Tags viram ferramenta de perseguição contra mulheres
A prática acende alerta entre delegadas, promotoras e advogadas
247 - Dispositivos de rastreamento pequenos, baratos e de fácil acesso têm sido usados por homens para perseguir e monitorar mulheres em São Paulo, em uma nova forma de violência facilitada pela tecnologia. As chamadas tags, que permitem acompanhar deslocamentos em tempo real, vêm aparecendo com frequência em denúncias feitas à polícia, segundo informações da Folha de S.Paulo.
A prática acende alerta entre delegadas, promotoras e advogadas que atuam no enfrentamento da violência contra a mulher. Os equipamentos, normalmente utilizados para localizar chaves, bolsas e outros objetos pessoais, passaram a ser empregados de forma clandestina em carros, mochilas, bolsas, calçados e até pertences de crianças.
Na região central da capital paulista, os registros de perseguição na 1ª DDM (Delegacia de Defesa da Mulher) cresceram 15,5% no primeiro trimestre de 2026. Foram 104 boletins de ocorrência entre janeiro e março, contra 90 no mesmo período de 2025.
Um dos casos relatados envolve uma pedagoga de 46 anos, moradora da capital paulista, que não teve a identidade revelada por segurança. Ela descobriu que estava sendo monitorada após receber um alerta no celular informando que uma tag desconhecida acompanhava seus deslocamentos havia horas.
O aviso mostrava em um mapa os trajetos feitos por ela ao longo do dia. Inicialmente, a mulher acreditou que o dispositivo estivesse escondido no carro. Depois de procurar por horas, encontrou o rastreador dentro do sapato do filho de 6 anos, que passava alguns dias com ela durante o período de convivência definido pela Justiça.
A pedagoga registrou boletim de ocorrência, entregou o calçado à polícia e pediu medida protetiva de urgência. O pedido foi negado. Posteriormente, o caso virou inquérito policial e acabou arquivado. Segundo ela, o episódio não foi isolado. Antes disso, a mulher afirmou ter encontrado um gravador ligado dentro de um ursinho de pelúcia levado pelo filho para sua casa.
Para a delegada Cristine Nascimento Guedes Costa, titular da 1ª DDM de São Paulo, a tecnologia se tornou um instrumento de controle usado por agressores para manter vigilância sobre ex-companheiras mesmo sem contato físico direto.
“Eles não precisam perseguir a mulher fisicamente. Podem monitorá-la à distância com ferramentas acessíveis a qualquer pessoa”, afirmou a delegada.
Cristine relatou que os casos investigados incluem rastreadores colocados em veículos, mochilas e objetos usados pelos filhos do casal. Segundo ela, há situações em que o dispositivo é escondido de forma difícil de ser percebida pela vítima.
“Às vezes o pai coloca a tag na mochila da criança e monitora a mulher por meio dela. Temos casos do objeto estar escondido no escapamento do carro. Os investigadores precisaram fazer uma busca bem minuciosa para localizá-la”, disse.
A delegada também chamou atenção para o uso de aplicativos instalados clandestinamente em celulares de vítimas. Nesses casos, os agressores conseguem acompanhar localização, conversas e aspectos da rotina da mulher sem que ela perceba.
“Antigamente, quando uma mulher dizia que o ex sabia onde ela estava o tempo todo, muita gente achava que era paranoia. Hoje sabemos que muitas vezes há realmente algum mecanismo de rastreamento.”
Apesar da recorrência dos relatos, ainda não há estatísticas oficiais capazes de medir com precisão a dimensão do fenômeno, segundo o Ministério Público de São Paulo. Em geral, os casos são registrados como perseguição, crime conhecido como stalking, sem um campo específico que identifique o uso de dispositivos tecnológicos.
A promotora de Justiça Valeria Scarance, especialista em violência doméstica, afirmou que o Ministério Público tem recebido relatos cada vez mais frequentes de mulheres que suspeitam estar sendo monitoradas por ex-companheiros.
“Não há dados oficiais, mas esses monitoramentos acontecem. Já atendi vítimas que relatando estar em determinado lugar e o ex-parceiro simplesmente aparecer.”
Na avaliação da promotora, a popularização de rastreadores de baixo custo e funcionamento simples contribuiu para a expansão dessa forma de violência. “O acesso difundido, o baixo custo e a tecnologia simples infelizmente contribuem para essa forma de violência.”
Segundo Scarance, esconder dispositivos em objetos pessoais, veículos ou pertences dos filhos pode configurar crime de perseguição, previsto no artigo 147-A do Código Penal. A depender do contexto e das consequências para a vítima, a conduta também pode ser enquadrada como violência psicológica.
“Se esse monitoramento causar dano emocional à vítima, além das medidas protetivas, pode ficar configurado o crime de violência psicológica.”
A promotora destacou ainda que uma das principais dificuldades nesses casos é a produção de provas. Muitas vítimas percebem sinais de vigilância ou desconfiam de monitoramento, mas nem sempre conseguem demonstrar concretamente que foram rastreadas.
“A maior dificuldade está em demonstrar a perseguição tecnológica. Muitas vítimas têm desconfianças, mas raramente conseguem apresentar provas concretas de que houve monitoramento.”
Scarance também afirmou que o uso dos filhos para vigiar uma ex-companheira pode ser interpretado como violência vicária, modalidade incorporada recentemente à Lei Maria da Penha. Esse tipo de violência ocorre quando crianças, familiares ou pessoas próximas são usados para atingir emocionalmente a mulher.
Para Maíra Recchia, presidente da Comissão das Mulheres Advogadas da OAB-SP, a perseguição contra mulheres ganhou formas mais silenciosas e sofisticadas com o avanço das tecnologias de monitoramento.
“A perseguição ocorre de forma permanente e muitas vezes invisível. Hoje um agressor consegue monitorar deslocamentos, rotina, trabalho e locais frequentados pela vítima sem manter qualquer contato direto.”
A advogada afirmou que o monitoramento clandestino pode embasar pedidos de medidas protetivas e outras restrições judiciais. Ela orienta que vítimas registrem provas do dispositivo encontrado, preservem mensagens que indiquem conhecimento indevido sobre sua rotina e procurem uma delegacia especializada.
O tema ganhou ainda mais relevância após o governo do presidente Lula atualizar o Ligue 180, canal de atendimento a mulheres em situação de violência. A mudança ocorreu depois da identificação de um aumento expressivo nos relatos de violência contra a mulher no ambiente digital nos primeiros cinco meses de 2026.



