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Flávio Bolsonaro fica sozinho no Nordeste, reduto eleitoral de Lula

Senador não consegue converter aliados em cabos eleitorais, dada a preferência da região pelo presidente Lula

Flávio Bolsonaro (Foto: Carlos Moura/Agência Senado)
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247 - A pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência enfrenta resistência entre aliados e pré-candidatos aos governos estaduais no Nordeste, região onde o presidente Lula (PT) venceu Jair Bolsonaro (PL) em todos os estados na eleição de 2022 e onde o mandatário mantém vantagem nas pesquisas. Pré-candidatos regionais evitam associação direta com o senador diante da força eleitoral de Lula na região, relata o G1

Cientistas políticos avaliam que o apoio explícito a Flávio Bolsonaro pode representar um custo político elevado para lideranças locais. Em 2022, Lula obteve 69,3% dos votos válidos no Nordeste, desempenho que ajuda a explicar a cautela de aliados do PL e de partidos próximos ao campo bolsonarista.

Segundo Marcos Paulo Campos, do Observatório da Política do Nordeste, a construção de alianças estaduais pelo PL não tem garantido, necessariamente, adesão efetiva à campanha nacional do senador. “Essas alianças do PL não estão garantindo o prestígio dos seus aliados em favor do Flávio Bolsonaro. Isso significa que eles não vão se empenhar na campanha nacional. Não vão buscar identificação. Por isso, há efetivas restrições políticas ao crescimento da candidatura bolsonarista no Nordeste”, afirmou.

Nas pesquisas citadas pelo levantamento, Lula aparece com 39% das intenções de voto no primeiro turno em âmbito nacional, contra 29% de Flávio Bolsonaro. No Nordeste, a distância é maior: o presidente registra 54%, enquanto o senador tem 25%. Em um eventual segundo turno, Lula soma 44% no país, contra 38% de Flávio. Na região nordestina, o placar vai a 61% para Lula e 27% para o presidenciável do PL.

Ciro Gomes e o impasse no Ceará

O Ceará aparece como um dos exemplos mais claros da dificuldade do PL em transformar alianças locais em palanque presidencial para Flávio Bolsonaro. Ciro Gomes (PSDB), que lidera pesquisas para o governo estadual em uma composição com PL e União Brasil, tem evitado vincular sua campanha ao senador.

Antes de confirmar sua pré-candidatura, Ciro respondeu com uma pergunta ao ser questionado por um jornalista sobre eventual apoio a Flávio Bolsonaro. “Por que eu apoiaria um camarada que não é do meu partido?”, disse. Depois, já como pré-candidato, passou a defender que os partidos tenham liberdade para seguir caminhos diferentes na disputa presidencial.

Ciro apoia a candidatura do deputado federal Aécio Neves à Presidência. “Nós temos a obrigação de apoiar o Aécio”, declarou em evento recente.

A negociação do apoio do PL ao ex-governador cearense também foi marcada por tensão interna no bolsonarismo. Em dezembro, Michelle Bolsonaro criticou Ciro publicamente enquanto dirigentes locais da legenda negociavam com o tucano, o que chegou a interromper momentaneamente a articulação.

A chapa de Ciro terá o ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio (União Brasil) como vice. Para o Senado, os nomes cotados são Capitão Wagner (União Brasil) e Alcides Fernandes (PL), pai do deputado André Fernandes.

André Fernandes, um dos principais nomes do PL no Ceará, afirmou em nota que o fato de Ciro se colocar como adversário do PT pode reduzir a concentração de votos tradicionalmente obtida pelo partido de Lula no estado. “Esse contexto poderá abrir espaço para o crescimento eleitoral do senador Flávio Bolsonaro”, disse.

A cientista política Monalisa Torres avalia que o grupo formado em torno de Ciro é competitivo, mas considera que a presença de Flávio Bolsonaro não favorece a campanha tucana. “Quem vai servir de palanque para Flávio no Ceará será Alcides Fernandes”, afirmou.

