Grupo português Mota-Engil negocia assumir porto, ferrovia e mina na Bahia
Negociação envolve Porto Sul, Fiol 1 e mina em Caetité; investimentos podem chegar a R$ 15 bilhões
247 - A Mota-Engil, multinacional portuguesa do setor de infraestrutura, está em fase avançada de negociações com o governo federal para assumir três ativos estratégicos na Bahia: o trecho da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol 1), o Porto Sul, em Ilhéus, e uma mina de minério de ferro em Caetité. O pacote pode envolver investimentos estimados em aproximadamente R$ 15 bilhões.
Segundo a Folha de São Paulo, o tema foi tratado diretamente com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em reunião realizada no Palácio do Planalto, no dia 26 de janeiro. Participaram do encontro o ministro da Casa Civil, Rui Costa, o ministro dos Transportes, Renan Filho, o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), e o vice-presidente do conselho de administração da Mota-Engil, Manuel António da Mota.
Após a reunião, a empresa formalizou a negociação junto ao Ministério dos Transportes. O processo está em estágio avançado de due diligence, fase em que são analisadas as condições financeiras, jurídicas e operacionais dos projetos. A expectativa é que o acordo seja concluído nas próximas semanas.
Estrutura da operação
A proposta prevê que a Mota-Engil assuma 100% das três concessões, sem novos sócios. A companhia portuguesa tem como acionista relevante a estatal chinesa China Communications Construction Company (CCCC), que detém 32,4% de participação e deverá liderar o financiamento do negócio. O BNDES é citado como possível financiador parcial, mas não como sócio por meio da BNDESPar.
Se concretizada, a operação transferirá ao grupo o controle de um corredor logístico considerado estratégico para o escoamento de minério e grãos. O traçado da Fiol foi planejado para ligar o agronegócio do Mato Grosso ao litoral baiano.
Projetos paralisados
Atualmente, os três ativos estão sob responsabilidade da Bamin, mineradora controlada pelo Eurasian Resources Group (ERG), do Cazaquistão. A empresa interrompeu as obras após enfrentar dificuldades financeiras, deixando os projetos sem previsão de retomada.
Em 2024 e 2025, a Vale avaliou a compra do conjunto de ativos, sob pressão do governo federal. As negociações não avançaram, pois a mineradora optou por concentrar investimentos em Carajás, no Pará.
Procurada pela reportagem, a Mota-Engil não comentou o assunto. A Casa Civil e o Ministério dos Transportes também não se manifestaram.
Situação da Fiol 1 e do Porto Sul
A Fiol 1, trecho de 537 quilômetros entre Caetité e Ilhéus, está com cerca de 75% das obras executadas, mas encontra-se totalmente paralisada. A ferrovia é considerada essencial para o transporte do minério da mina Pedra de Ferro até o litoral.
No fim do traçado está previsto o Porto Sul, planejado como terminal de exportação. O empreendimento privado da Bamin tem investimento estimado em mais de R$ 8,3 bilhões. Até o fim do ano passado, cerca de R$ 723 milhões haviam sido aplicados, mas o projeto segue sem avanço significativo.
O cronograma do governo previa início das operações até 2028, porém o porto acumula atraso de pelo menos 20 meses. Apesar disso, não há entraves ambientais ou fundiários, já que as licenças foram emitidas e a área está regularizada.
O complexo inclui ainda um segundo terminal sob responsabilidade do governo da Bahia, estimado em aproximadamente R$ 4,3 bilhões, que ainda não iniciou obras e deverá apresentar novo cronograma.
Impacto nos leilões ferroviários
A possível retomada da Fiol 1 pode ampliar o interesse pelo leilão da Fico-Fiol, que prevê a ligação de Caetité a Barreiras e Correntina, na Bahia, seguindo até Mara Rosa, em Goiás, e alcançando Água Boa, no Mato Grosso.
Somados aos 530 quilômetros da Fiol 1, os novos trechos podem formar um corredor ferroviário de cerca de 2.180 quilômetros, voltado à exportação de grãos e outras commodities do Centro-Oeste.
O governo federal planeja publicar o edital da Fico-Fiol em maio, com leilão previsto para agosto, na B3. O investimento estimado é de R$ 41,8 bilhões, o maior da carteira ferroviária da União.
Expansão no Brasil
Fundada em 1946, a Mota-Engil tem ampliado sua presença no Brasil. Em setembro do ano passado, venceu o leilão do túnel Santos-Guarujá, com investimentos previstos de R$ 6,7 bilhões.
A empresa também passou a deter 33% de um consórcio responsável por contrato de R$ 3,7 bilhões nas obras da Refinaria Duque de Caxias (Reduc), no Rio de Janeiro, além de ter adquirido 100% da Empresa Construtora Brasil (ECB), com sede em Belo Horizonte.

