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Mãe denuncia ameaça ao filho de três anos em escola militar no Rio Grande do Sul

Psicóloga afirma que filho passou a temer a escola e gravou áudio com ameaça dentro da instituição

Escola de Educação Tio Chico, em Porto Alegre (RS) (Foto: Reprodução/Google Street View)
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247 - A psicóloga Shaiane Costa denunciou que seu filho, de três anos, passou a demonstrar medo intenso de ir à escola e teria sido ameaçado dentro da Escola de Educação Tio Chico, em Porto Alegre, instituição mantida pela Brigada Militar do Rio Grande do Sul e voltada gratuitamente a filhos de brigadistas de 2 a 6 anos, segundo a BBC News Brasil.

O caso veio à tona depois que a mãe colocou um gravador na mochila da criança, identificada pelo nome fictício de Pedro para preservar sua identidade. A decisão foi tomada após uma sequência de episódios que levantaram suspeitas na família, entre eles choros frequentes no caminho para a escola, pedidos repetidos de desculpas em situações banais e relatos de castigos.

Shaiane contou que começou a desconfiar quando o filho passou a acordar de madrugada chorando e perguntando se precisaria ir à escola no dia seguinte. Segundo ela, o menino também chorava de forma recorrente ao se aproximar da instituição. Em casa, dizia que havia ficado de castigo e se desculpava insistentemente por pequenos acidentes. “Se ele derrubasse uma água, ele me pedia desculpas várias vezes”, afirmou.

De acordo com a mãe, a situação chegou ao limite depois de um dia em que Pedro entrou na escola aos gritos, pulando e “sendo levado” pelo corredor, sem que ela pudesse acompanhá-lo. No dia seguinte, Shaiane decidiu colocar um gravador dentro da mochila do filho para tentar entender o que ocorria durante o período em que ele permanecia na instituição.

A psicóloga afirmou que, inicialmente, não tinha motivos para desconfiar da escola. A família aguardou que Pedro completasse dois anos, idade mínima para matrícula, e passou por um processo seletivo cujos critérios, segundo ela, não eram conhecidos. Após o período de adaptação, o menino começou a se acostumar ao ambiente e fez amigos.

Com o tempo, no entanto, alguns episódios passaram a incomodar a família. Shaiane relatou que o filho voltou para casa com uma mordida no braço sem explicação. “Perguntei se ele não avisou à professora [sobre a mordida] e ele disse que não, que ela estava ocupada cuidando de outros coleguinhas e por isso ele não quis falar”, contou. “Fiquei sem entender. Como ninguém viu aquela mordida?”.

Ao questionar a professora, a mãe ouviu que ninguém havia visto o ocorrido e que o menino não tinha chorado. “Achamos estranho. Uma mordida daquelas deve ter doído, e é normal que a criança chore".

Outros episódios também aumentaram a preocupação da família, segundo Shaiane. Ela disse que Pedro chegou em casa com febre alta sem que a escola tivesse avisado os pais. Em outra ocasião, o menino teria voltado com uma assadura severa, a ponto de ter dificuldade para caminhar dentro de casa. “Essas situações pequenas iam acontecendo e parecia que ninguém estava vendo”, afirmou.

A mãe disse ainda que as tentativas de contato com a escola não recebiam o acolhimento esperado. “Eu tenho vários registros de mensagens que eu tentava mandar para a professora, e ela sempre minimizando”, declarou. “Eu não tinha nenhum acolhimento da parte deles, era sempre ‘ah, isso aí acontece, é normal’".

Shaiane afirmou também ter buscado contato com uma sargento que exercia função semelhante à de coordenação da escola. “Mandei mensagens para a sargento, que é como se fosse a coordenadora da escola, e não tive retorno”, disse. “Eu ficava ali sendo ignorada".

Com o avanço dos meses, a mãe relatou que o filho passou a perguntar, logo ao acordar, se teria de ir para a escola. Quando recebia resposta positiva, segundo ela, ficava a manhã em silêncio. “Ele não brincava, não tinha aquela energia, não tinha disposição. Parecia que ele ficava a manhã inteira só esperando aquela hora [de ir para a escola] que ia ser um sofrimento".

No dia em que colocou o gravador na mochila, Shaiane contou que Pedro voltou para casa quase sem voz. Inicialmente, ela pensou que o filho estivesse começando a ficar resfriado. “Ele chegou quase sem voz, e eu lembro que naquele dia mandei mensagem para o meu esposo e falei ‘olha, ele está resfriando’".

Ao ouvir o conteúdo gravado, a mãe disse ter ficado em choque. “Aí foi um choque".

Segundo a BBC News Brasil, que teve acesso a trechos da gravação, é possível ouvir o menino chorando, pedindo a chupeta e chamando pela mãe. Shaiane afirmou que o filho chorou por cerca de 40 minutos. “Meu filho ficou cerca de 40 minutos berrando, e acaba se acalmando sozinho, porque tem um momento da gravação que ele volta e diz ‘eu me acalmei’”, relatou. “Ele foi totalmente escanteado".