André Fernandes confirmou a avaliação. “Alcides, bem como toda a estrutura partidária do PL no Ceará, atuará em defesa da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, pedindo votos exclusivamente para o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro".

PL aceita papel secundário em alianças

Marcos Paulo Campos afirma que a direita vive seu momento de maior organização no Nordeste, mas ainda encontra dificuldades para converter alianças estaduais em apoio eleitoral direto ao projeto presidencial bolsonarista. Segundo ele, a estratégia do PL tem sido abrir mão do protagonismo em alguns estados para integrar composições mais amplas.

“O PL topou abrir mão de liderar para participar de alianças, mesmo quando isso significa conviver com aliados que não se comprometem com a candidatura presidencial. Tem alguns palanques, mas aceitando um regime de submissão”, avaliou o cientista político.

O especialista compara o pragmatismo do PL à postura adotada pelo PT em 2018, quando a legenda precisou preservar alianças com grupos que haviam apoiado o golpe contra Dilma Rousseff.

Raquel Lyra se distancia do PL em Pernambuco

Em Pernambuco, a governadora Raquel Lyra (PSD), pré-candidata à reeleição, é outro caso de distanciamento estratégico em relação ao PL. Embora tenha sido eleita em 2022 com apoio de lideranças bolsonaristas, como o ex-prefeito de Jaboatão dos Guararapes Anderson Ferreira e o ex-ministro Gilson Machado, Raquel buscou aproximação com Lula e não abriu espaço relevante para nomes do bolsonarismo em sua gestão, segundo a cientista política Priscila Lapa.

Em evento realizado em maio, a governadora afirmou que Pernambuco “não tem dono” e destacou sua relação com o presidente. “Conseguimos parceria quando muitos diziam que tinham o monopólio [da atenção e do apoio] do presidente da República”, disse.

Raquel ainda não anunciou oficialmente sua chapa, mas sinaliza aliança com o União Brasil. A expectativa é que Priscila Krause (PSD) seja candidata a vice. Para o Senado, os nomes cotados são Miguel Coelho (União Brasil) e Túlio Gadêlha (PSD).

Priscila Lapa avalia que a falta de espaço para lideranças do PL no governo estadual, somada ao rompimento entre Gilson Machado e Anderson Ferreira, enfraqueceu a legenda em Pernambuco. Gilson deixou o PL e migrou para o Podemos em fevereiro.

“O PL não conseguiu constituir um palanque competitivo para as eleições de 2026. Porém, pode ter um ótimo desempenho na eleição proporcional, tanto na Assembleia Legislativa quanto na Câmara Federal”, afirmou Lapa.

Em nota, o diretório estadual do PL em Pernambuco confirmou que sua prioridade será eleger deputados, mas não descartou lançar nomes ao governo estadual e ao Senado. “A expectativa é eleger entre quatro e cinco deputados federais e entre cinco e seis deputados estaduais, consolidando uma das maiores bancadas do estado. Paralelamente, o PL mantém diálogo permanente com lideranças políticas em Pernambuco”, informou a sigla.

Paraíba tem palanque mais estruturado

Na Paraíba, o PL aparece em situação mais favorável. De acordo com o cientista político Fábio Machado, o partido conseguiu montar um dos palanques mais estruturados do bolsonarismo no Nordeste, com a pré-candidatura do senador Efraim Filho ao governo e do ex-ministro da Saúde Marcelo Queiroga ao Senado.

Efraim deixou o União Brasil e se filiou ao PL em março, em ato que contou com a presença de Flávio Bolsonaro. Para Machado, a movimentação foi tratada pela legenda como parte da estratégia para dar capilaridade à candidatura presidencial na região.

“A visita de Flávio à Paraíba sinalizou essa tentativa de nacionalizar a disputa estadual e de transformar o palanque paraibano em uma vitrine regional do PL”, afirmou Fábio Machado.

