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Caso Orelha expõe falhas na formação emocional de jovens

Morte de cachorro comunitário em Santa Catarina gera comoção nacional e reacende debate sobre empatia, limites e educação emocional na adolescência

Cão Orelha (Foto: Reprodução/Redes Sociais)

247 - A morte violenta do cachorro comunitário Orelha, em Santa Catarina, provocou forte comoção em todo o país e trouxe novamente ao centro do debate temas como violência, empatia e o desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes. Conhecido e cuidado por moradores da região, o animal foi agredido e morto por adolescentes, em um episódio que gerou indignação nas redes sociais e ampla repercussão nacional, segundo O Globo.

Para a neurocientista Telma Abrahão, especialista em desenvolvimento infantil e autora de livros sobre o tema, a reação coletiva diante do caso não pode se restringir à indignação momentânea. “O Brasil parou para chorar a morte do Orelha, mas o que realmente deveria nos tirar o sono é o que está sendo cultivado no coração dos adolescentes que fizeram isso. Precisamos olhar para além do crime e enxergar o vazio emocional que ele revela”, afirma.

De acordo com a especialista, a empatia não é uma característica automática do ser humano, mas um aprendizado que se constrói ao longo da vida. “A neurociência mostra que empatia não nasce pronta. Ela é ensinada, regada diariamente pelo vínculo, pelo exemplo e, principalmente, pelos limites. Quando um adolescente é capaz de torturar um ser indefeso, isso aponta para uma falha grave nesse processo”, explica Telma.

A neurocientista também chama atenção para a confusão recorrente entre liberdade e ausência de limites no processo de educação. “Onde falta o limite amoroso, nasce a indiferença. A falta de limites não é liberdade, é abandono moral. Quando não ensinamos uma criança a respeitar um animal, estamos falhando em ensiná-la a respeitar um ser humano”, diz.

Na avaliação de Telma Abrahão, casos como o de Orelha não devem ser encarados como episódios isolados. “Esses jovens não brotaram do nada. Eles são frutos de uma cultura que evita o ‘não’, que transforma a dor do outro em entretenimento e que se omite diante da formação do caráter. A violência começa no silêncio da omissão”, pontua.

Segundo a especialista, o respeito à vida é construído principalmente no cotidiano familiar, a partir de exemplos e relações próximas. “A base da saúde mental e do caráter se forma no dia a dia: na presença, no exemplo, no amor e em limites respeitosos que ensinam que toda vida é sagrada. Uma criança que não aprende a sentir a dor de um animal honrará dificilmente a vida de um ser humano”, reforça.

Ao refletir sobre o impacto do caso, Telma dirige uma pergunta direta às famílias brasileiras: “Que tipo de humanidade estamos plantando dentro de casa? Nossos filhos estão aprendendo compaixão e respeito ou estão aprendendo que o mundo gira em torno dos próprios desejos, custe o que custar? O Orelha se foi, mas a lição precisa ficar. A educação é o único antídoto contra a barbárie!”.

A neurocientista conclui destacando que a formação do futuro passa pelos gestos cotidianos e pelas relações mais próximas. “O futuro do mundo está na mesa do jantar, na forma como ensinamos nossos filhos a tratar quem não pode se defender”, conclui.

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