Centrão isola Jorginho Mello e o PL em Santa Catarina
Governador deixa de ter o apoio de MDB, PSD, União Brasil e PP para buscar a reeleição
247 - As tensões acumuladas entre lideranças do centro político e o governador de Santa Catarina, Jorginho Mello, além da entrada de Carlos Bolsonaro na disputa por uma vaga no Senado, vêm provocando uma reorganização do tabuleiro eleitoral no estado. Insatisfeitos com decisões recentes do Palácio Barriga Verde, partidos de centro passaram a discutir uma estratégia conjunta para isolar o PL nas eleições estaduais, redesenhando alianças e abrindo espaço para uma candidatura alternativa ao governo, relata o jornal O Globo.
O movimento ganhou força após o MDB anunciar sua saída da base governista, depois de ser descartado da vaga de vice na chapa de reeleição de Jorginho Mello. A sigla, que chegou a ser apontada como parceira prioritária do governador, agora articula uma frente com PSD, União Brasil e PP. O objetivo é construir uma candidatura própria e reduzir a influência do PL, partido de Jair Bolsonaro, no processo eleitoral catarinense.
A articulação entre as quatro legendas foi discutida em reunião realizada recentemente por dirigentes estaduais. O encontro ocorreu depois de Jorginho anunciar o prefeito de Joinville, Adriano Silva, do Novo, como seu escolhido para a vice-governadoria, decisão que surpreendeu aliados e acelerou o distanciamento do MDB. O presidente do diretório estadual do partido, Carlos Chiodini, defendeu a busca por um caminho independente.
“A opção do governador é uma escolha dele. Nós devemos ter um projeto próprio, e lá na frente vamos decidir um caminho. Essa união (entre os partidos) não pode ser descartada”, afirmou Chiodini.
Antes cotado para integrar a chapa governista, Chiodini deixou o cargo de secretário estadual de Agricultura após a definição do vice. Na sequência, o MDB orientou seus filiados a também entregarem cargos ocupados na administração estadual, formalizando o rompimento político com o governo.
A possível aliança entre MDB, PSD, União Brasil e PP se apoia no peso territorial dessas siglas. Juntas, elas comandam 174 das 295 prefeituras de Santa Catarina, o que garante capilaridade e musculatura eleitoral. Caso a composição avance, o grupo tende a apoiar a pré-candidatura do prefeito de Chapecó, João Rodrigues, do PSD, ao governo do estado.
O presidente estadual do PSD, Eron Giordani, confirmou que o diálogo está aberto e sinalizou críticas à condução política do governador.
“Faremos o movimento necessário para a eleição, na construção de um projeto alternativo para Santa Catarina. A escolha de Jorginho traz mais prejuízos do que benefícios para ele”, declarou Giordani, ao comentar a exclusão do MDB da chapa.
A federação União-PP também demonstra disposição para aderir ao projeto. O descontentamento cresceu após Jorginho Mello recuar do compromisso de apoiar a reeleição do senador Esperidião Amin, do PP, abrindo espaço para a candidatura de Carlos Bolsonaro ao Senado pelo estado. O deputado federal Fabio Schiochet, do União Brasil, foi direto ao tratar do tema.
“Se ele não mantiver esse compromisso com o senador Esperidião, nós iremos caminhar com o PSD, isso é fato”, afirmou o parlamentar.
Schiochet avalia ainda que uma candidatura de João Rodrigues teria maior capacidade de agregar apoios em um eventual segundo turno do que um nome do PL.
“Se levar para o segundo turno, o voto da esquerda vai para quem aqui em Santa Catarina? Vai para o 22 (Jorginho) ou vai para o 55 (João)? Acho que é mais fácil votar no 55 do que no 22”, disse.
A consolidação dessa frente de centro tende a ter efeitos diretos na chapa governista. Um deles seria o fortalecimento da candidatura da deputada federal Carol de Toni, do PL, ao Senado, disputando a segunda vaga ao lado de Carlos Bolsonaro. Em meio às incertezas anteriores sobre o apoio de Jorginho a Amin, Carol chegou a ser sondada para se filiar ao Novo, hipótese que perdeu força com o novo cenário.
O desgaste político também envolve a quebra de um acordo anunciado publicamente pelo próprio governador. Em entrevista concedida em outubro do ano passado à rádio Jovem Pan, Jorginho Mello havia garantido que a composição de sua chapa seria definida em conjunto com o MDB.
“A vice será do MDB, já está tudo encaminhado. Não tem muito estresse. É só esperar um pouquinho. Vamos cuidar do estado de Santa Catarina”, disse o governador na ocasião.
Nos bastidores, interlocutores relatam que, ao longo do último ano, a aproximação com o MDB enfrentou resistências internas no PL, enquanto o desempenho eleitoral de Adriano Silva ganhava destaque. Em 2024, o prefeito de Joinville foi reeleito no primeiro turno com 78% dos votos, resultado expressivo na maior cidade catarinense.
Em fevereiro de 2025, a tentativa de aliança com o MDB já havia provocado incômodo entre parlamentares bolsonaristas. Na época, a deputada federal Júlia Zanatta, do PL de Santa Catarina, questionou publicamente se o critério para a composição política estaria relacionado a “votar mais com o governo Lula”, sinalizando as fissuras internas que agora se refletem na disputa eleitoral estadual.


