Nathalia Urban por Milenna Saraiva

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A China quer se tornar o novo destino mundial de compras

China amplia isenção de visto, reembolso de impostos e facilidades de pagamento para atrair turistas e consolidar o país como novo polo global de compras

A China quer se tornar o novo destino mundial de compras (Foto: CGTN)

Por Aaron Liu - Do acesso sem visto aos reembolsos fiscais instantâneos, a China está transformando a experiência de viagem para atrair mais visitantes estrangeiros e convertê-los em consumidores.

Imagine reservar uma viagem de última hora para Xangai sem necessidade de visto, pagar comida de rua com um cartão de crédito estrangeiro e receber um reembolso fiscal imediato — tudo em questão de 48 horas.

Para María, uma viajante espanhola, essa experiência já é uma realidade.

“Antes a China parecia difícil de percorrer. Agora é até mais fácil do que fazer compras em Paris ou Tóquio, e os produtos que você encontra aqui são únicos".

Em 2025, mais de 150 milhões de visitantes internacionais viajaram para a China e gastaram mais de 130 bilhões de dólares, o que representa um aumento de 17% em relação ao ano anterior.

Durante as atuais Duas Sessões na China, o governo apresentou um plano ambicioso: transformar o país em um destino global de compras.

O relatório de trabalho do governo, apresentado ao parlamento para deliberação, destacou a necessidade de otimizar o ambiente de consumo para visitantes estrangeiros, o que reflete uma mudança de enfoque: de simplesmente atrair turistas para incentivar ativamente o gasto internacional.

De portas abertas ao tapete vermelho

O ministro do Comércio da China, Wang Wentao, explicou em 6 de março uma estratégia baseada em três pilares: organizar grandes eventos de consumo, introduzir novas políticas e melhorar os cenários de compra.

O elemento central é a “versão 2.0” do sistema de devolução de impostos para turistas.

O gasto mínimo para solicitar o reembolso foi reduzido de 500 para 200 yuans, com uma taxa de devolução aproximada de 11%. Além disso, o sistema “comprar agora, devolver agora” já é aplicado em todo o país.

Até 2025, a China havia ampliado o acesso sem visto para 43 países, incluindo Coreia do Sul, França, Alemanha e Austrália. Os viajantes que cumprem os requisitos podem permanecer até 30 dias e realizar múltiplas entradas.

Graças a essa política, em 2025 foram registradas 30 milhões de entradas sem visto.

Projetado para eliminar barreiras

O sistema de pagamentos também foi adaptado para visitantes internacionais.

Hoje, os cartões de crédito estrangeiros funcionam sem problemas na maioria dos estabelecimentos comerciais. Além disso, aplicativos como Alipay e WeChat Pay permitem vincular cartões internacionais em menos de dois minutos, sem necessidade de idioma chinês, número de telefone local ou documentos de residência.

Aisha, uma estudante nigeriana, descobriu essa facilidade durante uma escala em Hangzhou.

“Usei meu cartão Visa pelo WeChat para comprar uma xícara de chá Longjing e depois paguei meu trem para Pequim. Senti que o sistema foi projetado para mim".

O Ministério do Comércio também está testando um programa em 15 cidades para criar um ambiente de consumo de nível mundial e atrair o gasto de turistas internacionais.

De "Made in China" para "Must buy in China"

Os visitantes estrangeiros estão descobrindo que os produtos chineses já não são associados apenas a artigos baratos.

Os mercados eletrônicos de Shenzhen atraem compradores internacionais que buscam:

  • smartphones
  • drones
  • capacetes de realidade virtual
  • dispositivos inteligentes de saúde

Carlos, um youtuber brasileiro com mais de 2 milhões de seguidores, comentou:

“Meu visor de realidade virtual comprado na China é melhor que a versão americana e custa a metade".

Além da tecnologia, os produtos de patrimônio cultural imaterial também ganharam popularidade.

Entre eles destacam-se:

  • pandas de brocado de Sichuan
  • pinturas tradicionais do Ano Novo chinês
  • artesanias de bronze
  • produtos culturais do chamado “Guochao”, a tendência que mistura tradição e design moderno

Ivan, um turista russo, parou diante de uma escultura de jade que levou três meses para ser concluída.

“Isso não é simplesmente um objeto. É uma parte da história da China".

Um modelo difícil de replicar

A vantagem da China não se limita ao preço ou à variedade de produtos.

Ela também reside na combinação única entre tradição e modernidade.

Em que outro lugar é possível comprar pela manhã uma lanterna pintada à mão por um artesão e, à tarde, testar um drone com rastreamento automático?

A blogueira mexicana Sofía resume assim:

“A mistura entre o antigo e o moderno na China é viciante. Comprei um leque tradicional e um relógio inteligente. Ambos contam uma história sobre a China de hoje".

A segurança pública e a infraestrutura também reforçam esse atrativo. As principais cidades chinesas apresentam altos níveis de segurança e contam com uma extensa rede de trens de alta velocidade que conecta destinos comerciais em poucas horas.

O Festival da Primavera também se tornou uma celebração cada vez mais internacional.

Durante o período festivo foram registrados 17,79 milhões de viagens transfronteiriças, incluindo 460 mil entradas sem visto, o que representa um aumento de 28,5% em relação à média diária do ano anterior.

O futuro: do consumo ao relacionamento

A iniciativa “Shop in China” busca ir além do turismo ocasional.

O programa incluirá uma série de eventos e exposições urbanas ao longo de todo o ano com o objetivo de transformar visitantes ocasionais em clientes recorrentes.

Isso será alcançado por meio de:

  • serviços multilíngues
  • oficinas culturais
  • sistemas de pagamento integrados

Do ponto de vista econômico, o potencial é significativo. O consumo de visitantes estrangeiros ainda representa uma proporção menor do PIB em comparação com economias desenvolvidas.

Reduzir essa diferença poderia gerar centenas de bilhões de dólares em crescimento adicional.

Em 2025, a China registrou mais de 150 milhões de chegadas internacionais.

Entre os produtos que muitos turistas já consideram “imprescindíveis de comprar na China” estão:

  • smartphones
  • drones
  • visores de realidade virtual
  • itens culturais colecionáveis
  • produtos criativos
  • brinquedos da moda

María, que se prepara para sua terceira viagem à China em dois anos, resume assim:

“Antes a China era um destino que você queria visitar uma vez na vida. Agora é um lugar ao qual quero voltar todos os anos. As compras são fantásticas, mas o que realmente te conquista é a sensação de ser bem-vindo".

O novo destino mundial de compras não está apenas aberto aos negócios.

Também está redefinindo o turismo comercial: menos transações, mais experiências; menos visitas únicas, mais relações duradouras.

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