Vorcaro negociou venda de testes de Covid com governo Bolsonaro
Diálogos obtidos pela CPMI do INSS mostram tratativas de Daniel Vorcaro para importar testes em 2020 e contato com a Casa Civil
247 - Mensagens analisadas pela CPMI do INSS indicam que o empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, tentou negociar a venda de testes de Covid-19 no início da pandemia, em março de 2020, mantendo interlocução com a Casa Civil do governo Jair Bolsonaro (PL) sobre a importação dos produtos, informa a Folha de São Paulo.
De acordo com o material obtido pela comissão, os registros mostram uma conversa entre Vorcaro e um integrante da Casa Civil da Presidência da República. No diálogo, armazenado em uma captura de tela no celular do empresário, o interlocutor questiona de que forma o governo federal poderia contribuir com a operação.
Na sequência da conversa, Vorcaro relata dificuldades para viabilizar a negociação e menciona entraves externos. Segundo ele, houve um “empecilho” decorrente de uma “intervenção” do governo da Coreia do Sul, o que teria dificultado a aquisição dos testes. Ainda assim, afirmou que buscava alternativas e trabalhava para “fechar com outro fornecedor”.
À época, Vorcaro ainda não era amplamente conhecido no setor financeiro e tinha atuação predominante no mercado imobiliário. Ele havia assumido o controle do então Banco Máxima em 2019, instituição que viria a ser rebatizada como Banco Master dois anos depois.
Documentos fiscais entregues à CPMI indicam que o patrimônio do empresário cresceu de R$ 469,7 milhões em 2020 para R$ 2,64 bilhões em 2024, evidenciando rápida expansão de seus negócios no período.
Apesar das conversas, não há elementos que comprovem que Vorcaro tenha efetivamente concretizado a compra dos testes ou realizado venda direta ao governo Bolsonaro. As mensagens também não detalham empresas envolvidas nem especificações dos produtos ofertados.
Integrantes da Casa Civil e do Ministério da Saúde que participaram do comitê de crise na pandemia relataram que diversos empresários procuraram o governo naquele momento com propostas para importação de testes. No entanto, poucas negociações avançaram. Segundo esses relatos, países como a Coreia do Sul adotaram restrições à exportação de insumos para priorizar o abastecimento interno.
Procurada pela Folha de São Paulo, a assessoria de Vorcaro optou por não comentar o conteúdo das mensagens.
Nos primeiros meses da pandemia, o governo federal distribuiu majoritariamente testes rápidos obtidos por meio de doações de empresas. O Ministério da Saúde chegou a abrir solicitação para aquisição desses insumos, mas acabou cancelando o processo. Posteriormente, realizou compras de testes de uma farmacêutica sul-coreana.
A aquisição de exames do tipo RT-PCR, considerado padrão-ouro para diagnóstico da Covid-19, foi feita por intermédio da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). Ainda assim, parte significativa desses testes permaneceu armazenada por meses devido à ausência de kits completos para análise, resultando na perda de validade de ao menos 1,2 milhão de unidades.
No campo judicial, Vorcaro foi preso pela primeira vez em 17 de novembro, ao tentar embarcar para o exterior no Aeroporto de Guarulhos. Após ser solto dez dias depois, voltou a ser detido em 4 de março, durante nova fase da operação Compliance Zero.
Atualmente, o empresário negocia um acordo de delação premiada com a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República. Ele foi transferido da Penitenciária Federal de Brasília para a sede da PF na capital para discutir os termos do possível acordo.
A CPMI do INSS recebeu recentemente um grande volume de documentos relacionados a Vorcaro. No entanto, decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), em 16 de março, restringiu o acesso a materiais obtidos por meio da quebra de sigilo do empresário.
Entre os documentos estão informações financeiras detalhadas, como declarações de Imposto de Renda, além de conversas pessoais, incluindo mensagens com a ex-noiva Martha Graeff nas quais ele relata encontros com autoridades como o ministro Alexandre de Moraes e o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB).


