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Planos de saúde empresariais sobem acima da inflação e restringem acesso

Reajustes de até 10% nos planos de saúde empresariais superam inflação e vêm acompanhados de regras mais rígidas de reembolso e coparticipação

Representação de médico em ambiente hospitalar (Foto: Gerada por IA/DALL-E)

247 - Os planos de saúde coletivos contratados por empresas devem registrar aumentos entre 9% e 10% em 2026, índice que representa cerca do dobro da inflação projetada para o período, estimada em 4,8%. Apesar de inferiores aos reajustes recentes, os aumentos seguem pressionando custos corporativos e vêm acompanhados de mudanças que restringem o acesso a serviços e reembolsos, segundo o jornal O Globo.

Os reajustes deste ano tendem a ser mais moderados em comparação a 2025, quando os contratos empresariais e por adesão tiveram aumento médio de 11%. Ainda assim, o percentual continua elevado diante da inflação oficial medida pelo IPCA, conforme projeções do Banco Central.

Nos últimos anos, as operadoras aplicaram reajustes expressivos para compensar perdas acumuladas durante a pandemia. Em alguns casos, os aumentos chegaram a até 40% em contratos coletivos, que não possuem limite regulatório da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), ao contrário dos planos individuais. Em 2023 e 2024, as correções ficaram em 14,14% e 13,19%, respectivamente.

O cálculo dos reajustes considera principalmente a inflação médica, que inclui custos com medicamentos, equipamentos hospitalares e novas tecnologias, além da frequência de uso dos serviços pelos beneficiários. Outro fator relevante é a sinistralidade — proporção da receita das operadoras utilizada para cobrir despesas assistenciais — que ficou em 81,7% no último ano, abaixo dos 83,7% registrados anteriormente, segundo a ANS.

Especialistas apontam que o cenário atual reflete um movimento de controle de custos por parte das operadoras. Na carteira da consultoria Mercer Marsh Benefícios, que reúne cerca de 5 milhões de usuários, a previsão de reajuste gira em torno de 9%. O superintendente atuarial Thomás Ishizuka informou que a inflação médica desse grupo ficou em 9,1%, enquanto a sinistralidade encerrou 2025 em 78,4%.

Segundo o diretor executivo da consultoria, Marcelo Borges, medidas de controle vêm impactando diretamente os reajustes: “Estamos vendo uma redução na inflação médica, e isso tem a ver com um maior controle pelas operadoras em relação às fraudes e melhores acordos de custos com as redes prestadoras credenciadas. Tudo isso resulta em negociações mais flexíveis de reajustes entre as operadoras e as empresas contratantes dos planos”.

Entre as principais mudanças adotadas pelas operadoras está o endurecimento das regras de reembolso e o aumento da coparticipação — cobrança adicional ao usuário por procedimentos realizados. Dados da ANS mostram que a proporção de contratos coletivos com coparticipação subiu de 53,3% em 2020 para 59,1% em 2024.

Além disso, houve redução das redes credenciadas, com substituição de hospitais mais caros por opções mais acessíveis. Para o analista de Saúde do Itaú BBA, Vinicius Figueiredo, essas estratégias visam alterar o comportamento dos usuários: “São medidas para impor mudanças de hábitos dos beneficiários, seja buscar um médico da rede própria e não um profissional de fora para depois depender do reembolso, e até fazer o usuário pensar duas vezes antes de ir pra emergência porque tem uma coparticipação alta”.

Analistas avaliam que essas restrições tendem a se consolidar no setor. O vice-presidente de Benefícios Corporativos da Acrisure Brasil, Márcio Tosi, afirma que o reequilíbrio financeiro das operadoras tem impacto direto na qualidade dos serviços: “No final, esse equilíbrio sempre se traduz em redução de qualidade, seja da rede, do reembolso, enfim, para chegar num valor que se possa pagar”.

Apesar da melhora nos resultados do setor — com lucro operacional de R$ 24,4 bilhões em 2025, alta de 120,6% — ainda há preocupação com a sustentabilidade, especialmente entre operadoras de menor porte. O presidente da Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge), Gustavo Ribeiro, destacou que o cenário não é uniforme: “Existe uma melhora no setor desde 2023, indiscutivelmente. O grande ponto é se essa melhora é suficiente para, de maneira linear, trazer sustentabilidade. O resultado operacional de 45% das pequenas e médias operadoras foi negativo. É algo a ser olhado com cautela”.

Outro fator que pode influenciar os reajustes nos próximos anos é a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que estabeleceu critérios mais rigorosos para a obrigatoriedade de cobertura de procedimentos fora da lista da ANS. A expectativa do setor é que a medida reduza a judicialização e, consequentemente, a pressão sobre os custos — embora os efeitos mais significativos devam aparecer apenas a partir do próximo ano.

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