Justiça torna Deolane ré por lavagem de dinheiro
Denúncia do MPSP aponta suposta ligação da influenciadora com esquema financeiro atribuído ao PCC em São Paulo
247 - A advogada e influenciadora Deolane Bezerra se tornou ré pelos crimes de lavagem de dinheiro e organização criminosa após a Justiça aceitar denúncia apresentada pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP), que aponta suposta ligação dela com um esquema financeiro atribuído ao Primeiro Comando da Capital (PCC), em São Paulo, informa o Metrópoles.
A denúncia foi apresentada no último dia 10 pelo promotor Lincoln Gakiya. Além de Deolane, também foram denunciados Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado como principal liderança do PCC; seu irmão, Alejandro Juvenal Herbas Camacho Junior; os sobrinhos de Marcola, Paloma Sanches Herbas Camacho e Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho; e Everton de Souza, conhecido como Player ou Temer, apontado como operador financeiro da facção.
Deolane teria atuado como receptora de valores de origem ilícita ligados à Transportadora Lado a Lado, empresa que, segundo a investigação, operava em benefício do PCC. A apuração aponta que uma conta bancária da influenciadora teria recebido depósitos fracionados feitos pela transportadora.
Os relatórios mencionados na denúncia indicam movimentações consideradas incompatíveis com a capacidade econômica declarada por Deolane, em valor apontado de R$ 27.002.774,72. A investigação também cita áudios enviados a uma diarista, nos quais haveria indícios de que valores pertencentes ao crime organizado teriam sido mantidos em imóveis da influenciadora e de seus filhos.
Ainda conforme o MPSP, Deolane teria em seu poder um plano de reestruturação de empresas ligadas ao crime organizado, com previsão de transferência para fundos em Dubai. Segundo a acusação, a medida teria como objetivo internacionalizar a estrutura empresarial e facilitar o ingresso de capital estrangeiro em negócios atribuídos à facção.
Deolane está presa na Penitenciária Feminina de Tupi Paulista, no interior de São Paulo. A defesa da influenciadora terá prazo de 10 dias para responder à acusação.
A defesa de Deolane, formada pelos advogados Aury Lopes Jr., Josimary Rocha de Vilhena, Luiz Ricardo Rodrigues Imparato e Rogério Nunes, afirmou ter tomado ciência do recebimento da denúncia apresentada pelo Ministério Público. “A defesa afirma que utilizará todos os meios de prova necessários ao esclarecimento do caso, afastando qualquer alegação de ilicitude ou conduta criminosa, uma vez que sua cliente é inocente, seus rendimentos possuem origem lícita e regularmente declarada e Deolane não possui qualquer vínculo com o crime organizado”, declarou a defesa.
Denúncia também mira Marcola e familiares
A denúncia também atribui a Marcola o papel de beneficiário final dos repasses financeiros que teriam sido operacionalizados pela transportadora. Segundo a acusação, haveria depósitos documentados em favor dele. Manuscritos apreendidos na Penitenciária II de Presidente Venceslau, no interior paulista, apontariam que ele transmitia ordens relacionadas ao esquema investigado.
Marcola cumpre pena na Penitenciária Federal de Brasília. Seu irmão, Alejandro Juvenal, também foi denunciado. De acordo com a acusação, Alejandro seria coproprietário oculto da Transportadora Lado a Lado e beneficiário central dos repasses financeiros apontados como ilícitos.
Os filhos de Alejandro, Paloma Sanches e Leonardo Alexsander, são citados na denúncia como supostos mensageiros e intermediários no esquema de lavagem de dinheiro. Já Everton de Souza, conhecido como Player, é apontado como operador financeiro de Alejandro e elo entre a liderança do PCC e o gestor da empresa de fachada.
Segundo a denúncia, Everton coordenaria repasses financeiros e indicaria contas bancárias para o recebimento de valores ilícitos. A acusação afirma que ele teria indicado a conta de Deolane para o recebimento de R$ 14.500,00, valor apontado como parte de um total de R$ 29.000,00 que seria dividido entre irmãos ligados à liderança do PCC.
Defesa da família Camacho nega acusações
Em nota, Bruno Ferullo, advogado de Marcola, Alejandro, Paloma e Leonardo, negou as acusações feitas contra seus clientes. Segundo ele, Marcola e Alejandro estão presos, “o que, por si só, torna inviável qualquer participação nos fatos investigados e evidencia o equívoco da acusação”.
Sobre Paloma e Leonardo, o advogado afirmou que “o mero vínculo familiar com os demais denunciados não pode ser confundido com participação criminosa”.
Investigação começou em 2019
A investigação teve início em 2019, após policiais penais apreenderem bilhetes com detentos da Penitenciária II de Presidente Venceslau. Os manuscritos revelaram elementos sobre a dinâmica interna do PCC, a atuação de lideranças do crime organizado e possíveis planos de ataques contra agentes públicos.
A Polícia Civil identificou, nesse material, menção a uma “mulher da transportadora”, que teria feito levantamento de endereços de servidores públicos para auxiliar no planejamento de ataques atribuídos ao PCC. A partir dessa pista, os investigadores chegaram a uma transportadora, o que abriu uma nova etapa da apuração.
Em 2021, foi deflagrada a Operação Lado a Lado, que apontou a utilização da transportadora como braço financeiro da facção. A investigação também identificou movimentações financeiras consideradas incompatíveis e crescimento econômico sem lastro.
Durante a operação, as autoridades apreenderam um celular com indícios de repasses financeiros a Deolane. O material também indicaria vínculos próximos entre a influenciadora e um dos gestores fantasmas da transportadora.
Segundo os investigadores, Deolane passou a ocupar posição central no caso em razão de movimentações financeiras expressivas, incompatibilidades patrimoniais e indícios de conexão com o comando do PCC. A apuração aponta recebimentos de origem não esclarecida, circulação de valores milionários e aquisição de bens de alto padrão, elementos que fundamentaram o novo desdobramento da investigação.



