Canetas emagrecedoras podem combater Alzheimer, sugere estudo
Pesquisa indica que medicamentos como Ozempic e Wegovy podem reduzir proteínas ligadas ao Alzheimer, mas eficácia em humanos ainda exige mais testes
247 - As chamadas “canetas emagrecedoras”, como o Ozempic, podem ter potencial para atuar no combate à doença de Alzheimer, segundo uma revisão científica recente que analisou evidências sobre o tema. O estudo sugere que esses fármacos podem interferir em mecanismos associados à neurodegeneração, embora os resultados ainda sejam preliminares e dependam de confirmação em humanos, informa o jornal O Globo.
A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade Anglia Ruskin, no Reino Unido, e publicada na revista científica Molecular and Cellular Neuroscience. Trata-se de uma revisão sistemática que reuniu dados de 30 estudos pré-clínicos para avaliar o impacto dos chamados análogos de GLP-1 — medicamentos amplamente utilizados no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade — sobre o Alzheimer.
Redução de proteínas associadas ao Alzheimer
Os pesquisadores focaram principalmente no efeito dessas substâncias sobre o acúmulo das proteínas beta-amiloide e tau, consideradas marcadores centrais da doença. Nos estudos analisados, 22 apontaram redução nos níveis de beta-amiloide, enquanto 19 identificaram diminuição da proteína tau.
Entre os medicamentos avaliados estão exenatida (Byetta), dulaglutida (Trulicity), liraglutida (Victoza e Saxenda) e semaglutida (Ozempic e Wegovy). A liraglutida, por ser mais antiga, apresentou resultados mais consistentes na redução das duas proteínas. Já dulaglutida e semaglutida também demonstraram efeitos positivos, embora com menor volume de estudos disponíveis. A exenatida apresentou resultados variados.
Mecanismos biológicos e possíveis benefícios
De acordo com Simon Cork, autor principal do estudo, os resultados indicam múltiplos caminhos pelos quais esses medicamentos podem atuar no cérebro. “Esta nova revisão fornece uma das análises mais abrangentes até agora de como os medicamentos GLP-1 interagem com os mecanismos subjacentes do Alzheimer. Nosso estudo destaca várias vias biológicas pelas quais os medicamentos GLP-1 podem influenciar o Alzheimer, incluindo a redução da inflamação, a melhora da sinalização de insulina no cérebro e a alteração de enzimas envolvidas na produção de beta-amiloide”, afirmou.
Esses efeitos sugerem que os medicamentos podem não apenas tratar, mas potencialmente prevenir alterações associadas à doença, embora essa hipótese ainda precise ser confirmada.
Resultados em humanos ainda são inconclusivos
Apesar dos resultados promissores em laboratório, os dados clínicos em humanos permanecem limitados e divergentes. Dois estudos com liraglutida não mostraram redução das proteínas nem melhora cognitiva, mas indicaram preservação do metabolismo da glicose no cérebro, um sinal relevante da função neuronal.
Outro ensaio com exenatida não identificou mudanças significativas nos níveis de beta-amiloide ou tau no líquido cefalorraquidiano, embora tenha observado redução da beta-amiloide em vesículas extracelulares, consideradas potenciais biomarcadores precoces.
Além disso, testes clínicos de fase 3 conduzidos pela farmacêutica Novo Nordisk com semaglutida não demonstraram benefícios na progressão do Alzheimer, apesar de melhorias em biomarcadores da doença.
Potencial preventivo em foco
Para os pesquisadores, o principal potencial desses medicamentos pode estar na prevenção. “Embora estudos em humanos que demonstrem impacto no declínio cognitivo ainda estejam ausentes, as evidências atuais apontam para esses medicamentos tendo um efeito preventivo, em vez de atuarem em pacientes com comprometimento cognitivo já estabelecido”, explicou Cork.
Ele acrescenta que os resultados indicam um caminho promissor, mas ainda incerto: “Com mais de três quartos dos estudos pré-clínicos mostrando reduções em beta-amiloide ou tau, e sinais iniciais surgindo de estudos em humanos, os medicamentos GLP-1 continuam sendo fortes candidatos para futuros ensaios de prevenção do Alzheimer. Ensaios clínicos maiores e em estágios iniciais agora são necessários para determinar se esses sinais promissores realmente se traduzem em benefícios tangíveis para os pacientes”.



