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Polícia Civil de Pernambuco admite monitoramento indevido de aliados de João Campos

Delegado-geral confirma que operação “Nova Missão” não teve inquérito, registro nem comunicação ao Judiciário e agora é investigada pela PF

João Campos e Raquel Lyra (Foto: Divulgação )

247 - A Polícia Civil de Pernambuco reconheceu oficialmente que realizou um “monitoramento indevido” de aliados do prefeito do Recife, João Campos (PSB), sem que houvesse qualquer procedimento investigativo formal que justificasse a ação. A confirmação está em um ofício assinado pelo delegado-geral Felipe Monteiro Costa, no qual a corporação admite que a operação denominada “Nova Missão” não teve registro oficial, nem boletim de ocorrência, nem abertura de investigação, levantando suspeitas sobre a atuação clandestina do aparato policial em meio à disputa política no estado, relata o jornal O Globo.

No documento encaminhado ao escritório Lacerda e Trindade Advogados Associados, a Polícia Civil afirma que não houve instauração de Verificação Preliminar de Informação (VPI), nem designação formal de delegado ou agentes responsáveis, tampouco abertura de processo administrativo ou criminal. O texto também aponta que não foi gerado número no Sistema Eletrônico de Informações (SEI), não houve comunicação ao Poder Judiciário e não existe auto ou relatório técnico formal produzido sobre a ação.

Segundo o conteúdo do ofício, a chamada “missão de inteligência” teria sido encerrada sem confirmação de ilícitos, razão pela qual não teria sido produzido relatório final nem formalizadas peças de convicção. A ausência de documentação e de registros internos reforça a gravidade das suspeitas sobre a condução da operação e o caráter irregular do monitoramento.

O caso já havia sido citado em despacho do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou que a Polícia Federal (PF) investigasse os fatos. Na avaliação do ministro, há indícios de que a Polícia Civil pernambucana possa ter executado uma “operação clandestina” durante a gestão da governadora Raquel Lyra (PSD), que é apontada como provável adversária de João Campos na eleição para o governo estadual em 2026.

A suspeita central envolve o uso de instrumentos de vigilância e reconhecimento facial contra integrantes do entorno político do prefeito do Recife, o que, segundo o despacho citado, pode caracterizar desvio de finalidade e violação de direitos fundamentais.

A denúncia ganhou repercussão após uma reportagem da TV Record revelar que, em setembro do ano passado, agentes da Polícia Civil seguiram o veículo do secretário de Articulação Política e Social do Recife, Gustavo Monteiro, e de seu irmão, Eduardo Monteiro. Conforme relatado, um equipamento rastreador teria sido instalado no carro enquanto ele estava estacionado nas proximidades de um supermercado na capital pernambucana.

Na época, a Polícia Civil declarou que a ação teria sido motivada por uma denúncia anônima sobre suposto pagamento de propina a um servidor municipal. No entanto, como não teriam sido encontrados indícios suficientes, o inquérito não chegou a ser instaurado. O novo ofício, porém, reconhece que essa denúncia nem sequer foi registrada em sistemas oficiais, tendo sido recebida fisicamente em um envelope.

A Prefeitura do Recife reagiu afirmando que a confirmação da inexistência de procedimento formal comprova que a atuação dos policiais foi “ilegal, inconstitucional e imoral”. A gestão municipal sustenta que a estrutura da Polícia Civil pode ter sido utilizada de forma política, dentro de um cenário de antecipação da disputa eleitoral entre João Campos e Raquel Lyra.

No despacho que levou à abertura da investigação da Polícia Federal, Gilmar Mendes destacou que o uso de mecanismos técnicos de vigilância sem controle judicial e com possível objetivo político afronta diretamente princípios constitucionais, como legalidade, impessoalidade e inviolabilidade da intimidade. O ministro também observou que, embora ainda não seja possível atribuir responsabilidade direta às autoridades máximas do Executivo estadual, os alvos do monitoramento pertencem ao núcleo político do principal adversário da atual governadora, o que amplia a suspeita sobre motivação indevida.

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