição foi enviada apenas 18 minutos depois de o juiz Ricardo Leite determinar a prisão do banqueiro, decisão que em tese deveria ser conhecida apenas pelo gabinete do magistrado e pelos investigadores.

Para justificar o envio da petição à vara correta, mesmo com o processo em sigilo, os advogados citaram uma reportagem publicada pelo site O Bastidor que indicava onde o inquérito estava tramitando.

Investigação menciona publicação de informações

No pedido de nova prisão de Vorcaro, delegados da Polícia Federal anexaram mensagens trocadas pelo banqueiro com interlocutores e com o editor do site, Diego Escosteguy.

Segundo os investigadores citados na reportagem, o jornalista teria “esquentado” informações recebidas de forma ilegal após receber pagamentos para publicar conteúdos de interesse do executivo.

Venda do banco foi anunciada no mesmo dia

Outro movimento realizado naquele mesmo dia foi o anúncio da venda do Banco Master para o grupo Fictor. De acordo com os comunicados enviados ao mercado, o negócio envolveria um consórcio ligado a investidores árabes.

O banco enfrentava dificuldades financeiras e buscava capitalização. A venda da instituição ao BRB já havia sido vetada em setembro, e os recursos provenientes do Fundo Garantidor de Crédito, que sustentavam a liquidez do Master, estavam próximos do limite.

O comunicado anunciando a venda foi divulgado às 17h24. Segundo o documento, o grupo Fictor pagaria R$ 3 bilhões pela instituição financeira.

No entanto, não foram apresentados detalhes sobre as condições da operação nem sobre a identidade dos investidores árabes. A assessoria do grupo informou que essas informações seriam divulgadas posteriormente.

Não houve tempo. Na mesma noite, Vorcaro acabou preso no aeroporto de Guarulhos.

Banco Master foi liquidado no dia seguinte

No dia seguinte à prisão do banqueiro, o Banco Central decretou a liquidação do Banco Master. A medida ocorreu no mesmo momento em que a Polícia Federal deflagrou a primeira fase da Operação Compliance Zero.

A sequência dos acontecimentos indica que, mesmo diante das movimentações feitas ao longo daquele dia — contatos, iniciativas jurídicas e anúncios ao mercado —, a investigação já avançava para um desfecho que culminaria na prisão de Vorcaro e no colapso da instituição financeira que ele controlava.

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