Com renda de até R$ 5 mil, laranjas de MC Ryan movimentaram R$ 22,5 milhões
PF aponta que pessoas de baixa renda foram usadas para ocultar origem de recursos em esquema investigado de lavagem de dinheiro
247 - Pessoas com rendimentos mensais modestos foram utilizadas como intermediárias financeiras em um esquema de lavagem de dinheiro atribuído ao funkeiro MC Ryan SP, segundo investigação da Polícia Federal (PF). Ao menos sete indivíduos com renda de até R$ 5 mil movimentaram cerca de R$ 22,5 milhões entre abril de 2024 e dezembro de 2025, conforme apuração do Metrópoles.
O cantor Ryan Santana dos Santos é apontado como líder e principal beneficiário de uma estrutura que teria movimentado mais de R$ 260 bilhões, segundo decisão da 5ª Vara Federal de Santos, responsável por autorizar a Operação Narco Fluxo. A PF sustenta que o grupo utilizava setores como a indústria fonográfica e o entretenimento para ocultar a origem de recursos ilícitos.
Quem são os laranjas e como atuavam
As investigações detalham o perfil de pessoas usadas como “laranjas”, que, apesar de declararem baixa renda, realizaram movimentações financeiras incompatíveis com seus ganhos. Entre os casos apontados:
- Vitor Ferreira da Cruz Junior, beneficiário de programas sociais e com renda de R$ 3 mil mensais, movimentou mais de R$ 4 milhões em pouco mais de um ano;
- Alexandre Paula de Sousa Santos, conhecido como “Belga” e apontado como operador financeiro, teria movimentado mais de R$ 4,3 milhões em menos de dois meses, recebendo valores elevados e distribuindo recursos para contas ligadas ao artista;
- Sydney Wendemacher Junior, técnico em áudio, declarou renda mensal inferior a R$ 4 mil, mas movimentou mais de R$ 2 milhões em seis meses e adquiriu imóveis e veículos de luxo;
- Outros envolvidos incluem um barman com renda inferior a R$ 2 mil que transferiu valores elevados, um operador de máquinas beneficiário de programas sociais que movimentou mais de R$ 1,3 milhão e uma moradora da Bahia que recebeu mais de 200 transferências em um único mês.
Segundo a PF, essa estratégia buscava dificultar o rastreamento financeiro, permitindo que o patrimônio fosse utilizado sem exposição direta do principal investigado.
Estratégia para ocultar dinheiro
Os investigadores afirmam que o esquema utilizava duas etapas principais: a “estratificação”, que fragmenta as movimentações para dificultar o rastreio, e a “integração”, quando os valores retornam ao sistema econômico com aparência de legalidade.
A prática incluía transferências pulverizadas, uso de fintechs e aquisição de bens de alto valor, como imóveis, veículos e itens de luxo, registrados em nome de terceiros.
Operação e prisões
A Operação Narco Fluxo mobilizou mais de 200 policiais federais e cumpriu mandados de busca e apreensão e de prisão temporária em diversos estados. Entre os detidos estão MC Ryan SP, MC Poze do Rodo e Raphael Sousa, ligado à página Choquei.
A Justiça determinou o bloqueio de até R$ 2,2 bilhões em bens de 77 investigados, incluindo pessoas físicas e empresas. A decisão judicial menciona suspeitas relacionadas a tráfico internacional de drogas e ao fluxo financeiro identificado em relatórios do Coaf.
Além do bloqueio de valores, foram impostas medidas como sequestro de bens e restrições societárias, com o objetivo de interromper as atividades investigadas e preservar recursos para eventual ressarcimento.
Defesa dos investigados
Em nota, a defesa de MC Ryan afirmou não ter acesso ao processo e declarou confiar no esclarecimento dos fatos. “Ressalta-se, contudo, a absoluta integridade de MC Ryan, bem como a lisura de todas as suas transações financeiras. Todos os valores que transitam por suas contas possuem origem devidamente comprovada”.
Os advogados de MC Poze informaram que desconheciam o teor do mandado de prisão e que irão se manifestar após acesso aos autos.
Já a defesa de Raphael Sousa afirmou que sua relação com o caso se limita à prestação de serviços publicitários. Segundo o advogado Pedro Paulo de Medeiros, “Raphael não integra organização criminosa, não participou de qualquer esquema ilícito e jamais exerceu função diversa da veiculação publicitária contratada”.
A defesa dos influenciadores Chrys Dias e Débora Paixão informou que se manifestará apenas nos autos e criticou a divulgação de imagens, afirmando: “Repudiamos os vazamentos de imagens que violaram a privacidade da família e a presunção de inocência, reiterando nossa confiança na Justiça”.
As investigações seguem em andamento, e os envolvidos podem responder por crimes como lavagem de dinheiro, associação criminosa e evasão de divisas.


