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Haddad vira peça central em São Paulo e governo intensifica pressão por candidatura

Desempenho de Haddad contra Tarcísio em 2022 foi visto como essencial para garantir a vitória de Lula na disputa presidencial

Fernando Haddad (Foto: Diogo Zacarias/MF)

247 - Apesar de ter afirmado publicamente, em mais de uma ocasião, que não pretende disputar eleições em 2026, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), passou a ser tratado como a principal — e praticamente única — alternativa do PT para a disputa pelo governo de São Paulo. Diante desse cenário, lideranças do partido e integrantes do Palácio do Planalto intensificaram o movimento de pressão política para que ele volte a concorrer ao cargo que disputou em 2022, com o objetivo de garantir um palanque robusto ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no maior colégio eleitoral do país, informa o jornal O Globo.

Dirigentes petistas afirmam que o partido trabalha exclusivamente com o nome de Haddad em São Paulo e avaliam que o presidente Lula tem avançado em conversas para convencê-lo a aceitar a candidatura, mesmo diante da resistência do ministro. Procurado, Haddad não comentou o assunto. No Planalto, a principal preocupação é evitar que Lula chegue à eleição com um palanque fragilizado no estado, o que poderia comprometer o desempenho nacional de uma eventual campanha à reeleição.

Internamente, o PT considera que a atuação de Haddad na eleição estadual de 2022 foi decisiva para o desempenho de Lula contra Jair Bolsonaro (PL) em São Paulo. Naquele ano, o então candidato ao Palácio dos Bandeirantes foi derrotado por Tarcísio de Freitas (Republicanos), que obteve 55,27% dos votos válidos, contra 44,73% de Haddad. No segundo turno presidencial, Lula alcançou 44,76% no estado. Além disso, na comparação com 2018, o presidente ampliou em 4,3 milhões o número de votos em São Paulo, reforçando a leitura de que um palanque competitivo no estado é estratégico para o projeto nacional.

Mesmo sendo considerada distante a possibilidade de derrotar Tarcísio, aliados de Lula avaliam que é fundamental evitar uma reeleição confortável do governador, especialmente em primeiro turno, cenário que poderia ter reflexos negativos para o presidente no plano nacional. Um interlocutor do governo afirma, sob reserva, que Lula pretende escalar ministros com maior densidade política para disputas estaduais consideradas estratégicas, criando uma espécie de “banco de reservas” para o processo eleitoral.

Nas discussões internas sobre a montagem da chapa em São Paulo, além de Haddad, aparecem os nomes de Simone Tebet (Planejamento), Marina Silva (Meio Ambiente), Márcio França (Empreendedorismo) e do vice-presidente Geraldo Alckmin. As conversas abrangem todas as possibilidades: governo, vice-governadoria, Senado e suplências. Um auxiliar de Lula ressalta que São Paulo ganhou ainda mais peso nos cálculos da esquerda diante da ausência de um palanque sólido em Minas Gerais, onde o presidente tenta convencer o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG) a disputar o governo estadual.

Segundo esse aliado, caberá a Lula a palavra final sobre a composição das chapas, mas, neste momento, o presidente estaria ganhando tempo enquanto busca convencer Haddad. Há também preocupação com o risco de fragmentação do campo progressista, o que poderia favorecer candidaturas da direita. No caso do Senado, a definição das suplências é vista como estratégica, já que, em um eventual quarto mandato de Lula, senadores eleitos podem ser chamados para ministérios, abrindo espaço para os suplentes.

Aliados do Planalto avaliam ainda que a desistência de Eduardo Bolsonaro (PL-SP) de disputar o Senado em São Paulo melhora as chances de eleição de um nome alinhado ao governo federal, num contexto em que o bolsonarismo aposta fortemente na ampliação de sua bancada na Casa.

Haddad tem reiterado que seu desejo é atuar na coordenação da campanha presidencial e na elaboração do programa de governo. Petistas próximos a Lula afirmam que o presidente evita impor decisões, mas atua de forma constante no convencimento do ministro, apostando que a proximidade do calendário eleitoral pode alterar o cenário. Os dois mantêm conversas frequentes sobre o tema.

O ministro da Fazenda já manifestou a intenção de deixar o cargo em janeiro, mas admite permanecer por mais tempo e, eventualmente, acompanhar Lula em uma viagem à Índia após o Carnaval, ainda sem confirmação. Outros ministros também foram convidados para a agenda internacional, entre eles Márcio França, que já governou São Paulo e se colocou à disposição para disputar novamente o cargo, com apoio do PSB. Defensores de França argumentam que ele tem capacidade de diálogo com setores mais resistentes à esquerda, como o de policiais.

Viagens presidenciais são vistas por auxiliares como momentos estratégicos para Lula tratar de temas eleitorais. Nesta semana, por exemplo, Simone Tebet acompanhará o presidente ao Panamá, e há expectativa de que o futuro político da ministra seja discutido durante o voo. Tebet analisa um convite do PSB para mudar de partido e de domicílio eleitoral, já que, pelo MDB, uma candidatura alinhada a Lula em São Paulo é considerada improvável, devido à proximidade da sigla com Tarcísio no estado.

A pressão pública mais direta sobre Haddad veio do ministro da Educação, Camilo Santana (PT-CE). Em entrevista ao O Globo, ele afirmou: “Haddad representa algo muito maior. Ele não pode se dar ao luxo de querer tomar uma decisão individual. Ele faz parte de um projeto de Brasil, que é liderado hoje pelo presidente Lula. A gente precisa cumprir missões que muitas vezes, pessoalmente, a gente não queira".

O tom agradou a setores do PT, mas contrastou com declarações recentes de Haddad. Em entrevista à jornalista Míriam Leitão, na GloboNews, o ministro da Fazenda afirmou que não planeja disputar eleições em 2026, embora tenha reconhecido a possibilidade de reavaliar sua posição: “Não tenho nenhum problema em conversar com o PT nem com o presidente".

Camilo voltou a defender publicamente o nome de Haddad, argumentando que sua eventual candidatura está inserida em um projeto nacional: “Haddad cumpriu um papel importante em 2022. É questão de missão. Não é querer ou não querer. Muitas vezes precisamos nos colocar à disposição em nome do projeto nacional, independentemente se vamos ser vitoriosos ou não".

Outro nome lembrado para fortalecer o palanque em São Paulo é o do vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin. Embora aliados defendam sua candidatura ao governo estadual em determinados cenários, Alckmin tem afirmado que não pretende disputar nem o Palácio dos Bandeirantes nem uma vaga no Senado. Ainda assim, governistas avaliam que sua presença poderia facilitar acordos com partidos de centro, hipótese considerada remota, mas mantida no radar das articulações políticas.

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