O cientista político pondera, porém, que o ambiente eleitoral paraibano continua favorável a Lula, mesmo com a oposição reunindo nomes competitivos. “A campanha nacional deve aparecer com força nos atos do PL e na comunicação das lideranças bolsonaristas, mas a tendência é que muitos aliados priorizem a eleição estadual e adotem uma estratégia de aproximação controlada, sem necessariamente transformar Flávio no centro da campanha local”, disse.

Queiroga afirmou que o PL da Paraíba conta com estrutura organizada, presença nos municípios, lideranças competitivas e militância engajada na campanha presidencial. “O PL defenderá seu candidato à Presidência da República com convicção e lealdade, ao mesmo tempo em que trabalhará para ampliar sua representação nos estados. Não vejo contradição entre fortalecer o projeto nacional e construir uma alternativa política para a Paraíba.”

Piauí, Maranhão e Bahia impõem obstáculos

O cenário é mais difícil para o PL nos três estados em que Lula teve vitórias expressivas em 2022: Piauí, Bahia e Maranhão. No Piauí, o presidente recebeu 76,86% dos votos válidos. Na Bahia, chegou a 72,12%. No Maranhão, obteve 71,14%.

O cientista político Vitor Sandes avalia que Flávio Bolsonaro terá dificuldade para encontrar um palanque competitivo no Piauí. Segundo ele, o governador Rafael Fonteles (PT) é favorito à reeleição.

“É realmente muito difícil ter oposição forte no estado contra um grupo que é vinculado a Lula e contra Rafael, que tem tido alta aprovação desde o início do seu governo”, disse Sandes.

O principal opositor de Fonteles é o ex-prefeito de Floriano Joel Rodrigues (PP), aliado do senador Ciro Nogueira, ex-ministro de Jair Bolsonaro. Mesmo assim, ele não tem defendido publicamente a candidatura de Flávio Bolsonaro. “Eu não estou aqui para defender nem acusar o senador Flávio. Ele tem que ser investigado, como todos, como eu estou sendo. E, se for inocente, que seja, lógico, reconhecida a sua inocência. Se for culpado, tem que pagar exemplarmente”, afirmou.

Na Bahia, o PL decidiu integrar a chapa liderada por ACM Neto (União Brasil), pré-candidato ao governo. O presidente estadual do PL, João Roma, deve disputar uma vaga ao Senado. Havia expectativa de que ACM Neto declarasse apoio a Flávio no primeiro turno, mas ele já indicou proximidade com Ronaldo Caiado (PSD).

“Tenho uma relação histórica com Caiado, de mais de 25 anos de amizade, o que nos aproxima, o que torna muito difícil não estar com ele”, disse ACM Neto em março.

Para o cientista político Cláudio André de Sousa, o quadro enfraquece a candidatura presidencial do PL no estado. “O palanque de Flávio está comprometido na Bahia. João Roma deve abrir espaço, mas será muito difícil fortalecer essa candidatura”, avaliou.

Roma, por sua vez, afirmou que o palanque do PL na Bahia não está abalado e disse que a legenda construiu uma aliança sólida para enfrentar a hegemonia petista no estado. “O palanque de Flávio está muito forte. Eu sou pré-candidato ao Senado e tenho levantado a bandeira. Pode ter certeza que Flávio terá na Bahia um desempenho maior do que o presidente Bolsonaro em 2022”, declarou.

No Maranhão, a cientista política Ananda Marques afirma que o PL também não dispõe de um palanque forte para impulsionar a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. A avaliação muda, no entanto, quando se trata das disputas proporcionais. “No Legislativo, a gente tem um histórico no Maranhão de deputados federais e estaduais de partidos mais à direita”, explicou.

PL perde força em Sergipe e Alagoas

Em Sergipe e Alagoas, cientistas políticos avaliam que a saída de lideranças do PL para outras siglas enfraqueceu a legenda. Em Sergipe, a coordenadora do Laboratório de Estudos do Poder e da Política da Universidade Federal de Sergipe, Fernanda Petrarca, afirma que a decisão da direção nacional de entregar o comando estadual do partido ao deputado Rodrigo Valadares provocou a saída de nomes importantes.

