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Fontes de renda do PCC se expandem do tráfico a negócios legais

Apurações apontam lavagem de dinheiro, infiltração em contratos públicos e atuação em combustíveis, transporte e apostas ilegais

Sigla da facção Primeiro Comando da Capital e um posto de combustível (Foto: Paulo Whitaker/Reuters I Agência Brasil)

247 - O dinheiro movimentado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) tem sido rastreado por autoridades em uma ampla gama de atividades, que vão de pequenos empreendimentos a grandes empresas. Investigações recentes indicam indícios de infiltração do crime organizado em firmas prestadoras de serviços ao poder público, redes de franquias, negócios ilegais na Amazônia e empresas localizadas em municípios do interior paulista pouco conhecidos do grande público.

Essas informações constam de reportagens e apurações da Folha de São Paulo, que detalham como, em muitos casos, as empresas são usadas apenas para a lavagem de dinheiro, com o objetivo de ocultar a origem ilícita dos recursos. Nos últimos anos, porém, investigações passaram a apontar um movimento mais sofisticado, no qual integrantes da facção e parceiros passaram a investir diretamente recursos do tráfico de drogas e de outros crimes em negócios formais.

Promotores do Ministério Público de São Paulo (MPSP) identificaram esse padrão em setores como o transporte coletivo da capital paulista e na aquisição de usinas sucroalcooleiras. A Operação Carbono Oculto, por exemplo, apontou a presença de pessoas ligadas ao PCC em diferentes etapas da cadeia de produção de combustíveis no país. Em audiência da CPI do Crime Organizado no Senado, em novembro, o promotor Lincoln Gakiya, do Gaeco, estimou que o faturamento anual da facção alcance ao menos R$ 10 bilhões.

As investigações realizadas nos últimos três anos revelam diversas origens para os recursos da organização criminosa.

Tráfico de drogas

O PCC se consolidou como um dos principais grupos do tráfico de drogas na América do Sul ao longo da última década, segundo diferentes apurações. A facção mantém lideranças em países andinos produtores de coca, o que permite a compra direta da droga, posteriormente enviada para a Europa e a África. Investigações já indicaram, há mais de cinco anos, parcerias com a máfia italiana ’Ndrangheta, uma das maiores do continente europeu.

O ano de 2016 é apontado como decisivo para essa expansão. Com o assassinato do traficante Jorge Rafaat Toumani, em Pedro Juan Caballero, na fronteira do Paraguai com Mato Grosso do Sul, o PCC passou a dominar a rota de tráfico que atravessa o estado e o interior paulista rumo à capital — conhecida como rota Caipira. A partir daí, os lucros com o tráfico internacional teriam se intensificado.

Embora concentre sua atuação nesse corredor estratégico, a facção também opera na rota do Solimões. Policiais militares do Amazonas relatam que PCC, Comando Vermelho (CV) e cartéis estrangeiros contratam grupos locais para transportar drogas da fronteira até Manaus, formando consórcios para custear grandes carregamentos. Na estação seca, o transporte aéreo em helicópteros de baixa altitude também é utilizado para driblar radares.

Jogos de azar

A contravenção aparece como outra fonte relevante de renda. Investigações do MPSP e da Polícia Civil identificaram conexões entre integrantes da facção e casas de apostas ilegais. Em Santos, máquinas de pagamento apreendidas em pontos clandestinos deram origem à Operação Spare, ligada à Carbono Oculto.

Já na Operação Falso Mercúrio, policiais civis encontraram indícios de que recursos provenientes de caça-níqueis na região metropolitana de São Paulo eram direcionados a uma loja de carros de luxo para lavagem de dinheiro. A Justiça determinou o bloqueio de mais de R$ 6 bilhões em contas e bens dos investigados.

Golpes virtuais

Golpes financeiros aplicados por telefone, aplicativos de mensagens e pela internet também entraram no radar das autoridades. Inquéritos da Polícia Federal e de polícias civis apontam, desde 2023, a ligação entre esse tipo de crime e o PCC. Um escritório no centro da capital paulista, associado a esse esquema, foi alvo de operação em dezembro daquele ano, resultando na prisão de 24 pessoas.

Transporte público

O setor de transporte por ônibus também foi atingido pelas investigações. Três homens apontados como lideranças do PCC — Silvio Luiz Ferreira, o Cebola; Cláudio Marcos de Almeida, o Django; e Décio Luís Gouveia, o Português — figuravam como sócios da UPBus, empresa que operava linhas municipais em São Paulo. A companhia foi alvo da Operação Fim da Linha, em 2024.

Segundo investigadores, a infiltração ocorreu por meio de uma estratégia sofisticada, com a formação de uma rede de advogados especializados em concessões públicas, criação de empresas e participação regular em licitações, que acabaram vencidas. A resposta das autoridades incluiu a tentativa de anular as concessões para retirar as empresas da operação.

Contratos públicos

Em julho de 2025, a Justiça paulista condenou Vagner Borges Dias, conhecido como Latrell Brito, por liderar um esquema de fraude em licitações ligado à facção. A sentença apontou o uso de empresas de fachada “para simular competição em licitações”, manipulando resultados e viabilizando contratos superfaturados. Procurados, os advogados do réu não se manifestaram.

As apurações levantaram suspeitas sobre contratos firmados em cidades como Guarulhos, São Paulo, Ferraz de Vasconcelos, Cubatão, Arujá, Santa Isabel, Poá, Jaguariúna, Guarujá, Sorocaba, Buri e Itatiba. Investigações anteriores do Gaeco já haviam identificado conexões da facção em contratos de saúde e coleta de lixo em Arujá. Na Operação Falso Mercúrio, também foram encontrados contratos públicos de empresas suspeitas de lavar dinheiro do PCC, embora sem indícios diretos de benefício à facção nesse caso específico, que segue em apuração.

Combustíveis e lojas de conveniência

A Operação Carbono Oculto revelou a atuação de uma organização ligada ao PCC em toda a cadeia de combustíveis. Segundo a força-tarefa, o grupo controla desde estruturas portuárias até refino, usinas sucroalcooleiras, transporte, distribuição, postos de abastecimento e lojas de conveniência.

Em uma das redes investigadas, com cerca de 200 estabelecimentos, foi constatado que bombas estavam adulteradas, entregando menos combustível do que o registrado e fora das especificações técnicas. As lojas de conveniência associadas eram usadas para lavagem de dinheiro, inclusive por pessoas já condenadas por associação ao tráfico de drogas.

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