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Laudo aponta lesões no pescoço de PM morta com tiro na cabeça e reforça suspeitas sobre o caso em São Paulo

Os peritos identificaram sinais de violência que podem indicar que a policial desmaiou antes de ser atingida pelo tiro na cabeça

Gisele Alves Santana era policial militar e deixa uma filha de sete anos (Foto: Reprodução)

247 - Um novo laudo pericial sobre a morte da policial militar Gisele Santana, de 32 anos, apontou a existência de lesões no rosto e no pescoço da vítima antes do disparo que causou sua morte. O documento foi elaborado após a exumação do corpo e reforça as dúvidas sobre as circunstâncias da ocorrência, inicialmente registrada como suicídio. As informações foram divulgadas pela TV Globo.

Segundo o laudo necroscópico obtido pela emissora, os peritos identificaram sinais de violência que podem indicar que a policial desmaiou antes de ser atingida pelo tiro na cabeça. O exame também sugere que a vítima não apresentou sinais de defesa no momento do disparo.

De acordo com os especialistas, as marcas encontradas no corpo foram classificadas como lesões "contundentes", provocadas por pressão exercida com as mãos. O documento descreve que as lesões foram feitas "por meio de pressão digital e escoriação compatível com estigma ungueal", o que indica a presença de marcas semelhantes a arranhões provocados por unhas.

Gisele Santana foi encontrada morta dentro do apartamento onde morava com o marido, o tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos, no bairro do Brás, região central da capital paulista. Foi o próprio oficial quem acionou os serviços de emergência após o disparo.

A investigação ganhou novos rumos depois que familiares da policial contestaram a hipótese de suicídio. Diante das dúvidas levantadas, o corpo foi exumado na sexta-feira (6) e submetido a novos exames no Instituto Médico-Legal (IML) Central de São Paulo no dia seguinte, incluindo uma tomografia.

A cronologia dos acontecimentos também passou a ser analisada com atenção pelos investigadores. Uma vizinha relatou à polícia que ouviu um único disparo por volta das 7h28 da manhã, vindo do apartamento do casal.No entanto, a primeira ligação feita pelo tenente-coronel aos serviços de emergência ocorreu apenas cerca de meia hora depois, às 7h57. Na chamada para a Polícia Militar, ele afirmou que a esposa havia tirado a própria vida.“Minha esposa é policial feminina. Ela se matou com um tiro na cabeça. Manda o resgate e uma viatura aqui agora, por favor”, disse o oficial durante o telefonema.

Poucos minutos depois, às 8h05, ele entrou em contato com o Corpo de Bombeiros e informou que a vítima ainda apresentava sinais de respiração. As equipes de resgate chegaram ao apartamento às 8h13.

Alguns socorristas que participaram do atendimento relataram estranhamento em relação à cena encontrada no local. Um dos profissionais afirmou ter decidido registrar imagens do ambiente porque a posição da arma na mão da vítima parecia incomum para casos de suicídio.

Segundo o relato, a arma estava encaixada na mão da policial de uma forma que ele nunca havia visto em situações semelhantes. O socorrista também afirmou que o sangue encontrado no local já estava coagulado quando a equipe chegou ao apartamento e que não havia cartucho de munição visível no ambiente.

Outro ponto que chamou a atenção dos investigadores envolve o relato do tenente-coronel sobre o momento do disparo. Em depoimento, ele afirmou que estava tomando banho quando ouviu o barulho e que, ao sair do banheiro, encontrou a esposa caída na sala.

No entanto, socorristas disseram à polícia que o oficial estava completamente seco quando as equipes chegaram ao local e que não havia marcas de água ou pegadas molhadas no chão do apartamento.Um sargento do Corpo de Bombeiros com 15 anos de experiência relatou em depoimento que encontrou o tenente-coronel vestindo apenas bermuda e sem camisa, mas sem sinais de que tivesse saído do banho naquele momento.“O declarante afirma que não havia nenhum tipo de pegada molhada que indicasse que o Tenente-Coronel teria saído imediatamente durante o banho, inclusive ele estava seco”.

Além disso, os socorristas informaram que o chuveiro do banheiro estava ligado, mas não havia poças de água no chão do imóvel ou no corredor.

Outro aspecto observado pela equipe de resgate foi o comportamento do marido da vítima. Segundo os relatos colhidos pela investigação, ele aparentava tranquilidade durante o atendimento e não demonstrou sinais de desespero.

Um dos bombeiros afirmou que o oficial falava calmamente ao telefone e insistia para que a vítima fosse retirada rapidamente do apartamento e levada ao hospital.

A investigação também analisa a presença do desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, do Tribunal de Justiça de São Paulo, no prédio na manhã da morte. Registros indicam que ele chegou ao local por volta das 9h07 e subiu até o apartamento acompanhado do tenente-coronel.

Cerca de 11 minutos depois de aparecer novamente no corredor do edifício, o oficial também deixou o apartamento, já vestido com outra roupa. Policiais que participaram da ocorrência relataram que ele apresentava forte cheiro de produto químico nesse momento.De acordo com laudos preliminares da Polícia Científica, o local onde o corpo foi encontrado não foi preservado de forma adequada logo após a ocorrência. Essa falha pode ter comprometido parte da perícia inicial e dificultado a identificação de quem efetuou o disparo.

Em nota divulgada antes da divulgação do novo laudo, a defesa do tenente-coronel Geraldo Neto afirmou que ele não é investigado, suspeito ou indiciado no processo até o momento. Segundo os advogados, o oficial tem colaborado com as autoridades desde o início da apuração.Já os representantes do desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan afirmaram que ele foi chamado ao apartamento como amigo do tenente-coronel e que qualquer esclarecimento necessário será prestado à polícia judiciária.

O caso segue sendo investigado pela Polícia Civil de São Paulo e pela Corregedoria da Polícia Militar, que apuram as circunstâncias da morte da policial e buscam esclarecer se houve crime ou se o disparo foi provocado pela própria vítima.

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