Entre as lideranças que deixaram o PL estão a prefeita de Aracaju, Emília Corrêa, e o ex-prefeito de Itabaiana Valmir de Francisquinho, ambos agora no Republicanos. Para Petrarca, a fragmentação da oposição favorece o grupo do governador Fábio Mitidieri (PSD), candidato à reeleição e aliado de Lula.

“O campo conservador chega a 2026 dividido em dois eixos. As lideranças tentam maximizar suas estratégias individuais ancoradas na estética da comunicação digital, que continua mobilizando bases via redes sociais, mas não substitui a coordenação eleitoral”, afirmou a pesquisadora.

Procurado, o PL de Sergipe não respondeu ao contato.

Em Alagoas, a cientista política Luciana Santana considera que o partido perdeu a chance de construir um palanque robusto depois da saída do ex-prefeito de Maceió JHC para o PSDB. Segundo ela, o principal nome identificado com Flávio Bolsonaro no estado é hoje o deputado federal Alfredo Gaspar, presidente estadual do PL e pré-candidato ao Senado.

“Não vejo uma declaração tão explícita e forte de apoio a Flávio Bolsonaro de outras lideranças que efetivamente possa fazer diferença”, disse Luciana Santana.

Em nota, Gaspar afirmou que está fazendo seu dever de casa, com a construção de uma candidatura forte ao Senado, chapas competitivas para deputado estadual e federal e a tentativa de apresentar um nome ao governo até as convenções. “A candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência não depende de acordos de ocasião. [...] Não é uma candidatura que se mede por negociatas políticas ou por práticas de voto de cabresto, mas pela confiança e pelo apoio livre dos brasileiros”, declarou.

Rio Grande do Norte amplia presença do PL

No Rio Grande do Norte, o PL vive situação diferente da observada em Sergipe e Alagoas. O partido ampliou sua presença no estado ao atrair o ex-prefeito de Natal Álvaro Dias, que deixou o Republicanos em março para disputar o governo estadual.

Apesar do avanço, o cientista político Alan Lacerda avalia que a sigla ainda não consolidou uma aliança ampla no estado. O pré-candidato a vice na chapa de Álvaro, Babá Pereira, também é do PL, assim como um dos nomes cotados para o Senado, o coronel Hélio.

Mesmo com o senador Rogério Marinho, do Rio Grande do Norte, coordenando nacionalmente a campanha de Flávio Bolsonaro, Lacerda considera que a eleição estadual deverá ser pautada por temas locais. “Álvaro deve pegar o voto da direita radical, mas o centro do discurso vai ser o estado”, afirmou.

Em nota, o PL do Rio Grande do Norte disse haver uma aliança forte da direita no estado, com participação do Podemos, do Novo e do PSDB. “O pré-candidato a governador Álvaro Dias já faz a defesa da pré-candidatura do futuro presidente Flávio Bolsonaro e estará na campanha eleitoral dedicado integralmente ao projeto de salvar o Brasil e o RN do PT”, informou o partido.

Desafio central é transformar alianças em voto nacional

O quadro descrito por cientistas políticos mostra que o PL avançou em organização regional e buscou alianças competitivas em diferentes estados nordestinos. O principal obstáculo, porém, está em transformar esses acordos em apoio ativo à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro.

Em parte dos estados, lideranças locais priorizam a disputa estadual, evitam associação direta com o bolsonarismo ou demonstram preferência por outros nomes na corrida presidencial. Em outros, como a Paraíba e o Rio Grande do Norte, o partido afirma ter estruturas mais alinhadas ao projeto nacional.

A dificuldade do PL no Nordeste se explica pelo peso eleitoral de Lula na região, pela força de governadores e lideranças ligadas ao presidente e pela estratégia de candidatos locais que buscam reduzir riscos políticos em uma disputa marcada pela tentativa de conciliar alianças estaduais com a campanha presidencial de 2026.

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