Nathalia Urban por Milenna Saraiva

Esta seção é dedicada à memória da jornalista Nathalia Urban, internacionalista e pioneira do Sul Global

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Entenda o que são os três sutras e sete chakras que ancoram a cúpula de IA na Índia

Conceitos de origem sânscrita organizam a India AI Impact Summit 2026 em Nova Déli e simbolizam a busca por uma inteligência artificial inclusiva

India AI Impact Summit (Foto: Agência ANI)

247 – O encontro India AI Impact Summit 2026 teve início no Bharat Mandapam, em Nova Déli, estruturada a partir de uma simbologia inspirada na tradição indiana: três “sutras” e sete “chakras” organizam o maior encontro global de inteligência artificial já realizado no Sul Global. As informações foram divulgadas pela agência ANI.

Ao recorrer a esses termos de origem sânscrita, o governo indiano buscou associar inovação tecnológica a valores culturais e filosóficos milenares. “Sutra” significa literalmente “fio” — algo que conecta e dá unidade a um conjunto de ensinamentos. Já “chakra” quer dizer “roda” ou “círculo”, simbolizando movimento, equilíbrio e energia dinâmica. No contexto da cúpula, os três sutras funcionam como pilares orientadores, enquanto os sete chakras representam eixos temáticos que estruturam os debates e propostas.

Os três sutras: pessoas, planeta e progresso

Os três sutras definidos para o encontro são People (Pessoas), Planet (Planeta) e Progress (Progresso).

No eixo “Pessoas”, a inteligência artificial é apresentada como ferramenta de inclusão social. Entre os exemplos citados estão a ampliação do acesso à saúde por meio de telemedicina e diagnósticos assistidos por IA, a personalização da educação com sistemas de aprendizado adaptativo e o reforço da segurança financeira com tecnologias de detecção de fraudes.

No sutra “Planeta”, o foco está na sustentabilidade. A IA é apontada como instrumento para práticas agrícolas mais inteligentes, com previsão de safras, agricultura de precisão e monitoramento por drones, buscando maior eficiência e menor impacto ambiental.

Já “Progresso” está ligado à modernização do Estado e à melhoria de serviços. Segundo a descrição oficial, a IA vem sendo usada para traduzir decisões judiciais, aprimorar a prestação de serviços públicos e aumentar a eficiência cotidiana em áreas como mobilidade, entrega de alimentos e serviços digitais personalizados, tanto em regiões urbanas quanto rurais.

Os sete chakras: eixos temáticos da governança global

Os sete “chakras” funcionam como rodas temáticas que guiam os debates multilaterais da cúpula. Eles abrangem Capital Humano; Inclusão para Empoderamento Social; IA Segura e Confiável; Resiliência; Inovação e Eficiência; Ciência; Democratização de Recursos de IA; e IA para Crescimento Econômico e Bem Social.

A metáfora da “roda” reforça a ideia de movimento contínuo e integração entre diferentes dimensões — técnica, social, econômica e ética — da inteligência artificial. O objetivo declarado é assegurar cooperação internacional e resultados práticos para a sociedade.

Modi destaca bem-estar coletivo como princípio orientador

A cúpula foi inaugurada pelo primeiro-ministro Narendra Modi, que já havia destacado nas redes sociais o tema central do encontro: “Sarvajana Hitaya, Sarvajana Sukhaya”. A expressão em sânscrito significa “bem-estar para todos, felicidade para todos”, sintetizando a proposta de uma inteligência artificial centrada no ser humano.

Modi deve fazer o discurso inaugural formal no dia 19 de fevereiro, reforçando a visão da Índia de uma IA “inclusiva, confiável e orientada ao desenvolvimento”.

Regulação, empregos e riscos da desinformação

O encontro também abriu espaço para discussões sobre os riscos associados à expansão da IA. O ministro da Eletrônica e Tecnologia da Informação, Ashwini Vaishnaw, alertou para o avanço da desinformação, da manipulação digital e dos chamados deepfakes.

Durante uma conversa intitulada “Recompensando nosso futuro criativo na era da IA”, ele afirmou: “Inovação sem confiança é um risco”, acrescentando que o governo trabalha em regulamentações que tornem obrigatória a marcação e a rotulagem de conteúdos gerados por inteligência artificial para proteger a autenticidade da criatividade humana.

O conselheiro econômico-chefe da Índia, V Anantha Nageswaran, declarou que o impacto da IA sobre o mercado de trabalho dependerá de escolhas políticas deliberadas, defendendo que os resultados não sejam acidentais, mas estejam alinhados à empregabilidade em massa e ao crescimento inclusivo.

No setor privado, Sanjeev Bikhchandani, fundador da Info Edge, avaliou que a IA está aumentando a produtividade em vez de eliminar empregos, mas alertou que profissionais que não se adaptarem às novas ferramentas podem ficar para trás.

Protagonismo do Sul Global e ambições estratégicas

A cúpula reúne mais de 20 chefes de Estado, 60 ministros e cerca de 500 líderes globais de inteligência artificial, incluindo formuladores de políticas públicas, pesquisadores, startups e executivos do setor tecnológico. O evento ocorre de 16 a 20 de fevereiro e inclui uma exposição com mais de 300 expositores de 30 países.

Entre os destaques estão três desafios globais — IA para Todos, IA por Elas e YUVAi — voltados à identificação de soluções escaláveis alinhadas às prioridades nacionais e aos objetivos globais de desenvolvimento.

Sob a missão IndiaAI, o país também apresenta 12 modelos fundacionais desenvolvidos por startups e consórcios locais, treinados com grandes bases de dados indianas e adaptados às 22 línguas oficiais do país.

Com um mercado de IA projetado para ultrapassar 17 bilhões de dólares até 2027, cerca de 800 milhões de usuários de internet e uma infraestrutura digital pública consolidada, a Índia utiliza a simbologia dos sutras e chakras para transmitir uma mensagem estratégica: a inteligência artificial deve girar como uma roda de desenvolvimento coletivo, conectada por fios que unam inovação, inclusão e responsabilidade global.

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