Em um dos trechos, uma mulher diz ao menino: “O que tu tá fazendo? Tu não vais pintar mais”. A criança responde: “Desculpa”. A mulher então afirma: “não, tu não vais pintar mais, acabou. Eu adoro pintar e vou”. Na sequência, o menino começa a chorar e pede pela mãe. A mulher responde: “Não me vem com mamãe”.

O trecho que mais assustou Shaiane, segundo seu relato, foi aquele em que uma mulher diz: “Chora, pode chorar, chora bastante, chora com vontade. Senão vou te dar um tiro”.

“Na gravação é possível ouvir barulhos o tempo inteiro, e eu escuto ele berrando, pedindo pela mamãe”, afirmou Shaiane. “Ou seja, naquele dia, ele chegou em casa rouco, não era por conta de um resfriado. Foi de tanto que ele chorou".

Os episódios relatados pela família ocorreram no ano passado. Shaiane e o marido procuraram o Ministério Público do Rio Grande do Sul, que os orientou a registrar inicialmente uma denúncia na Corregedoria da Brigada Militar do Rio Grande do Sul.

Procurada pela BBC News Brasil, a Brigada Militar informou, por meio de nota, que um inquérito foi aberto para apurar os fatos e que a professora de Pedro foi afastada durante a investigação. Ainda de acordo com a reportagem, a professora retornou à escola antes da conclusão do inquérito.

Shaiane relatou que famílias de outras crianças fizeram um abaixo-assinado pedindo a volta da servidora. “Tentaram nos calar. Uma mãe inclusive colocou no grupo de WhatsApp um trecho do processo, que corria em sigilo”, afirmou.

Segundo a nota da Brigada Militar, o laudo pericial produzido pela própria Corregedoria concluiu que “os arquivos analisados não apresentaram elementos técnicos suficientes para confirmar integralmente o conteúdo divulgado, nem permitiram a identificação conclusiva da autoria vocal”.

A instituição acrescentou que, “com base no conjunto de provas reunido, incluindo depoimentos e laudo pericial, não foram identificados elementos suficientes para comprovar ilícito penal ou transgressão disciplinar”.

Apesar da conclusão citada pela Brigada, a BBC News Brasil informou ter tido acesso a depoimentos de duas servidoras da escola que constam no processo e que teriam reconhecido a voz e identificado a professora de Pedro.

Mesmo com a alegação de falta de provas por parte da Brigada, a professora deixou a escola no fim do ano. A instituição não explicou o motivo da saída. “Não cabe à instituição divulgar informações individualizadas sobre servidores ou empregados”, afirmou a Brigada.

Questionada sobre se a professora reconhece o conteúdo dos áudios, a Brigada Militar respondeu que “não está autorizada a divulgar manifestações, declarações ou posicionamentos atribuídos a pessoas específicas envolvidas em procedimentos administrativos ou investigatórios”.

Sobre as tentativas de contato relatadas por Shaiane, a corporação afirmou que “mantém canais permanentes de comunicação com as famílias e trata com seriedade todas as demandas recebidas”. A Brigada, porém, disse que não poderia confirmar ou comentar “fatos específicos” em razão da proteção de dados e informações.

O inquérito aberto pela Corregedoria pediu o arquivamento do caso na Justiça Militar do Rio Grande do Sul, mas o processo ainda não foi encerrado. A mãe espera que o MPRS conduza sua própria investigação. Há um inquérito aberto na Promotoria, mas a BBC News Brasil informou que não conseguiu obter mais detalhes sobre a situação do procedimento com a assessoria de imprensa nem com a promotora responsável.

Desde o início deste ano, Pedro frequenta outra escola, particular, onde já fez amigos e tenta retomar uma rotina normal. Segundo Shaiane, no entanto, o menino ainda apresenta dificuldades com portas fechadas e continua pedindo desculpas com frequência diante de erros comuns.

“Ele tem pânico de portas fechadas, porque ele dizia que ficava trancado na sala da sargento de castigo”, relatou a mãe. “Isso sempre foi negado pela escola, mas durante o processo foi encaminhado um documento com informações da coordenadora afirmando que ele esteve sim na sala dela, com data e horário".

Shaiane afirmou não compreender por que o filho teria sido levado à sala da sargento. “Eu me questiono por que uma criança de dois anos e meio foi parar numa sala da sargento".

A mãe disse que a criança ainda manifesta reações que a família não consegue explicar completamente. Segundo ela, isso ocorre “justamente por não saber de tudo o que acontecia”.

Shaiane espera que o tempo e a terapia ajudem Pedro a superar parte do que viveu. Ela, porém, afirma que as gravações continuam marcando a família. “Aquelas gravações todas de um único dia, de um único dia, um recorte, o que me assombra muito, porque com frequência a gente se questiona o que mais ele passou?”.

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