HOME > Sudeste

Polícia apreende celular de produtora ligada a filme sobre Bolsonaro e HD com contratos da Prefeitura de SP

Operação investiga suspeitas de fraude e possível desvio de recursos em contrato de R$ 108 milhões do programa WiFi Livre SP

Viatura da Polícia Civil de São Paulo e Karina Ferreira Gama (Foto: Viatura da Polícia Civil de São Paulo/ PCSP/Divulgação - Karina Ferreira Gama/reprodução)
Selo Fonte Preferida no Google do Brasil 247

247 - A Polícia Civil de São Paulo realizou nesta segunda-feira (1) uma operação de busca e apreensão em oito endereços relacionados a uma investigação sobre supostas irregularidades em um contrato de R$ 108 milhões firmado entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil (ICB). Durante a ação, foram recolhidos documentos, equipamentos eletrônicos e um HD contendo contratos da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia. As informações são da coluna do jornalista Fausto Macedo, do jornal O Estado de São Paulo. 

A ONG é presidida por Karina Ferreira da Gama, sócia da produtora Go UP Entertainment, responsável pelo documentário Dark Horse, que retrata a trajetória política de Jair Bolsonaro (PL).

Equipamentos e documentos foram apreendidos

De acordo com a Polícia Civil, foram apreendidos cinco celulares, nove notebooks, 14 pen drives e diversos documentos. Entre os materiais recolhidos está o celular de Karina Ferreira e um HD localizado na Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia, que também foi alvo da operação.

As equipes também cumpriram mandados na sede do Instituto Conhecer Brasil e da Go UP Entertainment, ambas localizadas na Avenida Paulista. Nesses endereços, entretanto, não houve apreensão de materiais.

A defesa de Karina Ferreira não foi localizada pela reportagem. A empresária também não respondeu aos contatos feitos por aplicativo de mensagens.

Contrato de Wi-Fi está no centro da investigação

O contrato investigado foi firmado entre o Instituto Conhecer Brasil e a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia para implantação, operação e manutenção de cinco mil pontos públicos de acesso à internet em comunidades periféricas da capital paulista, dentro do programa WiFi Livre SP.

Os investigadores apuram possíveis irregularidades no processo de seleção da entidade, na execução do contrato e eventual desvio de recursos públicos. Uma das linhas de investigação busca verificar se recursos oriundos do contrato teriam sido destinados à produtora audiovisual durante a realização do documentário Dark Horse.

Para aprofundar as apurações, a Polícia Civil solicitou acesso a análises do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) relacionadas ao Instituto Conhecer Brasil, à Go UP Entertainment e a Karina Ferreira.

Tribunal de Contas apontou irregularidades

Segundo a investigação, o chamamento público que resultou na contratação contou apenas com a participação do ICB. Os investigadores destacam que a entidade não possuía histórico de atuação na área de telecomunicações, concentrando suas atividades anteriores na realização de feiras e eventos literários e religiosos.

O Tribunal de Contas do Município (TCM) identificou 20 irregularidades no edital e recomendou a suspensão do contrato. Apesar disso, a administração municipal manteve a contratação.

A Polícia Civil também aponta indícios de sobrepreço. Conforme a investigação, contratos anteriores executados pela Prodam registravam custo de R$ 230 para implantação e R$ 306 para manutenção de cada ponto de internet. Já o Instituto Conhecer Brasil teria passado a cobrar cerca de R$ 1,8 mil mensais por ponto instalado.

Aditivos elevaram valor do contrato

Ao longo da execução do projeto, a Prefeitura assinou aditivos que ampliaram o valor total do contrato de R$ 108 milhões para R$ 157,1 milhões.

Os investigadores afirmam que, dos cinco mil pontos inicialmente previstos, cerca de 3,2 mil teriam sido efetivamente instalados. A apuração também cita pagamentos antecipados de aproximadamente R$ 26 milhões sem comprovação integral dos serviços e suspeitas de que parte dos pontos informados não exista fisicamente.

Até dezembro de 2025, segundo os dados da investigação, a Prefeitura havia desembolsado R$ 83 milhões para o instituto e reservado outros R$ 53 milhões no orçamento de 2026.

Prefeitura nega irregularidades

Em nota, a Prefeitura de São Paulo informou que colabora com as investigações e que toda a documentação solicitada pelas autoridades já havia sido disponibilizada previamente.

A administração municipal afirmou que os dados relativos ao contrato são públicos e sustentou que o programa continua funcionando regularmente. Segundo a Prefeitura, dos 3,2 mil pontos atualmente contratados, apenas 52 estavam temporariamente fora de operação na manhã desta segunda-feira devido a manutenção.

A gestão também contestou as acusações de desvio de recursos públicos. “A Prefeitura repudia veementemente ilações de desvios de recursos públicos, uma vez que o contrato do Instituto Conhecer Brasil seguiu rigorosamente os princípios da legalidade, transparência e economicidade”, declarou em nota.

A administração acrescentou que o aditivo mencionado na investigação refere-se exclusivamente à manutenção dos 3,2 mil pontos já instalados e afirmou que não houve pagamento referente aos cinco mil pontos originalmente previstos.

Segundo a Prefeitura, o chamamento público foi realizado em 2024, antes do início da produção do documentário citado pela investigação. A gestão também argumenta que o custo estimado para 2026 será de R$ 1.280,80 por ponto ao mês, valor que considera inferior às propostas apresentadas em processos anteriores.

Artigos Relacionados