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Padilha pode voltar da Índia com acordos para ampliar produção de genéricos no Brasil

Meta do Ministério da Saúde é atrair indústrias indianas, reduzir custos de medicamentos e internalizar a produção de princípios ativos

Ministro Alexandre Padilha 10/03/2025 REUTERS/Adriano Machado (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

247 – O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, pode retornar da Índia com acordos voltados à produção de medicamentos genéricos no Brasil e à transferência de tecnologia para laboratórios nacionais. A estratégia, que integra a agenda da visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao país asiático, busca ampliar parcerias com a poderosa indústria farmacêutica indiana, reduzir o custo dos fármacos no mercado interno e trazer para o território brasileiro a fabricação dos princípios ativos — etapa central da cadeia produtiva.

A movimentação ocorre poucos dias após a Índia lançar, em Brasília, a Associação Brasileira da Indústria Farmacêutica Indiana (Abrifi). O evento foi realizado na Embaixada da Índia, com a presença de Padilha e do diretor-presidente da Anvisa, Leandro Pinheiro Safatle, e antecede a viagem presidencial ao país asiático.

Ponte institucional para novos investimentos

A Abrifi nasce com o objetivo de funcionar como ponte institucional entre empresas farmacêuticas indianas e o mercado brasileiro, facilitando parcerias, investimentos e adequação regulatória às normas locais.

Em discurso no evento, Padilha destacou o ambiente favorável para a ampliação da cooperação. Segundo ele, a criação da entidade demonstra “terreno fértil de parcerias entre Brasil e Índia” e sinaliza o interesse de empresas indianas em se instalarem no Brasil.

O ministro ressaltou que o Brasil é hoje o maior mercado consumidor de produtos indianos na área da saúde e que as importações cresceram em 2025. Para ele, o momento é propício para transformar essa relação comercial em parceria produtiva.

O embaixador da Índia no Brasil, Dinesh Bhatia, também enfatizou o peso do setor farmacêutico indiano. Segundo ele, o país asiático se consolidou como “a farmácia do mundo”, tornando-se o maior provedor global de medicamentos genéricos.

Redução de custos e fortalecimento da indústria nacional

A aproximação com a indústria indiana já vem impactando os preços de medicamentos no Brasil. A entrada de genéricos produzidos por empresas indianas no mercado brasileiro amplia a concorrência e pressiona os preços para baixo, beneficiando o Sistema Único de Saúde (SUS) e os consumidores.

Agora, a meta do Ministério da Saúde é avançar além da importação de produtos acabados. O objetivo é atrair fábricas, estabelecer joint ventures e promover a transferência de tecnologia para que parte relevante da produção ocorra em território nacional.

Nesse contexto, ganha destaque a intenção de internalizar a fabricação dos chamados princípios ativos — também conhecidos como insumos farmacêuticos ativos (IFAs).

Os princípios ativos são as substâncias responsáveis pelo efeito terapêutico do medicamento. Em outras palavras, são os componentes químicos ou biológicos que atuam no organismo para tratar ou prevenir doenças. Hoje, uma parcela significativa desses insumos utilizados pela indústria brasileira é importada, principalmente da Ásia. Ao trazer essa etapa produtiva para laboratórios nacionais, o Brasil reduz sua dependência externa, fortalece sua soberania sanitária e cria empregos de maior valor agregado.

Cooperação regulatória e tecnologia

A comitiva brasileira que acompanhará Lula à Índia inclui representantes da Anvisa e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), sinalizando que a agenda vai além de compromissos diplomáticos.

Padilha afirmou que há expectativa de assinatura de memorandos de cooperação e de acordos envolvendo hospitais inteligentes indianos que utilizam Inteligência Artificial, com previsão de transferência de tecnologia ao Brasil. A aproximação entre a Anvisa e a agência reguladora indiana também é vista como passo essencial para agilizar processos de registro e harmonizar exigências sanitárias.

Integração estratégica no Sul Global

A agenda farmacêutica se insere em um movimento mais amplo de fortalecimento da parceria estratégica entre Brasil e Índia, duas das maiores economias do Sul Global e integrantes do BRICS.

Além dos acordos na área da saúde, a visita presidencial prevê entendimentos em setores como transformação digital, minerais críticos e cooperação industrial. No caso dos medicamentos, porém, a expectativa é que os resultados tenham impacto direto no cotidiano da população brasileira, ao combinar redução de preços, fortalecimento do SUS e estímulo à indústria nacional.

Se os acordos avançarem como esperado, Padilha poderá voltar da Índia não apenas com memorandos assinados, mas com as bases de uma nova etapa da política industrial da saúde no Brasil — menos dependente da importação e mais focada na produção local de tecnologia e insumos estratégicos.

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