O alerta vermelho emitido à FAB antes da colisão entre helicópteros no RJ
O ofício foi encaminhado em 9 de dezembro de 2025 pela NAV Brasil, estatal responsável pelos serviços de navegação aérea
247 - Um documento enviado à Força Aérea Brasileira (FAB) meses antes da colisão entre dois helicópteros no Rio de Janeiro apontava preocupação com o crescimento expressivo do tráfego aéreo na região do Aeroporto de Jacarepaguá, de onde partiu uma das aeronaves envolvidas no acidente que matou seis pessoas em 14 de junho. A área é considerada estratégica para voos executivos, táxi aéreo, operações ligadas a plataformas em alto-mar e atividades turísticas, como passeios panorâmicos.
As informações são da CNN Brasil. O ofício foi encaminhado em 9 de dezembro de 2025 pela NAV Brasil, estatal responsável pelos serviços de navegação aérea, ao Centro Regional de Controle do Espaço Aéreo Sudeste (CRCEA-SE), órgão vinculado à FAB. No documento, a NAV alertou para o aumento do número de voos de helicóptero e para a alta quantidade de cruzamentos de aeronaves na região do Aeroporto de Jacarepaguá.
A colisão entre os dois helicópteros deixou seis mortos: o cantor norte-americano Oliver Tree, os argentinos Lucas Vignale e Gaspar Prim, o produtor musical Lucas Brito Chaves, conhecido artisticamente como Lucas Frota, além dos pilotos Alexandre Souza e Charles Marsillac. Cinco vítimas estavam em uma das aeronaves, enquanto Marsillac pilotava sozinho o outro helicóptero.
O CRCEA-SE respondeu ao ofício 14 dias depois, em 23 de dezembro de 2025. No retorno, o órgão reconheceu a situação apontada pela NAV Brasil, mas informou que mudanças estruturais no espaço aéreo da região só estavam previstas para junho de 2027, dentro de um projeto mais amplo de reorganização da Área de Controle Terminal do Rio de Janeiro.
“Quanto ao assunto, informo que já estão em andamento as atividades do Projeto de Reestruturação da TMA-RJ (Área de Controle Terminal do Rio de Janeiro) para o desenvolvimento do novo Conceito de Espaço Aéreo da Terminal Rio de Janeiro, com implementação programada para junho de 2027, cujo escopo engloba o estudo da circulação aérea do aeródromo de Jacarepaguá”, diz trecho do documento.
O alerta apontava que os cruzamentos de voos na região próxima ao local do acidente registraram picos de crescimento superiores a 150% em vários meses de 2025, na comparação com 2024. Esse tipo de operação ocorre quando aeronaves que decolam de aeroportos ou helipontos distintos acabam se encontrando no espaço aéreo durante suas rotas.
Entre janeiro e outubro de 2025, o documento registrou 141.853 operações controladas em Jacarepaguá. “Desse total, 89.077 corresponderam a operações de pouso e decolagem, e 49.101 a operações de cruzamento, representando, respectivamente, 63% e 34% do volume total de tráfegos atendidos”, afirma o alerta citado pela reportagem.
O ofício também apontava preocupação com a consciência situacional dos pilotos em uma área com intensa movimentação. Segundo o texto, havia dificuldades recorrentes de percepção sobre a presença de outras aeronaves no mesmo espaço aéreo, o que poderia provocar sobreposição de comunicações e pressão por autorizações rápidas.
“Observa-se, com frequência, limitada consciência situacional dos pilotos acerca da existência de outras aeronaves evoluindo nesse espaço aéreo, o que, em determinadas situações, resulta na sobreposição de comunicações, na tentativa de obtenção célere da autorização para cruzamento”, diz outro trecho do documento.
A colisão ocorreu perto da Avenida das Américas, na altura do Recreio dos Bandeirantes, fora da área controlada diretamente pela equipe de tráfego aéreo de Jacarepaguá. Nesse trecho, os pilotos seguem regras gerais de operação, previstas na norma RBAC 91, que incluem limites de altitude, pontos obrigatórios de notificação e condições meteorológicas para voos visuais ou por instrumentos.
Fora da jurisdição controlada pelos operadores de tráfego aéreo, os pilotos precisam atuar com base nas normas gerais da aviação e utilizar a frequência de autocoordenação, procedimento comum em diferentes regiões do país. Na prática, essa dinâmica exige que os próprios pilotos mantenham comunicação e atenção permanente sobre a movimentação de outras aeronaves no entorno.
O Rio de Janeiro não possui um ponto central de controle dedicado exclusivamente aos helicópteros, diferentemente de São Paulo. Na capital paulista, o Helicontrol, instalado no Aeroporto de Congonhas, monitora e controla esse tipo de operação. Apenas em 2025, o sistema registrou 39.581 voos de helicóptero em São Paulo.
A Polícia Civil investiga os planos de voo e as rotas percorridas pelos dois helicópteros envolvidos na colisão. A apuração técnica sobre as causas do acidente ficará sob responsabilidade do Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos), órgão encarregado de analisar fatores operacionais, humanos, técnicos e ambientais relacionados a ocorrências aeronáuticas.
Dados obtidos pela reportagem mostram que o Rio de Janeiro registrou 12 atendimentos envolvendo ocorrências com aeronaves em 2026 até agora. O número representa alta de 300% em relação ao mesmo período de 2025, quando foram registradas três ocorrências.



