Ebola no Congo pode ser um dos maiores surtos da história, alerta CDC
Ebola no Congo pode se tornar um dos maiores surtos da história após alta de casos e avanço da doença para Uganda
247 - O surto de ebola na República Democrática do Congo chegou a 452 casos confirmados em laboratório e 82 mortes, após o registro de 71 novas infecções e 21 óbitos em apenas um dia, em meio ao avanço da doença no leste do país e ao alerta de especialistas de que a epidemia pode se tornar uma das maiores já documentadas, informa o jornal O Globo.
A alta nos números ocorre enquanto autoridades de saúde ampliam a testagem em Mongbwalu, cidade mineradora da província de Ituri apontada como epicentro do surto. A instalação de capacidade local para processar amostras reduziu atrasos na confirmação de casos suspeitos e revelou uma circulação viral mais ampla do que se estimava inicialmente.
Pesquisadores dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, o CDC, alertaram que o surto associado ao vírus Bundibugyo pode atingir proporções históricas caso as medidas de contenção não sejam aceleradas. A avaliação considera principalmente o tamanho da epidemia no momento em que foi identificada, o que indica transmissão comunitária não detectada por semanas.
De acordo com as autoridades de saúde congolesas, muitos pacientes confirmados apresentaram sintomas entre 14 e 23 de maio. Um segundo aumento de casos teve início entre 25 de maio e 3 de junho. Esse padrão sugere que o vírus continuou se espalhando nas comunidades antes do reconhecimento formal do surto.
A epidemia já atinge mais de duas dezenas de zonas de saúde em três províncias do leste da República Democrática do Congo. A doença também chegou a Uganda, país vizinho, onde os casos confirmados subiram para 19 após três novos registros.
A contenção do ebola ocorre em uma região marcada por conflitos armados, deslocamentos populacionais, fronteiras de difícil controle e sistemas de saúde frágeis. Esses fatores dificultam a identificação rápida de casos, o isolamento de pacientes e o rastreamento de pessoas que tiveram contato com infectados.
A Organização Mundial da Saúde e os Centros Africanos de Controle e Prevenção de Doenças, o África CDC, lançaram um plano continental conjunto de preparação e resposta. A iniciativa busca cerca de US$ 319 milhões, mais de R$ 1 bilhão, até novembro, para apoiar países afetados e reforçar a prontidão de nações vizinhas. A versão final do plano estima uma necessidade total de financiamento de US$ 518 milhões.
A modelagem feita pelo CDC dos Estados Unidos aponta que o surto pode ter origem em um evento de transmissão comunitária ocorrido em fevereiro, antes de as autoridades serem alertadas sobre doenças inexplicáveis em Ituri. Dependendo das estimativas sobre mortes ocorridas até o fim de maio, a análise situa a transmissão comunitária mais provável entre o fim de janeiro e meados de fevereiro.
Em estudo, os pesquisadores afirmaram que a probabilidade elevada de um grande surto está ligada sobretudo ao tamanho da epidemia quando ela foi detectada, e não a evidências de que o vírus esteja se espalhando com eficiência excepcional. O surto “tem o potencial de se tornar rapidamente um dos maiores surtos de doença ebola já registrados”, escreveram.
Em um cenário no qual apenas 20% dos pacientes infectados sejam rapidamente identificados e isolados, o CDC projetou uma probabilidade de 65% de que o surto ultrapasse 20 mil casos em três meses. Caso cerca de 70% dos pacientes sejam isolados, aproximadamente uma em cada 20 simulações resultaria em epidemias com mais de 10 mil casos.
Apesar da gravidade do quadro, alguns indicadores de resposta apresentaram melhora. A proporção de contatos rastreados com sucesso subiu de 46% para 58% em dois dias, e quase 4,8 mil pessoas estão sob monitoramento. As autoridades de saúde também destacaram que o novo laboratório de diagnóstico em Mongbwalu aproxima a testagem das comunidades mais afetadas.
Os esforços de contenção, porém, continuam enfrentando ameaças. O Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho condenou um ataque contra voluntários que participavam de uma operação de sepultamento seguro em Bunia. Segundo a organização, vários socorristas ficaram feridos.
“Os ataques contra voluntários não só colocam vidas em risco, como também prejudicam os esforços para conter o surto e proteger as comunidades”, declarou a organização.
O vírus Bundibugyo representa um desafio adicional para as equipes de saúde. Diferentemente da cepa Zaire, associada à maioria das grandes epidemias de ebola, ainda não há vacina licenciada nem terapia aprovada especificamente para a doença causada por essa variante. Vacinas e tratamentos experimentais estão em desenvolvimento, enquanto autoridades tentam acelerar o isolamento de casos, o rastreamento de contatos e a ampliação da resposta sanitária na região.



